quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Verdadeiros jardins suspensos


"[...]. Entre o solo triste dos deserdados e o alto das franças floridas há um andar intermédio, onde se apresenta uma outra vida luxuriante e multicor, verdadeiros jardins suspensos, constituídos por plantas que nas árvores gigantescas foram apenas buscar um pouco, bastando-lhes o pouco de terra que se acumula entre dois ramos, a umidade retida pelas raízes emaranhadas. É o andar das epífitas, orquídeas de flores caprichosas, gravatás de brilhante colorido, e outras, e outras muitas. Aqui e ali, rompendo a dureza de um tronco, surge a despeito da treva e da umidade, muito abaixo das suas irmãs felizes das alturas, uma flor que vem buscar a fertilização num mundo diferente, por asas diversas das que voluteia, visitando as outras  flores de sua espécie". Cândido de Mello-Leitão (1886-1948). A vida na selva. 1940. p 9-10.


Orquídea Comparettia falcata
Lindenia-iconographie des orchidées, v. 4, 1888
www.biodiversitylibrary.org

domingo, 10 de dezembro de 2017

Uma formidável tempestade


"Nessa tarde, quando regressávamos, uma formidável tempestade surpreendeu-nos na mata. O mar de frondes verdes encapelara-se de súbito, estopetado por ventania louca, que ululava com voz rugidora e ameaçante. Os pegões eram contínuos e ia no ar a zanguizarra das franças atritadas e o remoinho das folhas soltas e dos galhos partidos. Por vezes, tinha-se a impressão de que as árvores não resistiriam às lufadas mais fortes, que lhes vergavam os tronos e torciam as ramas, abrindo clareiras por onde se divisavam nesgas de um céu de chumbo. E fez-se a noite na floresta, uma noite espessa e tormentosa, entrecortada apenas de onde a onde pela fosforescência lívida dos relâmpagos. As bátegas caíam pesadas enquanto os trovões restrugiam sobre as nossas cabeças, aumentando a atoarda do furacão em que se ouvia o alarido de mil bocas em rinchavelhadas histéricas, uivos, urros e assobios. Não seria maior a algazarra se uma multidão de gigantes andasse às soltas, resfolegando uma pocema de guerra.
Encolhidos entre as sapopemas de uma sumaumeira,  tínhamos as caras de quatro náufragos e olhávamos uns para os outros. Malila, mais calma, observou-nos: - Isto é a mãe do mato que está zangada.
A seguir, abrindo a cestinha a tiracolo, começou a esfregar-se pacientemente com a tinta vermelha do carajurú que a protegeria da ação do raio". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia misteriosa. 6. ed. 1953. p. 183-184.



Árvore  com sapopemas.
Franz Keller-Leuzinger. Voyage d´exploration sur l´Amazone et le madeira. 1874.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os perfumes da mata


"[...]. Quantos mesmo estando acostumados a mata olham sem ver tudo o que nela existe! A baunilha que abraça amorosamente o tronco da mungubeira e deixa cair generosamente, das gordas favas, gotas de mel, onde as formigas se encharcam e se besuntam. Mais adiante, o "cipó catinga" enlaça troncos impregnando do seu perfume as cascas sarabulhentas e inodoras de certas árvores. A japana, além de medicinal, possui um cheiro doce e agreste, cresce à beira dos caminhos e dentro delas saltam gafanhotos muito verdes e coleópteros com salpicos.
O sol, aos poucos, sacudia o seu torpor e esquentava até as tocas das cotias, acendendo a mata de luz, calor, perfumes, cantos de pássaros, gritos de macaco e ilas, murmúrios diversos; insetos, vermes e repteis, vêm voar e deslisar gostosamente por onde pousa o sol. [...]. E. Costa Lima. O filho da cobra grande. 2. ed. 1944. p. 117-120.


Baunilha. Vanilla planifolia,
 Denisse, E. Flore d´Amérique, t. 94, 1843-1846.
 www. plantillustrations. org

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Os notáveis cipós


"[...]. Mas os cipós ainda se tornam notáveis por muitos outros aspectos. Há alguns que, como o já citado cipó-d´água e o ituá-açu, são a providência dos que se perdem na mata. Quando de qualquer deles se corta rapidamente um pedaço da haste, mais ou menos um metro, que também sem perda de tempo, deve ser logo virada para baixo, de tal modo que a sua extremidade superior passe a ser inferior, desta se escoará boa quantidade d´água, sempre límpida e fresca, apenas ligeiramente ácida. Vários se recomendam pela beleza das suas flores ou pelo delicado sabor dos seus frutos, quando não reúnem as duas coisas, como acontece com os numerosos maracujás. Outros serão aproveitados pelas qualidades estimulantes ou medicamentosas de suas sementes e, entre estes, vale por todos o guaraná. Ainda outros, pela tinta que se extrai das suas folhas, como o carajuru, ou pelos violentos tóxicos que se conseguem dos seus caules e raízes, como o dos Strychnos, que entram na composição do curare, e de certas Apocináceas, que servem para  tinguijar o peixe. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955. p. 15. 



Maracujá. Passiflora alata.
Kerner, J. S. Hortus sempervirens, v. 33, t. 392 (1814).
Desenho de J. S. Kerner.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Floresta de igapó


"O trecho da floresta, que estávamos atravessando, era um igapó, mas os pontos mais elevados do terreno só eram inundados por uma camada de poucos centímetros de água na época das chuvas. Esse trecho era composto por uma assombrosa diversidade de belas e majestosas árvores, nas quais uma infinita variedade de trepadeiras lenhosas e grossas se enroscavam e formavam caracóis e anéis, guirlandas e festões, tranças e franjas. A palmeira mais comum era a imponente Astrocaryum jauari, cujos espinhos, caídos no chão, nos obrigavam a ter o máximo cuidado ao pisar, pois estávamos todos descalços. A vegetação rasteira era rala, exceto nos trechos onde havia bambuais, os quais formavam impenetráveis moitas de plumosa folhagem e agressivas hastes cheias de nós, o que sempre nos levava a fazer uma volta para evitá-las. O chão se apresentava inteiramente atulhado de frutas podres, vagens gigantescas, folhas, ramos e troncos de árvores, dando a impressão de ser ao mesmo tempo o cemitério e o berço do grande mundo vegetal que se expandia lá no alto. Algumas árvores eram de uma altura fenomenal. Vimos vários espécimes da moratinga, com seus troncos cilíndricos - cuja circunferência nem ouso calcular - elevando-se a alturas vertiginosas e se perdendo no meio das copas das árvores mais baixas. Outra árvore grande e digna de nota era o açacu [...]. Qualquer viajante no Amazonas, ao conversar com o povo da região, acabará por ouvir falar nas venenosas propriedades do leite dessa árvores. Quando retalhado a faca, o seu tronco exsuda uma seiva leitosa que não  só é fatal se for ingerida, como causa também feridas incuráveis quando simplesmente borrifada na pele. Meus companheiros sempre passavam o mais longe possível do açacu, quando o encontravam. A árvore é suficientemente feia para fazer jus à sua má fama; seu tronco tem um tom verde-oliva sujo e eivado de espinhos curtos e pontiagudos, de mortífero aspecto". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no Rio Amazonas. 1979. p. 249.




Açacu. Hura crepitans.
Trew, C. J, Ehret, G. D. Plantae selectae. v 4, t. 34. 1754.
www.plantillustrations.org

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A naturalista na floresta


"[...].Tão distraída andou porém que a noite a surpreendeu numa clareira rasgada na floresta. O céu fosco, sem ameaça de chuva, mas também sem a rosa do sol, lembrava esses dias toldados de cinzento que aparecem no Alto Amazonas ao tempo das friagens, de maio a agosto. Calma, confiante no astro a surgir e que a orientaria, Snethlage reuniu um pouco de sacaís, ateou-lhes fogo e, para alimentá-la durante a noite, arrastou para junto da fogueira vários galhos de árvore por ali tombados. Fez a cama de folhas secas perto das labaredas e recostou-se no chão com a espingarda no regaço. Adormeceu profundamente. Ao repontar baço da claridade notou que o dia de novo não deixaria ver o disco vermelho do sol, o que a impossibilitava de se orientar ao rumo do rio. Comera na véspera o chocolate que levara. Era preciso arranjar alimentos.
Prestou atenção em roda e viu uma grande árvore de caju do mato. Foi até embaixo da copa monumental onde recolheu muitas frutas, doces, vermelhos, saborosos. Chupou alguns e assou as castanhas. Muito próximo, um uxizeiro estrelava o chão de uxis. Juntou vários. Por sua vez as sapucaias, de ouriços abertos nas árvores, deixavam cair as castanhas magníficas, estivando o solo de amêndoas. Passou de novo o dia caminhando a esmo até que se viu forçada a escolher um ponto em condições de pernoitar. Outra vez reuniu muitos galhos e sacaís, acendendo uma fogueira, junto da qual ela se deitou. Agora porém algo inquieta, apreensiva mesmo. Das vinte e uma horas em diante, o ruído na floresta fora infernal: assobios, gemidos, soluços, quedas de frutos, estrídulos, urros, pipilos, passadas, correrias, choques de cascos, bicadas na madeira, arrasto pelas folhas secas no chão, mandíbulas a roerem, pulos, cipós a se agitarem, baques de corpos em luta, zunidos, cápsulas e frutos a se abrirem com a força de molas de aço.
Na maioria dos casos Snethlage conhecia o bicho que determinava este ou aquele ruído, tantas observações já fizera sobre a vida animal da nossa fauna. Por fim, o cansaço a empolgou e dormiu no meio da jangla ao som dramático daquela música do teatro amazônico. Aos primeiros cantos da maria-já-é-dia levantou-se ao pé do brasido quase  extinto e refletiu no que se passara, recordando-se dos comentários do seu grande patrício Alexandre Humboldt, que fora o primeiro letrado a registrar quanto são silenciosos os dias na mata amazônica e quanto são ruidosas as noites, [...].
Sem o sol, tornou a caminhar ao acaso, alheia a qualquer diretriz. Passou por uma plantação de milho cujas espigas atingiam cerca de quarenta centímetros, sendo os grãos alternadamente vermelhos e pretos. Examinou algumas verdoengas. Saborosas. Era o célebre milho do índio que os botânicos brasileiros da atualidade classificavam de nativo. Cruzou depois outra desenvolvida plantação de abacaxis, também visto agora como indígena. Recordou-se porém das polêmicas já havidas a respeito dos nomes e das espécies. Porque alguns diziam que o ananás provinha do abacaxi e vice-versa; era ananás e não abacaxi. Hoje, no entanto, está absolutamente provado entre botânicos e filólogos que do abacaxi proveio o ananás e que o nome indígena é o primeiro. Ananás o chamaram os conquistadores. [...].". Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraúnas. 1985. p. 199-200.


Ananas.
Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae quarum imagines ad exemplaria naturalia Londinei, in hortis curiosorum nutrita. [s.l. s.n.], 1750-1773.
 www.biodiversitylibrary.org

sábado, 18 de novembro de 2017

Em pleno rio Amazonas


"Estamos agora em pleno rio Amazonas. O nosso barco parte as águas do rio-dos-rios, majestoso e soberbo. Paus rolam, na corrente, serena.
Ao quarto dia, na fímbria do horizonte, o azul forte das serras. Começou, assim, aspecto novo para a nossa visão.
O Jari...Arumanduba...
A serra da Velha Pobre, com o cimo pelado e nu.
Troncos esguios, retos, dourados, de folhas amarelas e secas, que brilham batidas de sol...
Trepadeiras tristes que envolvem as árvores.
O rio é  mais espumoso e mais cor de barro.
Junto das montanhas, a vegetação torna-se mirrada, pequena, raquítica.
Bananeiras que farfalham ao vento.
Os ramos deitam-se sonolentos sobre o espelho líquido.
O painel imutável torna-se, às vezes, monótono.
Na agonia da tarde, os céus ficam translúcidos como uma lâmina rebrilhante.
O rio - um lago sereno - reflete o firmamento: torna-se, também, claríssimo". Raimundo de Menezes. Nas ribas do rio-mar. 1928. p. 177-178.


Bananeira. Musa paradisiaca.
Denisse, E. Flore d´Amérique, t. 117, 1843-1846.
www.plantillustrations.org.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Uma paisagem deslumbrante


"A janela aberta do salão formava uma moldura para um quadro da cena lá de fora. Lá, no espelho do rio, flutuava a vasta extensão de folhas verde-claras e as delicadas flores cor-de-malva das massas de nenúfares, aqui e ali pontilhadas com as jaçanãs vermelho-castanho, que gritavam como gatinhos e cujos corpos leves e patas largas lhes permitiam correr com facilidade sobre a superfície da vegetação flutuante em busca do alimento. Cortando o centro das massas revolventes de plantas, a forte correnteza tinha formado um canal de água aberta, que brilha à luz do sol como um fio de ouro brunido. Longas linhas de mato espesso indicavam as margens do rio ao fundo, muitas carnaúbas, solitárias ou em grupos, erguem seus caules roliços, frequentemente cobertos de bromélias, samambaias e trepadeiras parasitas. Suas folhas em leque sussurram e cintilam com muitos brilhos, faiscando quando soprados pela brisa. Mais ao longe, uma cadeia de montanhas forma o último plano; seus sulcos, seus cumes gramados e as encostas cobertas de matos e pedras estão minuciosamente delineados no clarão forte do sol da manhã, o céu azul claro e suas ofuscantes nuvens brancas". James W. Wells (1841-?). Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio e Janeiro ao Maranhão. 1995. v. 2, p. 57.



Bromelia. Aechmes angustifolia.
E. Poeppig. Nova genera ac species plantarum. v. 2, t. 159. 1838.
www.plantillustration.org.

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Os encantos da natureza tropical


"Com a entrada neste grande rio, toda a vegetação mudou como por magia. A mais bela floresta virgem, que nos mostrava ao mesmo tempo tudo o que é grandioso e tudo o que é encantador que tínhamos visto nas florestas do Brasil, subia pela margem do rio como se quisesse tornar-nos a despedida mais penosa no último momento ou enfeitiçar-nos com o desdobramento na tranquila magia de suas sombras, de todos os encantos da Natureza tropical. Majestosos troncos colossais com leves tetos de copas, impenetráveis maranhas de lianas quais paredes semeadas de lindas flores e entremeadas de todas as espécies de palmeiras imagináveis, cada uma procurando exceder a outra em beleza e graça, acompanhavam a margem esquerda por onde agora seguíamos. E como sabiam as palmeiras agruparem-se pitorescamente em volta das numerosas e umbrosas inflexões da floresta, como nichos, destes santuários escondidos nos quais os raios do sol da tarde quase que não podem penetrar, enquanto aqui e ali, uma audaz passiúba com as leves raízes adventícias rodeadas de um montículo de plantas aquáticas verdes, eleva-se atrevida e alegre sobre um pedaço de terra separado da margem 7 a 15 metros, como sobre uma ilhota, e como se quisesse assim ser admirada por todos os lados. Aliás, as encantadoras e graciosas passiúbas pareciam ser entre todas as espécies de palmeiras as que predominavam aqui; depois delas, porém, a inajá e a bacaba, ao passo que a miriti, só raramente se mostrava". Príncipe Adalberto da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas-Xingu. 1977. p. 238-239.


Palmeiras paxiúbas. Socratea phlonotia Barb. Rodr. e Iriatella spruceana Barb. Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989. 

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

O clima na Amazônia


"[...]. A aproximação das nuvens de chuva se fazia de uma maneira sempre uniforme e muito interessante de se observar. Primeiramente, a fresca brisa marinha, que começava a soprar por volta das 10 horas e se ia tornando mais forte à medida que aumentava o calor do sol, diminuía de intensidade e finalmente cessava. O calor e a tensão elétrica da atmosfera tornavam-se então insuportáveis. O torpor e o desconforto se apossavam de todo mundo, e até mesmo os animais da floresta demonstravam seu mal-estar. Nuvens brancas começavam então a aparecer no leste, formando cúmulos que se iam tornando cada vez mais negros na sua parte inferior. O horizonte inteiro para os lados do leste, escurecia repentinamente, e esse negror ia subindo e se espalhando pelo céu até encobrir finalmente o sol. Ouvia-se então o rumor de uma forte ventania varrendo a floresta e agitando o topo das árvores. O vívido clarão de um relâmpago cortava o céu, seguido do estrondo do trovão, e a chuva desabava em torrentes. Essas tempestades são de curta duração, deixando apenas algumas nuvens negro-azuladas e imóveis no céu até a noite. Nesse meio tempo tudo se refresca, mas debaixo das árvores veem-se montes de folhas e de pétalas de flores. Com a aproximação da noite tudo se reanima outra vez, e o ressoar dos cantos, silvos e pios brota novamente do meio das árvores e das moitas de arbustos. Na manhã seguinte o sol surge de novo num céu sem nuvens, completando-se o ciclo primavera-verão-outono, por assim dizer, num único dia tropical. Os dias são mais ou menos assim durante o ano inteiro, nessa região. [...]. Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 33.
 
 
 
A chuva que se aproxima.
Baía do Guajará - Belém-Pará-Brasil
Fotografia de Juliana Resque Campos - 2016


sábado, 4 de novembro de 2017

Um espetáculo imponente


"Fiquei deveras encantado ante a beleza da vegetação. Esta ultrapassava tudo que eu até então tinha visto.
A cada volta do rio, algo de novo se nos apresentava.
Ora um enorme cedro, que pendia sobre as águas, ora uma enorme árvore de algodão-seda que se destacava, como um gigante, acima da floresta.
Viam-se continuamente as esbeltas palmeiras açaís em vários grupos, muitas vezes erguendo os seus troncos uns cem pés para cima, ou se arqueavam então em graciosas curvas, quase encontrando  as da margem oposta.
Comumente encontrávamos também a palmeira "miriti", com os seus estípites retilíneos e cilíndricos, semelhantes a colunas gregas, tendo imensas copas de folhas em forma de leque, e de onde pendem os seus gigantescos cachos de cocos.
O espetáculo era na verdade imponente. [...].
Essas palmeiras cobrem-se de trepadeiras, que sobem até alcançar as suas grimpas, onde soltam então as flores.
À beira da água, veem-se numerosos arbustos em florescência, por vezes completamente cercados de convolvuláceas, "flores-da-paixão" ou begônias.
Toda árvore morta, ou semi-apodrecida, torna-se de parasitas de singulares formas e de belíssimas flores, enquanto nas palmeiras de menor porte e de caules de curiosas formas se entrelaçam os cipós, formando-se abrigos na floresta, por baixo dos seus emaranhados.
Para complemento, não faltam ali animação e vida.
As araras de plumagem de cor amarela e vermelha, muito vivas, passam continuamente, voando, lá bem no alto, enquanto os papagaios e periquitos, fazendo grande alarido, voam de árvore em árvore, à procura de alimento.
Dos galhos pensos sobre a água, aqui e acolá, vêem-se por vezes os balouçantes ninhos de guaches de plumagem preta e amarela, nos quais esses curiosos pássaros continuamente estavam entrando, ou saindo deles.
O encanto da paisagem ainda mais se realça pelo rio, todo cheio de curvas, ora para um lado, ora para outro, trazendo sempre à vista uma constante mutação de cenários". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979. p. 112-113.
 
 
 
Araras
 Arte de Paul Roberts Breathtaking.
www.pinterest.com


domingo, 29 de outubro de 2017

Pindorama


"Existem certos nomes na língua-geral, nesse curioso e bárbaro tupi-guarani, que possuem predicados sonoros, ondulações léxicas agradáveis ao ouvido. Antes mesmo de se lhes conhecer a significação,quase lírica, já se percebe alguma coisa de belo nas sílabas orquestradas dos vocábulos. Pindorama, que significa País das Palmeiras, é um deles.
O termo guarda, na ressonância clara, a nota panorâmica, o sentido pagão de Flora, os encantos artísticos e plásticos dos flabelos, das ventarolas, dos leques, das plumas, das palmas, dos penachos, que se abrem sobre os caules hieráticos desses fidalgos vegetais; e ainda parece ter sido idealizado por algum trovador silvestre perdido entre os tufos de folhagem da nossa verdoenga Planície.
E se um simples nome nos arrasta ao devaneio, enredando-nos o pensamento nos cipós e nas guirlandas florestais, avalie-se o que não sucede ao sábio estrangeiro, alheio a este turbilhão de plantas, a esta república de indivíduos verdes, onde em cada dez metros de solo, numa democracia de arbustos e de árvores, de fetos e de lianas, de gramíneas e de parasitas, se registra o mais variado, o mais robusto, o mais colorido, o mais imprevisto povo botânico. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930. p. 89-90.

Palmeiras Bacytris constanciae e Astrocaryum caudecens.
 Rio Trombetas, visto do igarapé Caypuru.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1903.
www.biodiversitylibrary.org


quinta-feira, 26 de outubro de 2017

A palmeira jacitara e seus espinhos



"Os verdadeiros cipós, cujo tronco principal tem o mesmo crescimento exagerado que nos arbustos-cipós se observa só em certos galhos, influem mais na fisionomia da vegetação litoral dos furos que estes. São principalmente as Passifloraceas e as Bignoniaceas [...], que envolvem os troncos e descem em elegantes festões das copas de árvores altas, produzindo aqui e acolá aquelas cortinas  de verdura matizadas de flores brancas, roxas ou cor de rosa que tanto impressionam o viajante. Munido com gavinhas, como estes cipós, encontramos ainda o Cissus sicyoides L. que entre todos os seus congêneres tem a particularidade de poder desenvolver raízes aéreas que, tais como fios suspensos, descem verticalmente dos galhos mais altos.
Um dos cipós mais vistosos dos furos, notável pelos seus cachos compridos de flores escarlates, trepadas nas árvores mais altas, sem ter órgãos especiais para se agarrar nas outras plantas. [...]. Como se vê, os cipós pertencem às famílias mais diversas, com adaptações múltiplas ao seu modo de vida. Mesmo da família das palmeiras, encontram-se, nas beiras dos furos, alguns cipós, pertencentes ao gênero Desmoncus e chamados vulgarmente jacitara. Estas palmeiras agarram-se nas árvores pelos espinhos que cobrem os caules e pelos folíolos distantes das folhas compridas, que são transformados em uma espécie de ganchos. [...]". Jacques Huber (1867-1914). Contribuições à geographia physica dos furos de Breves e da parte occidental de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ehnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 488-489, 1902. 

Desmoncus orthacanthos
J. Barbosa Rodrigues. Serum palmarum brasiliensium, v. 2, t. 54, 1903.
www.plantillustrations.org

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Amazônia que eu vi: uma orquestra de mil vozes de aves


"[...]. Esforçamo-nos de romper uma passagem por entre as hastes de arumá (Marantha) e juncos mais altos que um homem.
Ainda não vemos nada, mas já uma orquestra de mil vozes de aves que vamos ouvindo cada vez mais distintamente à medida que avançamos é prenúncio de que não voltaremos sem resultado da nossa excursão. Pouco a pouco o entrelaçado da vegetação de brejo vai ficando menos denso e assim veio o momento onde as consequências de cada passo precisam ser cuidadosamente calculadas e premeditadas.
Por entre as últimas hastes podemos descortinar um aspecto desembaraçado sobre uma laguna de savana de alguns centos de metros em comprimento por outros tantos em largura.
A cena da vida animal que ora se apresenta aos nossos olhares é tão grandiosa e imponente que todos permanecemos estupefatos, retendo a respiração, cada um perguntando a si mesmo se o que vê é real ou não será uma "fata morgana" e deslumbramento de algum sonho; [...].
O que ali está em aves do brejo e aquáticas, palmípedes e pernaltas, acumuladas em um espaço relativamente pequeno; tudo o que está ali se enlameando, chapinhando, esgaravatando, bicando, mergulhando, nadando, voando, piando, grasnando, gritando, tudo ao mesmo tempo, num fervet opus incrível, desafia qualquer descrição; diante de tais quantidades é impossível contar e dificílimo mesmo avaliar e todos os recursos da linguagem não são bastante expressivos e brilhantes para dar uma ideia do barulho, da confusão que ali reina.
Algum êxito teria talvez, no que toca à vista, o pincel de um privilegiado pintor de animais, para o qual cada pequeno trecho da paisagem diante de nós formaria um grato assunto para uma tela de real valor". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi). Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 389-390, 1902.


Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas - 1900-1906.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O aroma do sassafrás


"Há muito poucas flores na vegetação rasteira da floresta; elas só florescem bem no alto ou às margens da floresta, onde o sol pode alcança-las, mas há numerosas  coisas de interesse, cores variadas e folhas curiosas, trepadeiras e parasitas de estranhas formas, orquídeas, imensas árvores arqueadas, odores aromáticos ou acres, o mais comum dos quais sendo um cheiro apimentado forte que parece ser comum a muitas plantas, como a canela-cheirosa, o sassafrás e a embira-vermelha. [...]". James W. Wells (1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. Belo Horizonte, 1995. p. 135.

Sassafras albidum.
Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae. v. 7: t. 70, 1765.
Desenho de G. D. Ehret


sábado, 14 de outubro de 2017

No coração da selva


"O "varador" era estreita senda que não daria passagem a um carro de bois e cortavam-no, aqui e ali, grossos troncos que haviam caído e apodreciam sem que ninguém os removesse. Dum lado e outro, a selva. Até esse instante Alberto vira apenas as linhas marginais; surgia, agora, o coração.
Era um aglomerado exuberante, arbitrário, louco, de troncos e hastes, ramaria pegada, multiforme, por onde serpeava, em curvas imprevistas, em balanços largos, em anéis repetidos, todo um mundo de lianas e parasitas verdes, que fazia de alguns trechos uma rede intransponível. Não havia caule que subisse limpo de tentáculos a expor a crista ao sol; a luz descia muito dificilmente e vinha, esfarrapando-se entre folhas, galhos e palmas, morrer na densa multidão de arbustos, cujo verde intenso e fresio nunca esmorecera com os ardores do estio. Primeiro, a folhagem seca, que cobria o chão, apodrecendo em irmandade com troncos mortos e esfarelados, dos quais já brotavam, vitoriosas para a vida, folhitas petulantes como orelhas de coelho. Alastravam, depois, as largas palmas de tajás e de outra plantaria, de tudo quanto vinha nascendo e atapetava a terra onde as árvores sepultavam as raízes. Crescia a mata até a altura de dois homens, posto um em cima do outro, e só então os olhos podiam encontrar algum espaço em branco, riscado, ainda assim, pelos coleios dos cipós que iam de tronco a tronco, fornecendo ponte a capijubas e demais macacaria pequena, que não quisesse saltar. De lá para riba abriam-se as umbelas seculares e constituíam batalhão interminável os seus portentosos cabos. E era aí que a luz dava um ar da sua graça, branqueando e tornando luzidio o pescoço de algumas árvores mais altas e restituindo, pela transparência, às asas de milhares de borboletas, as suas verdadeiras cores de arco-iris fantástico". Ferreira de Castro (1898-1974). A Selva. 2. ed. 1937. p. 92-93.


Caladium bicolor.
Hoola van Nooten, B. Fleurs, fruits e fenillages choisis de l´ille de Java- peints d´aprés nature. t. 9, 1880. www.plantillustration.org

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Uma linda flor, uma Amaryllis


"[...]. Estando próxima a volta do verão, muitas belas árvores e arbustos estavam em flor, tais como a Visnea, de folhas sedosas e brilhantes, ruivo-pardacentas na face interior; as Rhexia, de grades flores violetas; a espécie de Melastoma com folhas de um lindo branco-prateado na face inferior; as Bignonia, com os esplêndidos ramos floridos trepando e entrelaçando-se nos arbustos acima dos quais se erguia o jenipapeiro (Genipa americana) de grandes flores brancas. O tom verde-escuro natural das flores do Brasil estava então atenuado pelos tenros renovos verde-amarelados ou vermelhos; e sob todas as moitas havia uma sombra mais densa, muito amena nos grandes estios, que os mosquitos, porém, tornavam bem menos aprazível ao viajante. Uma bela flor, uma Amaryllis branca de estames purpúreos, debruava as margens do rio. [...]". Maximiliano, príncipe de Wied-Neuwied (1782-1867). Viagem ao Brasil nos anos de 1815 a 1817. 1958. p. 274.


Amaryllis vittata major.
Collectanea botanica by John Lindley. 1821.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

A Amazônia que eu vi: Monte Alegre e Ereré


"Acompanhando todo o lado do norte do sopé da serra do Ereré, corre uma zona de terrenos baixos, pantanosos, atoladiços e cheios de nascentes de água, que pelo menos do lado de leste, escoam-se por um córrego, que vai ter ao igarapé do Ereré. Nessa zona cresce uma linda floresta e conheço poucos lugares mais pitorescos do que as fontes do Ereré ou os palmeirais de Urucuri, que tem aspecto de templo e ficam a oeste da vila. Faz-me virem à lembrança, como se fosse ainda ontem, os deliciosos banhos frios nessas fontes depois de muito andar e com extremo calor, por sobre os campos, ou depois de ter levado o dia todo a lutar com o entrançado Curuá dentro da bacia de areia por baixo de uma grande palmeira, com seu bojudo e espinhoso tronco, e com a esplêndida copa, cuja folhas, em forma de estrelas, se destacam pretas de encontro ao céu no por do sol; as palmeiras sentinelas com os troncos cobertos de uma multidão de fetos e as grandes folhas ligeiramente balançando-se ao sopro da deliciosa brisa; os lindos phoenacospermuns  e as luxuriantes heliconias com suas flores cor de laranja; a palmeira estrangulada no briareico abraço do Apuí que ergue a verde folhagem de seu tope por cima da emurchescida e mirrada coroa; a jarra quebrada e as cabaças por baixo da ribanceira coberta de fetos e de lycopodiuns e nas sombras da noite, que se vai fechando, vagueio pelo caminho abaixo, através da mata passando pelos cercadinhos em que as raízes de mandioca estão n´água amolecendo, e por entre as palmeiras, em que ouve-se o agudíssimo canto das cigarras, chego até a fonte de baixo, na qual um rancho de risonhas e jovens índias, com as compridas e pretas tranças ainda molhadas do banho, estão enchendo as jarras, enquanto as crianças nuas estão na água folgando, e então com o sentimento de repouso e satisfação depois de um dia de calor, vou caminhando para casa, ao repicar do sino da capela tocando a Ave Maria, e com o vivo clarão do por do sol iluminando o cume da serra, os despenhadeiros e os largos campos". Charles Frederick Hartt (1840-1878). Trabalhos restantes ineditos da Commisão Geologica do Brasil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physica do Baixo-Amazonas: Monte Alegre e Ereré. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t.2, fasc. 1-4, p. 328-329, 1898.


Heliconia rostrata.
Aquarela de Maria Werneck de Castro (1905-2000).
 Natureza viva -  memórias, carreira e obra de uma pioneira do desenho científico no Brasil. 2004.

quarta-feira, 27 de setembro de 2017

As garças do Marajó


"Já de longe avistamos multidões de garças de toda a espécie nas extremidades dos galhos por cima das largas copas das árvores, e quanto mais perto chegamos, maior número vemos de ninhos chatos, grandes como rodas de carros, e que aparecem como manchas escuras por entre a ramagem rala do mato.
Em cada árvore contamos dúzias deles.
O barulho torna-se cada vez mais ensurdecedor: ao penetrar na floresta julga a gente ter caído em um bródio de bruxaria.
Garças brancas, grandes e pequenas, garças morenas, arapapás, maguaris, colhereiros, cauauans, guarás, mergulhões grandes, carará, tudo ali vive em confusão, na mais variada promiscuidade, ao lado e por cima uns dos outros, na mesma árvore, na qual muitas vezes em uma só há diversas colonias de ninhos de meia dúzia de espécies. [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 390-391, 1902. 


Garças
Pintura de Jessie Arms Botke (1883-1971).
www.pinterest.com

domingo, 24 de setembro de 2017

As majestosas palmeiras miritis


"Ao longo dos furos de Breves existem aqui e acolá porções de terrenos semelhantes aos de Breves, mas, em geral as margens do rio são inundadas em cada maré cheia, e as casas espalhadas são construídas em cima de postes, que as elevam acima d´água. Os canais são estreitos, excessivamente profundos e cheios de água lodosa. Em verdade, tanto faz na maré cheia como na vazante, estão sempre entumescidos como se estivessem com uma enchente - E como é rica a vegetação que os cerca! - Encontram-se aqui trechos de mangues com sua linda e verde folhagem, com suas raízes principais arqueadas, com as pendentes radículas aéreas terminadas em tripeça e com suas sementes em forma de charutos; acolá o canal é bordado de ambos os lados por paredes de verdura, as pontas dos ramos roçam na superfície d´água na maré cheia e param as lindas balsas de ervas e do mururé de folha larga com suas flores azuis, e mais adiante por muitos quilômetros temos em frente as majestosas Miritis, com suas soberbas palmas em forma de leque, com suas folhas mortas, amarelas e pendentes, e sustentando seus pesados cachos de frutos escamosos. [...]". Orville Derby (1851-1915). Trabalhos restantes ineditos da Commissão Geologica do Brazil (1875-1878) relativos à geologia e geographia physisca do Baixo-Amazonas: A Ilha de Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 2, fasc. 1-4, p. 174-175, 1898.



Palmeiras Miriti ou Buriti
Desenho de Taunay.
Expedição Langsdorff ao Brasil (1821-1829)

domingo, 17 de setembro de 2017

A bonita palmeira Jará


"[...]. Aqui vemos, também pela primeira vez, a bonita palmeira Jará, espécie de tamanho moderado, com estípite delgado e gracioso, folhas pendentes. Explorando mais adiante, encontramos um pequeno lago, de no máximo meia milha de diâmetro, todo circundado de declives fortes, exceto onde este barranco o separa do rio. Um córrego diminuto serpeia por sobre a areia e a argila, com cascatas aqui e ali, talvez a queda total possa ter vinte pés. Os camaradas chamam-no de lago de Água Preta; a água é verde escura, muito límpida e profunda, e reflete as colinas revestidas de mata que a circundam e as palmeiras caraná e javari; é tão diferente dos lagos rasos da várzea, como o Tapajós o é do Amazonas. O Lago de Tapary é, como este, um verdadeiro lago de terra firme. Ricardo afirma que em ambos encontram-se pirarucu, mas que a água é demasiada profunda para boa pescaria. [...]. Herbert Smith (1851-1919). Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 184.



Astrocaryum jauari e Leopoldinia pulchra. Palmeiras Jauari e Jará.
Martius, C. F. P. von. Historia Naturalis Palmarum, v. 2, t. 52, 1839.
www.plantillustration.org

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

A rica vegetação da floresta amazônica


"O maior rio do mundo corre através da sua maior floresta. Imagina, se podes, dois milhões de milhas quadradas de floresta ininterrupta, exceto pelas correntes que a percorrem, pois os campos que aparecem esparsos, aqui e acolá, são tão insignificantes que eu acredito que faria maior vazio o corte de um único carvalho na maior floresta da Inglaterra do que qualquer destes campos na imensa selva amazônica. Ficas, portanto, preparado para saber que quase todas as ordens de plantas contam árvores aqui entre os seus representantes. Há gramíneas (os bambus) de 40, 60 pés e mais de altura, às vezes eretas, outras formando um intrincado de ramos espinhosos, nos quais nem o elefante poderia penetrar. Verbenas formando árvores copadas, de folhas digitadas como as dos castanheiros da Índia. Polígales que são robustas trepadeiras lenhosas, subindo até a copa das árvores mais altas, enfeitando-as com os festões de perfumadas flores que não são delas. No lugar das tuas pervincas encontramos aqui belas árvores exudando leite, às vezes salutífero, outras violentíssimo veneno e dando frutos com as mesmas propriedades. Há violetas do tamanho de maceiras; malmequeres, ou que podiam parecer malmequeres, desabrochando em árvores do porte do almieiro. As mirtáceas são excessivamente numerosas e notáveis por suas flores efêmeras e simultâneas: hoje todas as de determinada espécie estão cobertas de nevadas flores perfumosas, amanhã já não se vê nem mais uma flor. Outro grupo, sem nada que possa ser comparado na flora européia, é o das melastomáceas, tão abundantes como as murtas e muito mais rico em espécies. Estas duas famílias, e mais as solanáceas e lauráceas, formam a massa da vegetação que se vê na vizinhança das cidades. Mas de todas a mais abundante é a das leguminosas, entre as quais estão as árvores mais nobres da floresta virgem, alguns dos frutos mais deliciosos, alguns dos piores venenos". Richard Spruce (1817-1893).

In: MELLO-LEITÃO, Cândido de. A vida na selva. 1940. p. 6-7.


Parkia discolor (Leguminosae).
Viagem Philosophica. Alexandre Rodrigues Ferreira. Florestas do Rio Negro. 2001.




sábado, 9 de setembro de 2017

Richard Spruce no meio da floresta


"Podiam-se consumir horas na derrubada de uma única árvore. O gigante que caía arrastava então outras na sua queda, vindo no seu séquito uma como desgrenhada cabeça de epífitas e parasitas. Orquídeas havia em barda; havia também colossais ciclantos com suas folhas bífidas e flabeliformes, imensamente largas. Os cipós que se estendiam de uma árvore a outra, vinham abaixo com as massas que caíam carreando na queda os parasitos como se fossem cordas de sino. Spruce recolhia as várias espécies que engrinaldavam uma única árvore. Havia a salsaparrilha, uma liana importante no comércio do seu tempo; havia a yuruparipina, anzóis do diabo, com largos espinhos agudos que podiam ferir seriamente uma pessoa. Ninhos de térmites, os quais tinham uma cor marrom, térrea, tombavam com as árvores. Choviam-lhe formigas sobre a cabeça. O baque de uma árvore desencadeava um verdadeiro pandemônio na floresta. Os macacos primeiro soltavam guinchos e corriam, depois voltavam para esganiçar. Papagaios verdes e vermelhos soltavam gritos estridentes; tucanos de bico de cores variegadas desciam voando para  investigar a causa de toda aquela algazarra.
De resto a mata jamais ficava perfeitamente silenciosa. As cigarras ziziavam continuadamente enchendo toda a selva com o seu ruído. Logo se lhes vinham juntar as rãs com o seu coaxo tão persistente que Spruce tinha impressão de estar no interior de uma forja. O ar parecia vibrar com o rítmico clangor. O botânico não se queria apartar tão depressa daquela floresta encantada, mas o capitão estava impaciente. Foi com relutância que voltou para o navio. O Três de Junho ia continuar a sulcar as águas do Amazonas". Victor W. von Hagen. A América do Sul os chamava. [19--?.]. 266-267.


Tronco com flores e parasitas.
Ilustração de Margaret Mee.




domingo, 3 de setembro de 2017

A espinhosa "jacitara"


"Em alguns lugares, pequenos igarapés, ou riachos florestais, são quase inteiramente tomados por várias gramíneas trepadeiras e plantas rasteiras, entre as quais a "jacitara" ocupa um lugar proeminente e é a montante destes riachos que os índios frequentemente se deleitam em fixar residência. Em tais casos, eles nunca cortam inteiramente um ramo, mas passam e repassam diariamente em pequenas canoas que se insinuam como serpentes entre a emaranhada massa de vegetação espinhosa. Estão, portanto, quase seguros contra as incursões dos negociantes brancos, que frequentemente os atacam em seus refúgios mais distantes, levam fogo e espada para dentro de suas pacíficas casas e tornam cativos as esposas e filhos. Mas poucos homens brancos conseguem penetrar por muitos quilômetros ao longo de um pequeno e tortuoso riacho como o aqui descrito, onde não é encontrado nenhum galho quebrado ou ramo cortado que revele que algum ser humano já tenha alguma vez passado. Portanto, a espinhosa "jacitara" de fato ajuda a defender a independência do índio selvagem nas profundezas das florestas que ele adora". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Palmeiras da Amazônia e seus usos. 2014 p. 101.


Desmoncus sp.
 Carl Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum 1823-1850

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vegetação do igapó


"[...]. Deixando de lado, porém, as regiões limitadas de campos, reinam em toda parte as associações florísticas típicas do igapó, da várzea e da terra fire. O caçador usa a canoa para ir à sua caça no mato. Através de tapetes flutuantes de lentilhas d´água os índios empurram a sua canoa; talvez eles atravessem uma lagoa na qual as folhas gigantescas da Vitória régia cobrem a superfície quase por completo. Depois procura-se um lugar raso na beira para encostar. Atravessando camadas de lama entre aróideas (hoje aráceas) e espécies de Amaryllis chegamos à vegetação do igapó. Diversas plantas de Ciperáceas e de espécies de cana circundam-nos. Árvores delgadas de Cecropia erguem-se ao céu por cima de folhagem rala, e, logo quando avançamos vagarosamente por um solo mais sólido de várzea, cingem-nos moitas densas de arbustos muitas vezes espinhentos. Palmeiras movimentam as suas palmas ao vento, e, aqui e acolá, transpomos troncos de árvores caídos e em decomposição. Ali aparece uma árvore grande e de alto porte, ancorada com sapopemas, e nos cipós, dela pendentes, iguais a cabos grossos, trepam enormes Philodendrons, enquanto que nos seus galhos crescem frondosamente orquídeas e bromeliáceas. [...]". Hans Bluntschli (1877-1962). A Amazônia como organismo harmônico. 1964. p. 23.



Cattleya superba splendens.
Nativa do Brasil. Região do Rio Negro.
 The Orchid album comprising coloured figures and descriptions of new, rare and beautiful orchidaceous plants. v. 1, 1882.
www.biodiversitylibrary.org

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Um tucano domesticado


"Certo dia, caminhando pela estrada principal das matas de Ega, vi um destes tucanos pousado gravemente em ramo baixo e não tive dificuldade em agarrá-lo com a mão. Parecia ser ave domesticada, fugida, mas ninguém veio reclamá-lo, embora eu o tivesse guardado em casa vários meses. A ave estava faminta e doentia mas depois de alguns dias de boa vida, recobrou a saúde e vivacidade e tornou-se o mais divertido dos companheiros. Publicaram-se muitas excelentes narrativas sobre os costumes dos tucanos mansos e, portanto, eu não os descreverei com minúcias, mas não me lembro de ter visto qualquer notícia sobre a sua inteligência e confiante disposição, quando domesticados, qualidades que no meu pareciam quase iguais às dos papagaios. Eu deixava o Tucano andar livremente pela casa, ao contrário do que costumava fazer com os outros animais amansados. Nunca mais subiu em cima de minha mesa de trabalho, depois de correção severa que recebeu, da primeira vez que o fez. Costumava dormir na tampa de uma caixa, num canto da sala, na posição habitual dessas aves - com a longa cauda deitada sobre o dorso e o bico escondido sob as asas. Comia de tudo o que comíamos: carne, tartaruga, peixe, farinha, frutas e era comensal constante em nossa mesa - uma toalha estendida sobre a esteira. O apetite era dos mais vorazes e o poder de digestão admirável. Aprendeu a conhecer com precisão as horas das refeições e depois das duas primeiras semanas era muito difícil conservá-lo  longe da sala de jantar, onde se tornava muito imprudente. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944. v. 2, p. 326-327.



Tucano
Arte de Robert Bateman

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O passarinho que emudeceu o Uirapuru


"[...]. O uirapuru que cantava possuía na voz qualquer coisa de flauta e violino. Embaixo, no amplo descampo, acumulavam-se centenas de milhares de animais, inclusive alguns anfíbios, e mesmo ictiológicos, vistos no verão duro a se mudarem deste para aquele ponto. Havia a trocal e havia a queixada. Papagaios, periquitos, graúnas, tucanos a se misturarem no arvoredo aos lagartos, aos tatus, aos japiins, às tucandeiras. Largas placas de saúvas e formigas de fogo envolviam pacificamente os mais gulosos inimigos: os tamanduás, sem que estes manifestassem, como de costume, a mais leve hostilidade. [...].
A atmosfera vibrava à irradiação cadenciosa da música ondulante e entorpecente. Alguma coisa de misterioso tal a originalidade, fremia naquelas árias, obra, quem sabe, de um deus autóctone. [...].
Nesse ínterim, ouviu-se uma linda ária para as bandas vizinhas da capoeira, à esquerda do lugar onde estavam os bichos. O canto era tão comunicativo, ao mesmo tempo que belo, a ponto do uirapuru se calar, talvez enciumado, senão vencido. Todos os animais prestavam viva atenção à musica daquela garganta de ouro, singularmente inebriante. Afigurava-se a voz de um apaixonado, reivindicando na ternura eloquente do canto, a volta da sua eleita; seria talvez um apelo à companheira entrevista no sonho duma noite de São João.
- É o caraxué, murmurou o João Cabeludo, quase em surdina, às duas senhoras.
O passarinho que havia feito emudecer o uirapuru abria agora no ar uma aleluia de mágoas e ternuras, esperanças e dores.
O coração dos bichos, sobretudo o feminino, parecia querer parar, tal a melodia embriagante do carachué. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraúnas. 1985. p.133-134.


Carachué(Sabiá) - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Ilustração de Ernst Lhose.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

O Guará com sua rica plumagem flamejante


"Nas praias mais desertas, quando uma camada de lama substitui a areia ou se cobre de vegetação característica dos terrenos banhados pelas grandes marés salgadas, fervilham os caranguejos, os siris, saratus, os maraquanis, guarás, os sararás.
Dá-se então a cena interessante de afluência de várias aves, apenas se retira a maré. Entre elas distingue-se francamente o guará. Sua rica plumagem flamejante faz dele um magnífico ornato dessas praias. Quando novo é ele negro, mas correm os anos e o carvão se faz brasa viva. Quando a aurora rubra sucede às trevas da noite, recorda a transição das cores do guará.
É de particular amigo dos maraquanis; não faz, portanto, concorrência ao homem que não é apreciador desses modestos habitantes das praias, se bem que o não despreze.
Não são deselegantes as linhas do guará. Lembra a garça esbelta. Contudo, o que nele é mais atraente, sem dúvida, é o vivo colorido da indumentária natural. Afirmam-nos que o guará é perfeitamente domesticável, mas que, longe de suas praias povoadas de maraquanis, desbota-se o encarnado da plumagem e fica ele cor-de-rosa. Efeito de nostalgia? [...]". Dom Antônio de Almeida Lustosa (1886-1974). No estuário amazônico: à margem da visita pastoral. 1976. p. 191.


Ninhal de guarás.
Ilustração de Ernst Lohse.
Álbum de aves amazônicas de Emílio A. Goeldi, 1900-1906.