quarta-feira, 29 de julho de 2015

Nesses bosquezinhos de fadas...


 
"[...]. Seguindo o canal, chegamos à floresta densa; e justamente lá dentro está uma nascente magnífica, ou antes um lago, de onde corre a água. Abençoo sempre o bom senso que deixou este lugar intocado pelo machado ou facão. É tão isolado aqui que os animais da floresta chegam para beber; tão silencioso, que o estalar de um pequeno ramo ecoa na colina coberta de mata. A cem pés acima, as folhas das palmeiras tremem com o respirar do vento; mas a água em baixo é maravilhosamente lisa: uma folha, girando-lhe na superfície, envia diminutas ondulações até às margens. Bem lá em baixo, a cena se reflete como  nenhum artista poderia pinta-la, como nenhuma pena poderia descreve-la: a etérea leveza das palmeiras açaí, a grega dos samambaiaçus, a soberba floresta dominante, e a glória de mil manhãs envolvendo tudo isso. Até nossas diminutas ilhotas receberam o toque e o retoque de dedos amantes até conseguir-se o impossível nesses bosquezinhos de fadas e as palmeiras se inclinam com tremulante alegria, para captar uma visão de sua beleza. [...]." Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.). Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011, p. 141-142.
 
 
 
Palmeiras.
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palmarum brasiliensium. 1989.


domingo, 26 de julho de 2015

Encontro com papagaios


"[...]. Muito me surpreendeu, também, o encontro com papagaios. Essas aves, muito comuns em todas as florestas do Brasil, só podem ser vistas no momento em que levantam voo, pois sua plumagem verde as dissimula na folhagem. Mas, ao aproximar-se o homem, elas se traem, pois começam a gritar agudamente e levantam voo. Tanto no voo como no descanso, os pares ficam sempre juntos; mesmo quando bem alto, no ar, podem-se conhecer e distinguir os casais, que se mantém à distância de um pé um do outro.
[...]. Os bandos de papagaios não são grandes, sendo em geral de 6 a 8 indivíduos. Durante o voo, fazem ouvir seus gritos estridentes ao passarem por um cavaleiro solitário. Voam rapidamente, batendo as asas com grade velocidade e mantêm-se bastante elevados, pois têm como pouso as árvores mais altas. Alimentam-se de frutos de casca dura, [...]. Algumas vezes, ouvi o ruído da queda das cascas de nozes que abriam, antes ainda de vê-los levantar voo, com grande algazarra. Enquanto trabalham, mantêm-se absolutamente calmos, e só quando voam anunciam sua presença e a dos outros com seus gritos agudos." Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 87.
 
 
 
Papagaios.
  Augusto Ruschi.. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte.
 

 
 
 

domingo, 19 de julho de 2015

As borboletas no Amazonas



"As borboletas são tantas e de tantas espécies no Amazonas, que não menos o fazem divertido que abundante: umas brancas e tão alvas como neve; outras vermelhas, já de carmesim, já de púrpura; como veludo estas; aquelas salpicadas à maneira de cravos: roxas umas, outras azuis; e finalmente de tantas cores, quantas produziu a natureza e inventou a pintura. Há uma espécie de borboletas amarelas que frequentam muito as praias dos rios em tão numerosos e inumeráveis bandos, que fazem amarelizar as mesmas praias; onde quase sempre pousam; ou porque nelas buscam alguma lambujem com que se sustentam, ou porque a elas vão beber. São todas as borboletas não só sustento, mas também regalo para muitos pássaros, que as caçam. Por outra parte se fazem muito estimáveis pelas suas belas cores, e mansidão, que dos voláteis são os mais inocentes. Os índios por mui propensos a agouros também os tem com as borboletas, ou com alguma  das suas espécies, pelo que, quando alguma lhe entra em casa, ou voa perto, ou por entre eles, quando estão divertidos, logo ajuízam têm hóspede brevemente. [...]. Pe. João Daniel (1722-1776). Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. 2004, v. 1, p. 229.
 
 
 
Borboletas.
Carl Fr. von Martius; J. B. von Spix. Delectus Animalium Articularum. 1830-1834.
 In: LAGO, Pedro Corrêa do. Brasiliana Itaú. São Paulo: Capivara Ed. 2009.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Curica, meu pequeno papagaio!



"Antes mesmo de termos chegado ao Uaupés, voltando para Manaus, eu já programava uma nova viagem.
Portanto, quando chegamos à Missão Salesiana, em Tapurucuará, organizei de modo improvisado um passeio, para que Paulo e eu fôssemos em uma missão no rio Marauiá, onde vivia um padre solitário chamado Antônio Goes, e sobre o qual jorravam histórias lendárias. Passei o dia trabalhando com as plantas que colhi durante minha viagem ao pico da Neblina. A maior parte das espécies parecia ter sobrevivido, mas sem dúvida uma chuvarada cairia como uma benção. Paulo me ajudou fazendo um ótimo trabalho, enquanto Curica, um pequeno papagaio que eu havia adquirido algumas semanas antes, observava sentado em uma árvore, se divertindo imensamente. Havia decidido abrir a porta de sua gaiola tão logo chegamos a Tapurucuará, pois não consegui suportar a ideia de a ave ficar confinada em um espaço tão pequeno. Ele me pareceu contente por sair da gaiola e ficou empoleirado em um galho próximo enquanto eu trabalhava. Margaret Mee (1909-1988) Flores da floresta amazônica. 2. ed. 2010, p. 61.
 
 
Curica.
Desenho de Antônio Martins.
Brasil 500 pássaros. 2000


domingo, 12 de julho de 2015

A ruidosa festa das asas


"Com esse povoamento interno das lagunas começa a ruidosa festa das asas.
Os possantes jaburus alvinegros de voo lento e pesado, aterram vagarosamente. O fresco aspecto das águas transmite-lhes deliciosos estremecimentos de frio. Abrem os triângulos das asas poderosas, riçam a seda da volumosa plumagem e iniciam, com elegante altivez, a cauta e meticulosa pescaria. Antes, porém, da caça aos languidos gasterópodos, elevam o orgulhoso colo, examinando se pelas cercanias não existe algum inimigo, agachado por detrás das moitas da crescida canarana.
Chegam depois os primeiros bandos das bravas marrecas. Tracejam no ar os longos volteios das manobras inspecionadoras e baixam, pressurosas, sobre os rasos alagadiços. Sempre receosas  vigilantes, aos primeiros rebates do convencionado alarma, irrompem em revoada alistridente, enfileirando-se aos pares, enchendo o espaço com a sua azoinadora e assustada gritaria. [...]".  Alfredo Ladislau. Terra imatura. 2. ed. 1925, p. 37-38.
 
 
Jaburu, Maguari e Cabeça-seca.
 Augusto Ruschi. Aves do Brasil. v. 2, 1986.
 Ilustrações de Etienne e Yvone Demonte


terça-feira, 7 de julho de 2015

A flor do maracujá


"Deixando a cidade, seguimos por uma estrada suburbana direita, construída acima do nível das terras circunvizinhas. O terreno apresentava-se alagadiço de um e outro lado, mas estava edificado, vendo-se várias rocinhas espaçosas, mergulhadas na magnífica vegetação. Passada a última casa, chegamos a um ponto onde a majestosa floresta se erguia, como dupla muralha, a cinco ou seis jardas do caminho, até uma altura provável de 100 pés. Só de vez em quando víamos parte dos troncos das árvores, estando a mata quase toda fechada, do chão ao topo, coberta por um reposteiro de trepadeiras, variegado de todos os tons mais brilhantes do verde. Era raro ver-se uma flor, exceto as do maracujá, que surgiam aqui e ali; como solitárias estrelas escarlates recamando o manto verde." Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 1, p. 75.
 
 
 
Flores e frutos de maracujá. Flor da paixão.
Marianne North (1830-1890).
www.kew.org


domingo, 5 de julho de 2015

Um penumbroso caminho!


"Partimos ao amanhecer numa pequena igarité manobrada por seis jovens remadores indígenas. Depois de navegarmos quatro quilômetros e meio através do trecho mais largo do igarapé - o qual, rodeado pela mata, tem a aparência de uma lagoa - chegamos a um ponto onde nosso caminho foi interrompido por uma impenetrável barreira de árvores e arbustos. Levamos algum tempo para encontrar uma passagem, mas quando nos vimos dentro da mata causou-me admiração o cenário que tinha diante dos olhos. Foi o meu primeiro contato com esses singulares caminhos aquáticos. Uma estreita alameda razoavelmente reta, estendia-se diante de nós a perder de vista; de cada lado, a copa dos arbustos e de árvores baixas formava uma espécie de borda ao longo do caminho, enquanto que troncos de gigantescas árvores se elevavam da água a intervalos irregulares, suas ramagens se entrelaçando muito acima de nossas cabeças e formando um espesso dossel. Finas raízes aéreas pendiam em feixes do alto, e alças de cipó dependuravam-se nos galhos mais baixos; tufos de capim, de tilândsias e de samambaias enganchavam-se nas forquilhas mais grossos, e na parte inferior dos troncos das árvores, ais próxima da água, grudava-se uma massa seca formada de esponjas de água-doce. Não havia correnteza perceptível e a água tinha uma tonalidade verde-escuro; entretanto, os troncos submersos eram visíveis até uma grande profundidade. Durante três horas navegamos em boa velocidade por esse penumbroso caminho; [...]. Nossas vozes ecoavam soturnamente naquele ermo, e o ruído feito pelos peixes  ao espadanarem água na superfície nos dava sobressaltos. Um ar frio, úmido e pegajoso pairava sobre o penumbroso caminho." Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 223.
 
 
 
Um Igarapé na Amazônia
Johann Baptist von Spix. Selecta genera et species piscium. 1829.


quinta-feira, 2 de julho de 2015

A famosa rede!


"Uma coisa, porém, não pode faltar numa verdadeira oca de tapuia: a imprescindível, a famosa rede!
Mas, por Deus, não quero falar dessas variegadas redes de algodão, que já se tornaram artefatos anglo-americano, e são em todos os desenhos e tamanhos importados como artigo importante de comércio no Pará, e vendidas às gerações que embora não criadas em redes, preferem caro e mais largo artefato como um artigo de luxo importado da Europa.
Quero dizer aqui somente daquelas redes e trabalhos de malha e entrançados, cuja matéria-prima cresce nas airosas palmeiras, ou se oculta nas polpudas folhas das bromeliáceas, das esteiras e redes tecidas ou entretecidas de tucum e caroá.
Na série das astrocárias espinhosas, entre as quais se distinguem pelas suas várias utilidades as já citadas javari, tucumã, murumuru, etc., que eu já encontrara, subindo o Rio Negro, deve mencionar-se em primeiro lugar a Astrocaryum vulgare, uma palmeira que excede todas as outras astrocárias em brandura e resistência do parênquima dos folíolos, e que por isso fornece material técnico para vários usos.
O epitélio arrancado do folíolo das folhas novas e retorcido é esfregado e enrolado com as mãos em cima da perna, dum modo tão destro e tão hábil, que formam fios compridos e extraordinariamente consistentes e fortes, por sua vez reunidos e retorcidos até formar um cordão relativamente grosso, com o qual tecem uma grande rede de malhas frouxas e elásticas. Em ambas as extremidades dessa rede, prendem-se cordões mais grossos de tucum, reunidos num só feixe, presos a uma corda, para ser pendurada à vontade nos pontos fixos escolhidos. Assim nasce a mais encantadora rede-cama que se baloiça no ar, e cujos cordões e malhas muitas vezes são tintos de encarnado e amarelo-claro. Qualquer pessoa pode armá-la e deitar-se nela sem o menor receio; duas pessoas mesmo precisam ser muito pesadas para que ela se rompa sob o seu peso reunido. A dormida nessas camas suspensas e baloiçantes é muito fresca e agradável, sobretudo quando, depois de alguma prática se acerta em deitar-se obliquamente e estender-se comodamente nelas [...]." Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No Rio Amazonas (1859). 1980, p. 114-115.
 
 
Viajante em sua rede. 
Desenho de E. Riou .
J. Creveaux. .Voyage d´exploration dans l´intêrieur des Guyanes. 1876-1877.