segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Os bosques e sua vegetação


"[...]. Os bosques são aqui ornamentados de coqueiros - uma família de palmeiras das mais belas. Com um caule tão fino que se poderia abarcar com as mãos, balança, a doze ou quinze metros de altura, a sua graciosa ramagem. As trepadeiras lenhosas, que por sua vez se cobriam de outras trepadeiras, era de grosso calibre, tendo algumas que medi, cerca de sessenta centímetros de circunferência. Muitas das árvores mais velhas tinham uma aparência curiosa devido a tranças de liana que lhe pendiam dos galhos como se fossem molhos de feno. Se baixassem ao chão os olhos extasiados nas alturas do mundo de folhagem, a atenção seria voltada para a extraordinária elegância das folhas dos fetos e das mimosas. Estas em certos lugares, cobriam a superfície com um tapete de vegetação de poucos centímetros de altura. Quando se atravessam estes densos canteiros de mimosas, deixa-se ficar atrás de si um largo rastro que se faz notar pela mudança de coloração, produzida pelo descaimento dos pecíolos sensitivos. É fácil especificarem-se os objetos individuais que causam admiração nestas cenas grandiosas, mas não é possível dar-se uma ideia conveniente do que sejam as sensações de maravilha, surpresa e recolhimento que enchem e elevam o pensamento". Charles Darwin (1809-1882). Viagem de um naturalista ao redor do mundo. 1860, p. 37.
 
 
Coqueiros (à direita)
C. Fr. von Martius (1794-1868)
Historia Naturalis Palmarum (1823-1850)


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Cordas vegetais


"[...]. A maioria das árvores é notavelmente vertical, e de grande altura algumas delas; são ornadas de alto a baixo, de esplêndidas flores e lindas parasitas, enquanto que o tronco e os galhos são quase todos entrelaçados de inúmeras lianas e trepadeiras.
Essas plantas formam um aspecto singular nas mais férteis regiões do Brasil. Mas, nas margens do Amazonas, é que elas se mostram com o máximo de seu vigor e fecundidade.
Enroscam-se em volta das árvores, trepando nelas até o alto, depois crescem para baixo até o solo, e, constituindo raízes, sobem de novo e cruzam-se de galho em galho e de árvore em árvore, onde quer que o vento lance as suas pontas recurvadas, até que toda floresta se encha de suas guirlandas pendentes.
Essas cordas vegetais apresentam-se algumas vezes tão estreitamente entrelaçadas, que dão a aparência de uma rede, que nem as aves nem os animais podem facilmente romper. Alguns galhos são da grossura do braço de um homem; são redondos ou quadrados, e, às vezes triangulares ou mesmo pentagulares.
Crescem em forma de nós ou em espirais, ou, para ser mais verdadeiro, acompanhando todas as possíveis contorções em que se possam dobrar.
Parti-los é impossível. Algumas vezes, matam a árvore que os suporta, e outras vezes, ficam pendentes, de pé, como uma coluna torsa, depois de terem estrangulado o tronco, esmagando-o dentro de suas dobras. Os macacos gostam de dar suas cambalhotas, nessas redes primitivas, mas atualmente rareiam muito nas vizinhanças do Pará. Uma vez ou outra seus guinchos são ouvidos à distância, de mistura com o estridente pio das aves; mas, em geral, domina um profundo silêncio aumentando a grandiosa majestade natural dessas florestas." Daniel P. Kidder (1815-1891); J. C. Fletcher [?]. O Brasil e os brasileiros. 1941, v. 2, p. 313-314.
 
 
Árvore com cipós
Parque Zoobotânico do Museu Goeldi - Belém-PA
Fotografia de Olímpia Reis Resque


terça-feira, 22 de setembro de 2015

A natureza animal e sua riqueza de formas e cores


"A natureza animal revela também admiráveis riquezas de formas e cores. As copas das árvores são movimentadas por bandos de macacos ou papagaios e outros pássaros de plumagem variegada. As borboletas, pela beleza das cores, rivalizam com as flores sobre as quais se pousam e só são vencidas pelos diamantes, rubis e esmeraldas do colibri que bebe no mesmo cálice. Os estranhos edifícios das formigas atraem também o olhar do estrangeiro. Um sussurro contínuo e misterioso aumenta ainda o sentimento de êxtase que o penetra; ao longe ouve-se o estalo do bico do tucano, os sons metálicos da araponga, semelhante ao barulho do malho sobre a bigorna; os gritos queixosos da preguiça, os verdadeiros mugidos de uma espécie de enormes sapos; finalmente o canto das cigarras anunciam o cair da noite. Os vagalumes desprendem milhares de faíscas e, como lúgubres espectros, os morcegos ávidos de sangue passeiam na solidão em voo pesado; o rugido longínquo dos tigres, o murmúrio dos rios e o crepitar das árvores caídas interrompem por intervalos a serenidade do silêncio". Johann Moritz Rugendas (1802-1858). Viagem pitoresca através do Brasil. 5. ed. São Paulo: Livraria Martins, 1954. p. 12.
 
 
 
Estudo de pássaros na selva. 
Johann Moritz Rugendas (1802-1858)

 
 

sábado, 19 de setembro de 2015

Um grande baile em Manaus


"Desacostumada animação reina desde alguns dias em Manaus. Trata-se de organizar um grande baile em homenagem ao Sr. Tavares Bastos. Onde se realizará? Em que dia? A que hora? E, quanto às senhoras, que vestido havemos de botar, qual será a toalete da Sra.? Tais os motivos da animação. Essas delicadas questões foram enfim resolvidas e ficou aprovado que a "função" teria lugar no dia 5 deste mês, no "Palácio". Este é o nome invariavelmente dado à residência do Presidente, mesmo quando ela consiste numa pequena casa, modesta demais para carregar o pomposo título. A noite do dia marcado não foi tão favorável como se desejava; esteve muito escura, e, como o luxo de carruagens é totalmente desconhecido, os grupos atravessam às carreiras as ruas, iluminadas por lanternas de mão. Aqui e ali, pelo caminho, via-se, num trecho de rua, surgir do escuro uma toalete de baile saltando por cima duma poça de lama. Entretanto, quando todos já haviam chegado, observei que nenhum dos vestidos sofrera muito com a caminhada pelas ruas. Era grande a variedade das toaletes; a seda e o cetim misturavam-se à lã e às gazes, e os rostos mostravam todas as tonalidades do negro ao branco, sem esquecer as cores acobreadas dos índios e dos mestiços. Não há aqui, com efeito, o menor preconceito de raça. [...]. Os brasileiros, com efeito, tão hospitaleiros e bons, são muito formalistas e enfatuados em matéria de etiqueta e cerimônia. As damas, ao chegarem, vão sentar-se em banquetas estofadas que estão colocadas ao longo das paredes do salão de danças; de tempos em tempos, um cavalheiro avança corajosamente até essa formidável linha de encantos femininos e diz algumas palavras; mas só mais tarde, depois que as danças dividem os convidados por grupos que se misturam e que a festa se torna realmente alegre.
Nos intervalos, as bandejas circulam, carregadas de doces e xícaras de chá e por volta de meia-noite a ceia é servida; as damas tomam lugar à mesa, tendo, de pé, por trás de cada uma, os seus cavalheiros. Principiam logo os brindes e as saúdes, feitos e recebidos com entusiasmo. E o baile recomeça. estavam as danças muito animadas, quando, entrando no porto, o paquete vindo do Pará ficou todo iluminado e soltou girândolas e foguetes em sinal de regozijo pelas boas notícias da guerra. A alegria chegou ao auge; às quadrilhas, interrompidas, sucederam-se ruidosas manifestações de júbilo. A maioria dos assistentes passou a noite em claro e dirigiu-se para bordo do navio para receber os jornais; não tardamos em saber que uma vitória decisiva fora ganha sobre os paraguaios em Uruguaiana, onde o Imperador comandava em pessoa. [...]". Luiz Agassiz (1807-1873) e Elizabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil -1865-1866. 1938, p. 347-351.
 
 
 
Uma noite animada
www.shdestherrense.com


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

As aves frugívoras


"Dentre as aves frugívoras, podemos destacar as pombas, os papagaios, os tucanos e os anambés, todos pertencentes a família absolutamente distintas e afastadas. Entretanto, podemos encontra-las todas juntas, alimentando-se dos frutos da mesma árvore. De fato, há nas florestas sul-americanas certas frutas que são as mais apreciadas por quase  todos os tipos  de aves frugívoras.  Alguns escritores de obras de História Natural chegaram a afirmar que cada fruta do mato seria o alimento de algum animal, os quais teriam bocas de diferentes características e conformações, conforme as exigências do fruto que lhes servisse de alimento. Nisso há mais de imaginação do que propriamente de realidade, visto ser muito reduzido o número de frutos silvestres que servem de alimento às aves, e muito comum o fato de haver uma determinada árvore frequentada por aves das mais diversas conformações e tamanhos. Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 64.
 
 
 
 
Tucano (Ramphastos erythrorhynchus, Gmel.
John Gould (1804-1881). A Monograph of The Ramphastidae or faimily of toucans.  2. ed. 1992.

 

domingo, 13 de setembro de 2015

Um gracioso "Tesoura"


"Desprezemos porém toda essa miuçalha de animais que aí cantam, palram, saltitam, esvoaçam, picam e martelam, e atravessemos o teso. Avistamos novamente o campo mas, já agora, apresenta-nos a paisagem com novo aspecto, marchetada de moitas e árvores retorcidas. Do cimo das mais altas carobeiras faz o seu mirante um gracioso tiranídeo (Milvulus), o "tesoura" de compridíssima cauda; em certas épocas eles ali andam aos bandos, e não se cansa a gente de contemplar o alegre brinquedo e a ginástica magistral do voejar destas criaturinhas gentis." Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha do Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, Belém, t. 3, n. 1-4, p. 383, 1900-1902.
 
 
Tesoura-Bentevís-Maria-é-dia-Bentevis miúdos.
Álbum de Aves Amazônicas de Emílio A. Goeldi (1859-1917). 1900- 1906.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).


sábado, 12 de setembro de 2015

As palmeiras das matas do Amazonas


"[...]". Nesse meio tempo fazíamos passeios quase diários pelas matas das redondezas. Toda a superfície das terras, até a beira d´água, é coberta por uma uniforme e ondulante floresta verde-escuro, a caá-apoam (mata convexa) dos índios, que é característica do Rio Negro. Essa mata cobre também as extensas áreas de terras baixas, que são alagadas pelo rio na estação das chuvas. A água parece tirar sua tonalidade castanho-oliva da folhagem verde-escuro com que fica saturada durante as enchentes anuais. O grande contraste de forma e cor existente entre as florestas do Rio Negro e do Amazonas decorre das diferentes famílias de plantas que predominam em cada uma delas. Nas matas deste último, palmeiras de vinte ou trinta espécies diferentes compõem o grosso da vegetação, ao passo que no rio Negro elas têm um papel inteiramente secundário. A espécie típica dessa região é o Jará (Leopoldinia pulchra), que não é encontrada nas margens do Amazonas; seu leque de folhas é pequeno, com folíolo finos e do mesmo tom verde-escuro do resto da floresta. A haste dessa palmeira é lisa e mede cerca de cinco centímetros de diâmetro, não indo sua  altura além de quatro ou cinco metros; ela não se eleva, por conseguinte, acima da copa das árvores exógenas, o que a impede de ressaltar na paisagem como a murumuru e a urucuri de folhas largas, a esguia açaí, a alta jauari e a miriti de folhas em leque, encontradas nas margens do Amazonas. Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p 135.
 
 
 
Astrocaryum jauari e leopoldinia pulchra.
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum. 1823-1850.


domingo, 6 de setembro de 2015

Minha viagem pela floresta amazônica


"À medida que prosseguíamos, a floresta de árvores enormes, com raízes que desciam ao longo dos troncos reforçando sua estrutura, tornava-se mais densa e a luminosidade, mais fraca. Foi na suave luz esverdeada que vi uma colônia de Rapateceae, plantas aquáticas exóticas. De suas grandes folhas com o centro rosa choque surgiam talos delgados coroados por duas brácteas triangulares cor-de-rosa, dentre as quais conjuntos de pétala amarelo-claras surgiam dos cálices vinhos-escuros.  As pétalas eram tão delicadas que quase flutuavam pelo ar e não resistiriam à nossa viagem, por isso decidi deixa-las para a volta. Em pouco tempo estávamos longe, penetrando em uma floresta tão escura e ressonante quanto uma catedral.
Subitamente entramos em uma floresta de caatinga verde brilhante. As árvores, que já não eram tão impressionantes e grandiosas, estavam ornamentadas com epífitas que pendiam de seus troncos estriados sobre as raízes arqueadas pelo chão coberto de samambaias. Ao deixarmos essa floresta, adentramos mais uma vez na selva sombria, realçada apenas pela cor ametista das flores de Heterostemon ellipticus que cresciam no alto das copas. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 36.
 
 
 
Heterostemon sp. (Leguminosae)
Margaret Mee. In search of flowers of the Amazon Forests. 1989.


terça-feira, 1 de setembro de 2015

Ananases em grande quantidade


"A estrada que levava até lá passava no meio de uma bela mata, que exibia muitas árvores gigantescas. Senti falta, ali das palmeiras açaí, miriti, paxiúba e outras, só encontradas em solo mais fértil; não era incomum porém, a bela bacaba, vendo-se também uma grande diversidade de espécies anãs da palmeira-marajá (Bactris), uma das quais, denominada peuririma, era muito elegante, chegando sua haste, que era da grossura de um dedo, a alcançar quatro ou cinco metros de altura. Ao nos aproximarmos das terras descampadas, toda essa bela mata desapareceu bruscamente; diante de nós se estendia um terreno de formato oval, com quatro ou seis quilômetros de circunferência, desprovido do mais insignificante arbusto. A única vegetação que havia ali era constituída por um capim áspero e felpudo que nascia em tufos esparsos pelo campo. A mata formava uma espécie de cerca-viva ao redor dessa área, sendo a sua borda composta em sua maior parte de árvores que não são encontradas no coração da mata virgem, como por exemplo algumas variedades de folhudos melástomos, pequenos pés de Byrsonima, de murta, e a árvore-do-lacre, cujos frutos exsudam gotas de cera parecida com a goma-guta. Ao redor do campo crescia também ananases em grande quantidade. Essa fruta silvestre tem o mesmo feitio da espécie cultivada - o abacaxi - mas o seu  tamanho é bem menor, regulando com o de uma maçã grande. Colhemos vários, já bem maduros; seu sabor é agradável e muito semelhante ao do abacaxi, mas eles têm sementes em profusão e a quantidade de polpa comestível é muito pequena. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 118.
 
 
Ananás
www.mast.br