segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

O Uirapuru e o seu canto que trás felicidade


"Quando o sol pende do zenith e a floresta aquecida rescende a todas as essências preciosas, que são o hálito e a fragrância da seiva rica de muitos vegetais, o Uirapuru aproxima-se das estradas ou das clareiras abertas no matagal sem fim, e desprende as primeiras vibrações, que atraem, reúnem e selecionavam uma assistência imensa de vates emplumados, alguns dos quais tomam parte no concerto, como figuras combinadas em afinações naturais, que formam e disciplinam encantadora orquestra voejante.
Então, começa prestes, a execução das melodias estranhas, que nos chegam como ondas de harmonias, que etéreos fluídos trouxessem dos céus, para se espiritualizarem, sob a abóboda verde do arvoredo.
Mas, daquela melopea excelsa, que se estende por uma, duas e mais horas seguidas, e mesmo quando principia em conjunto, após instrumentação garganteada em coro com outros artistas alados, a meio, em diante, somente se ouve o sopro flautado, enlevante, do músico-cantor inexcedível que, nesse momento, nem mais parece uma criatura da terra, porém, um gênio dos contos de fadas, tocado pela varinha miraculosa e inspiradora.
E a canção melodiosa derrama-se por grande extensão do bosque, transpõe balsedos e campinas e, seringueiros, caucheiros, castanheiros, vaqueiros, agricultores, mateiros simples, caçadores ou visitadores da floresta, que a ouçam, todos param, embevecidos, enlevados, para melhor continuar a eutímica audição daquelas notas sonoras, em cujos acentos e magias divinais, se prendem, encantados, enfeitiçados, felizes!
Tudo, então, naquele trato da mata, se embriaga nos eflúvios musicais da sinfonia cariciosa e vive tão somente para ouvi-la, escutá-la, morrer com ela!
As próprias árvores parece que se enlevam nos acordes da consonância insólita e benéfica!
O canto do sabiá, os gorjeios do gaturamo, as notas cristalinas da graúna, o cantar ameno dos caboclinhos, a melodia inspirada dos nossos rouxinóis, o soluço da juriti e o das rolas, as suaves modulações do azulão, as vibrações metálicas da araponga, rapsódias e cantos inéditos, ainda nunca ouvidos, no mundo das aves, tudo o Uirapuru seleciona, diviniza, e entresaca nas partituras sublimes, que ele garganteia inspirado como se tivesse no peito um instrumento do céu!
E é por isso que o seu canto trás a felicidade e a fartura nos lugares por onde se desprende. [...]". Aldo Guajará. De Bubuia: aspectos e assumptos regionais paraenses: Folk-lore. 1925, p. 136-137.
 
 
 
Uirapuru.
 Ilustração de John Gerrard Keulemans (1842-1912)


sábado, 17 de dezembro de 2016

As aves nos rios florestados


"Descer um dos rios florestados brasileiros é uma bela experiência, mas é nos seus braços secundários, remansos, restingas e portos que o observador de aves terá mais sucesso. Um rio não apresenta só aves ribeirinhas, e você deve ficar atento às espécies que cruzam de uma margem para outra, ou seguem o curso do rio para se deslocarem mais facilmente.
Em todas as barrancas altas, as Arirambas (Martins-pescadores) perfuram suas tocas; são também, muito vistas em voo, sempre pelas margens. A Andorinha-de-rio e a Andorinha-buraqueira, são duas espécies comuns, entre outras, que estão sempre voando sobre a água, pegando insetos; a Andorinha-buraqueira faz, como as Arirambas, buracos nas barrancas, onde se aninha.
Os Biguás-pretos aparecem pousados  nas árvores das margens e os Biguás-brancos mostram seus pescoços fora d´água; a Garça-branca-pequena é a única das garças que é vista com facilidade nesse ambiente. Japus e Japiins passam em pequenos bandos, principalmente nas regiões onde são abundantes. Onde há caniços e outras plantas semelhantes nas margens, você verá muitos Anuns-corocas, a qualquer hora do dia. Se você tiver bastante sorte, ainda verá uma Cigana amazônica, na vegetação das margens. [...]. Deodato Souza. Aves do Brasil. 2004, p. 127.
 
 
 
Guaxe - Japiim - Japu
J. Th. Descourtilz. História natural das aves do Brasil. 1983
 


segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Tesouros botânicos


"Uma vegetação totalmente diferente, de uma exuberância e selvagidade autenticamente tropical recebeu-nos aqui. Árvores de folhagem, de um tamanho gigantesco nunca visto erguiam-se para o infinito. Na base dos troncos retos como velas, de uma circunferência monstruosa, corriam para todos os lados raízes em forma de paredes, que nós devíamos ultrapassar.
Nas esguias palmeiras de paxiúba, que com numerosas raízes aéreas se agarravam no solo, trepavam os filodendros com folhas largas, e outros parasitas subindo para o alto.
Em cada racha das árvores, em cada galho seco, em toda a parte onde poderiam  encontrar um pouco de alimento, tinham se aninhado as mais diversas orquídeas. Quantos tesouros botânicos estavam abrigados nestes desconhecidos trópicos selváticos!" Theodor Kock-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens n noroeste do Brasil (1903-1905). 2005, p. 238-239.
 
 
Orquídea.
Pintura de Martin Johnson Heade (1819-1904)


terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Estreito de Breves: um labirinto maravilhoso


"[...]. Ao dia seguinte, começamos a atravessar os estreitos de Breves.
São um labirinto maravilhoso.
Tinham-me feito uma observação que verifiquei: as gaivotas que nos acompanhavam, esteira afora, ficaram para trás. Nenhuma transpôs a entrada de Breves. Medrosas, voltaram em busca dos seus lugares prediletos. Por que esse fato? Sabe lá alguém o motivo de quantas idiossincrasias de certas aves?
A estrada que o navio corta tem a largura de poucos metros. Mais vasta aqui. Mais estreita lá adiante.
As canaranas e os mururés rolam na correnteza, como ilhas flutuantes. Paus decepados, galhos ainda verdes, pedaços de troncos são tangidos na onda, de bubuia...
Nas margens, a vegetação, numa exuberância pasmosa, varia, num crescendo espantoso, desde a aninga, um capim tenro, o buriti, a semelhar a carnaúba, até a samaumeira gigantesca e perfilada imponentemente, espiando as águas barrosas, que correm na ânsia de precipitar-se no Oceano". Raimundo de Menezes. Nas ribas do rio-mar. 1928, p. 175-176.
 
 
Sumaúma (Ceiba pentandra)
Louise von Panhuys. Watercolours of Surinam (1811-1824), t. L21 (1813)
www.plantillustrations.org