sábado, 28 de janeiro de 2017

Um casal de mutuns na floresta


"Passeava um dia de madrugada pelo mato.
Galhos de árvores cheirosos, salpicavam-me de gotas frias de orvalho; o sol, coando suavemente o seu brilho, por entre a neblina, transformava as clareiras da floresta em pequenas alcovas doiradas. Parei, para olhar em volta. Dentro em pouco ouvi um frú-frú de folhas úmidas e por entre a névoa que se levantava, vi um casal de mutuns. O mutum é uma ave de grande porte, regulando um peru comum em proporção; de uma cor de um negro-azeviche, é sua plumagem dotada de um brilho furta-cor quando exposta ao sol; bico um tanto recurvado, de cor vermelha e um penachozinho à cabeça e um tanto pernalta.
Não estavam procurando comida, mas apenas exprimindo sua satisfação. Abriam a cauda em leque e enchiam as penas de ar, levantavam as asas de vez em quando, como para voar; passeavam assim com pose, de um lado para outro, ou então exibiam-se em graciosas piruetas. Ao fim de algum tempo o mutum voou para um tronco coberto de musgo e inflando as penas  do pescoço, começou a arrulhar docemente; não era o grasnar de desafio mas, um monólogo de contentamento, como a querer saudar o novo dia". Mário Paiva. A vida dos animais da Amazônia: suas lendas e superstições. 1945, p. 19.
 
 
Mutum - Urumutum -
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Um lago no meio da floresta

"[...]. Nunca encontrei lugar em que os animais mostrassem uma tão completa ausência de medo do homem, num verdadeiro estado paradisíaco, como aqui, à beira deste desconhecido lago no meio da floresta, que é provavelmente o mais meridional de uma série de lagos semelhantes, distribuídos na região inexplorada, entre as bocas dos rios Cunani e Cassiporé. As araras azuis pousavam a cada instante, em bandos de quatro a seis, nas majestosas palmeiras-miriti da margem oposta. Vimo-las chocando em buracos destes troncos altos, onde a ave desde longe é traída por sua enorme cauda, para a qual o buraco não oferece naturalmente espaço bastante. Um grande número de papagaios e periquitos estavam também chocando em lugares semelhantes: aqueles, como as araras, nos buracos dos troncos das palmeiras; estes principalmente nas covas dos ninhos das formigas brancas.
Cegonhas, garças, arirambas e mergulhões, animavam a vegetação de um modo surpreendente e maravilhoso. Além destas aves aquáticas havia um número incrível de ciganas, pombos e aves mais pequenas de diversas espécies, enquanto que os guaribas e os macaquinhos-de-cheiro olhavam espantados para as nossas canoas. Emílio A. Goeldi (1859-1917). Resultados ornithologicos de uma viagem de naturalistas à costa da Guyana meridional. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethongraphia, Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 223, 1902.
 
 
Papagaios e periquitos
Album de Aves Amazônicas 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Grandes árvores inclinadas sobre as águas


"A medida que avançávamos pela correnteza turva e borbulhante, perlongando a mata verde e encharcada pelas chuvas, íamos deparando grandes árvores inclinadas sobre as águas, em ambas as margens. Nos pontos em que o rio se estreitava e as árvores pendentes eram muito longas ou coincidia ficarem as de uma margem na direção das da outra, tínhamos pela frente uma barreira que somente o machado removia.
Havia muitas palmáceas, sobretudo buritizeiros de frondes rijas em forma de leque e uma bela espécie de bacaba com longas e graciosas copas recurvadas. Em certos sítios essas palmeiras se erguiam umas bem junto das outras, afuniladas e esguias como majestosa colunata encimada pelas frondes em alto relevo sobre o fundo do céu.
Borboletas de cores variegadas voejavam sobre o rio. A chuva caía em bátegas, do céu nublado. Quando o sol surgiu, por entre as nuvens, a floresta se iluminou com o clarão de seus raios de ouro". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selva do Brasil. 1976, p. 163.
 
 
 Tronco caído na mata.
Viagem ao Brasil do Príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied.
Biblioteca Brasiliana da Robert Bosch GmbH. 2001. Petrópolis - RJ.
 

 
 
 

domingo, 15 de janeiro de 2017

A natureza tropical


"A princípio não se observa este e nem aquele fato isolado, há apenas esse vago sentido de perplexidade, mas ao mesmo tempo de beleza e exatidão em tudo. Só depois de dias e semanas de permanência aqui é que se pode raciocinar sobre o que vemos; quando a floresta for tão familiar como os campos da pátria; quando as árvores e cipós se tornarem amigos comprovados. Mas suponhamos ter essa familiaridade; há centenas de coisas interessantes para ver a cada dia.
Ela é muito diferente de uma floresta do norte, e diferente ainda das imagens que dela fizemos, construindo um ideal a partir de estufas e descrições. Nossas estufas não são naturais, porque reúnem um grande número de plantas tropicais de cinquenta regiões diferentes. Todas essas espécies são notáveis por suas grandes folhas ou formas singulares, ou pelas flores brilhantes; e dão uma ideia muito forçada da natureza tropical; uma ideia muito degradada, a meu ver; pode-se estragar até combinações de plantas por um excesso de ornamento". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizada em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011. p. 158.
 
 
 
 
Pintura de  Martin Johnson Heade (1819-1904)


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Aves em profusão


"Aves em profusão, por vezes aos milhares, formando nuvens quando voam, poderão ser vistas à beira dos lagos, principalmente na região do salgado, e quando as águas já começam a descer. Formam a legião dos pernaltas e palmípedes, uns a passearem de andas, outros de patinhas tão curtas que mais se diriam com o corpo roçagando diretamente o chão. Se apontamos a costa marítima como mais propícia a essas reuniões, é que alguns, e dos mais belos, como os flamingos, guarás e colhereiros, preferem a mariscação na água salobra.
As garças de imaculada plumagem nívea hão de predominar quase sempre entre essas aves aquáticas e paludícolas, de permeio às quais avultará o circunspecto tuiuiú, um verdadeiro gigante quando comparado às minúsculas batuíras e jaçanãs. Estas últimas, aliás, tirando partido da sua leveza, não limitam o âmbito das suas excursões à franja dos alagadiços. Afoitam-se por lagoas a dentro chapinhando sobre as folhas do matupá. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 4.ed. 1976, p. 113.




Ipequi e Piaçoca ou Jaçanã.
 Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

As solitárias aves pernaltas


" Ao caminhar ao longo daquela praia fluvial, várias coisas ali me lembravam a beira do mar. Bandos de gaivotas brancas planavam no alto do céu, soltando seus pios característicos, enquanto numerosos maçaricos desfilavam pela beira d´água. Solitárias aves pernaltas perambulavam, com ar solene, para cá e para lá. Uma delas, a curicaca (Ibis melanopis), levantou voo à minha frente soltando um cacarejo surdo, sendo logo seguida por um pássaro, o unicórnio (Palameda cornuta), que voou de uma moita assustado, com a minha presença; seus pios roucos, lembrando o zurro de um asno, porém mais agudos, perturbaram desagradavelmente a quietude do lugar. Entre as moitas de salgueiros viam-se bandos de um belo pássaro da família dos icterídeos, ornados com uma linda plumagem negra e amarelo açafrão. Passei algum tempo observando um bando de pássaros que os nativos chamam de tamburi-pará; achavam-se todos agrupados nas cecrópias. Trata-se do Monasa nigrifrons, segundo a classificação dos ornitólogos; sua plumagem é cor de chumbo e seu bico alaranjado. Pertence à família dos capitonídeos, cujos os membros, em sua maioria, são conhecidos por seu temperamento indolente e pouco vivaz. As espécies classificadas como pertencentes ao gênero Bucco são chamadas pelos índios, na língua tupi, de taiaçu-uirá, ou pássaro-porco. Esses pássaros permanecem por horas a fio pousados em bandos nos ramos baixos das árvores, à sombra, e só se animam a fazer algum esforço quando algum inseto passa voando perto deles. Já os tamburi-pará mostravam-se o oposto deles; saltitavam e esvoaçavam de ramo em ramo, perseguindo uns aos outros alegremente, e enquanto se divertiam dessa maneira soltavam pios curtos e melodiosos que produziam, em conjunto, um coro musical que muito me surpreendeu". Henri Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 114.
 
 
Curicaca-Colhereiro-Arapapá.
Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.


terça-feira, 3 de janeiro de 2017

As pequenas Geonomas


"Entre as graciosas plantas da margem da lagoa merece também atenção especial a Mari-mari, qualidade de Cassia, cujas belas e longas vagens são apreciadas pelos índios como um grande petisco.
Nas calmas enseadas, enfim, sobrenadam, grandes como outras tantas barquinhas e da forma de bandejas, as folhas da soberba  Victoria régia, a rainha sem rival de toda a flora aquática. Petulantes golfinhos brincam em cardumes no meio do lago. [...].
Lá onde não chegam as inundações periódicas, na chamada terra firme, a vegetação já assume caráter diferente. O castanheiro (Bertholletia excelsa), nosso augusto conhecido das margens do Tocantins, aparece aqui outra vez em grandes bosques, ornado dos seus grandes e pesados cocos.
Aqui também é que se encontra a verdadeira riqueza de madeiras de construção, cuja enumeração encheria um volume.
A seringueira, que aqui já não prospera, é representada pela maçaranduba, que além do seu leite de valor industrial fornece frutos saborosos. A variedade de palmeiras é grande, se bem que não tanto talvez como no Amazonas inferior. Nos altos barrancos das margens ostentam-se grupos da elegante palmeira Javari, de longe apreciável pela glauca de sua coma.
As Attaleas, entre elas o soberbo Ouassú, também se encontram na ourela do mato, e no sombrio santuário da floresta são espécies de pequenas Geonomas que ocupam vastas extensões; entre estes sobressai pela originalidade a Paxiúba com o tronco fusiforme repousando num alto pedestal  de espinhosas raízes aéreas. Mas o mais perfeito tipo vegetal desta Zona florestal representa incontestavelmente a chamada banana  brava ou pacova sororoca (Urania amazônica) talvez a mais bela de todas as musáceas". Dr. Paulo Ehrenreich (1855-1914). Viagem nos rios Amazonas  e Purus. Revista do Museu Paulista, t. 16, p. 305, 1929.
 
 
Geonoma spixiana.
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850.