segunda-feira, 27 de abril de 2015

No Rio Solimões...


"O Solimões  veio, a 15 de julho, ao nosso encontro, em plena magnificência. O sol vinha nascendo e fazia empalidecer a lua cheia no ocaso. Um bando de alcíones brigava entre si ou com o vapor, que lhes perturbara a manhã. Dois deles tentaram atacar um gavião, que se esquentava ao sol, no galho alto dum eriodendro. Foram, porém, repelidos com enérgicos protestos. Alguns jacus, que faziam também sua toillete da manhã, apressaram-se em fugir, quando nos aproximamos. Um macaquinho, depois de nos ter observado por algum tempo, sumiu-se com horríveis guinchos dentro da floresta.
Só a vegetação ficou quieta, perto de nós, e seguiu-nos rio acima. Depois, como antes, formavam a selva sumaumeiras e esterculiáceas ou bombáceas, calófilas, cecrópias e dentre as palmeiras, a espinhosa tucum, a graciosa inajá e a altiva pupunha ou pirajau, como amirídeas, loureiros  e mirtáceas. Na terra cresciam musáceas, aróideas e gutíferas nas árvores . Por trás dos vastos capinzais de canaranas, porém, por trás das aningas e acima de delicadas mimosas peniformes, elevavam-se outros representantes das florestas tropicais, espessos e repetidos bambusais, de viçosas frondes graminifólias, e graciosas pontas, acenando, inclinadas - prova evidente de que as margens do rio eram de terreno firme, porquanto a taquara, embora exigindo terras úmidas, gosta delas firmes, e procura mesmo as alturas". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). Viagem pelo norte do Brasil no ano de 1859. 1961, v. 2, p. 158-159.
 
 
 
Travessia sob o bambusal.
Desenho de Riou (1883). J. Crevaux. Voyages dans L´Amrique´du Sud. 1883.


sábado, 25 de abril de 2015

Plantas mágicas


"As plantas gozam entre os índios do Amazonas de virtudes feiticeiras: o cumacá, por exemplo, é o fetiche da liberdade. Imagine-se que algum deles cai prisioneiro, acreditam neste caso que as raízes pulverizadas do fetiche sopradas sobre as cordas que ligam o guerreiro, transportado à tribo inimiga, afrouxam os laços, proporcionando-lhe à fuga e a liberdade.
O tajá ou tinhorão (Caladium bicolor) planta herbácea das aroideas também conhecida com os nomes de papagaio e pé de bezerro, é o fetiche da pescaria. O caboclo vê nas suas largas folhas orvalhadas do relento os dentes de pérola de uma boca misteriosa que beija com o sussurro das auras a face calma do rio. E os peixes como por encanto acodem presa voluntária do feliz pescador. [...]. C. Teschauer (1851-1930). Avifauna e flora nos costumes, superstições e lendas brasileiras e americanas. 3. ed. 1925, p. 211.
 
 
Caladium bicolor.  D'Orbigny's Dictionary of Natural History, 1849.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Caxiri



"É em geral, a denominação dos vinhos de frutas, dos indígenas e dos caboclos da Amazônia, cujo sumo é posto a fermentar: consomem-no nas festas, bailes e dabacuris, tanto dos índios como dos caboclos [...].Quanto mais fermentado mais será preferido o caxiri, porque embriaga, estimula a alegria e assanha os instintos. Diz-se que um caxiri de taperebá só pode ser suplantado por um caxiri de polpa de frutos de cacau. O seu uso é tradicional, provindo dos primitivos senhores das terras e rios da Amazônia. [...].
O Conde Ermano Stradelli, no Vocabulário Nheéngatu-Português, afirma que também se denomina caxiri a uma festa indígena, "festa" particular, para a qual não há época prefixada nem há convites, embora seja sempre bem-vindo qualquer estranho". M. Nunes Pereira. Moronguetá: um decameron indígena. 1967, v. 1, p. 127.
 
 
 
 
Festa do Caxiri.
Karl von den Standen. O Brasil Central. 1942.


segunda-feira, 20 de abril de 2015

As Orquídeas da Hiléia



 
“[...]. Dizem os floricultores que a Hiléia contém um terço das três mil espécies de orquídeas conhecidas em todos os continentes.
Realmente, é trivial deparar nas cerradas florestas centrais com um belo e variegado orquidário, destacando-se as maravilhosas catleias pendentes dos altos ramos, semelhantes a pequeninas estrelas coloridas tremeluzindo na penumbra olente da mata umedecida. Há, também, imitando minúsculos candelabros oscilantes, que dão às pétalas imbricadas suaves relevos de tom auricolor”. Mavignier de Castro. Amazônia Panteísta: cenas e cenários da grande Hiléia. Manaus: Sérgio Cardoso, 1958, p. 70-71.
 
 
 Cattleya superba splendens.
 Nativa do Brasil, região do Rio Negro - Amazônia.
Orchid album - London, 1882. www.biodiversitylibrary.org
 


 
 
 





 


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Um quadro da Natureza


"Longe do convívio dos homens civilizados, nesses ignotos rincões do rio Chavantinho, onde a pouca mata marginal aromatiza a aragem fresca do rio, onde as riscas de areia branca e fina emergem das águas calmas e silenciosas que correm sempre, multiplicando nesse trabalho perene as espécies de peixes, quelônios, anfíbios e convidando as aves aquáticas ao fácil repasto, aos cardumes da rica ictiofauna regional que ficam retidos nessas extensas línguas d´água, o olhar do viandante pode surpreender quadro lindíssimos, policrômicos, como este que estamos vendo onde os colhereiros (Ajaja ajaja), róseos como uma joia da ornitologia indígena, passeiam ao longo das praias desertas, á sombra dessa cortina verde, de flores e ramagens que se refletem na água azulada que corre, corre sempre, levando, boiando na corrente, pétalas de flores perdidas do sertão, como as saudades que em nossos corações são levadas na torrente da vida". Agenor Couto de Magalhães. Encantos do oeste. 1945, p. 203.
 
 
Colhereiro (Ajaja ajaja)
Ilustração de J. Th. Descourtilz


segunda-feira, 13 de abril de 2015

Alfred Wallace e sua rotina no Pará


"Nossa rotina diária durante a estada nos moinhos era a seguinte: levantávamos às cinco e meia e íamos tomar um agradável banho nas águas do córrego. Daí partíamos para a floresta, geralmente armados, pois esta era a melhor hora para se caçar. [...]. Regressávamos às oito para o dejejum. Depois, saíamos novamente, agora em busca de insetos e plantas, ficando na mata até a hora do almoço. Depois do almoço, perambulávamos por uma ou duas horas, deixando o resto do dia para os trabalhos de preparação e secagem das coletas e para palestrar. Eventualmente, descíamos o igarapé de montaria não regressando senão à noitinha. Mas já nas minhas primeiras incursões pela floresta eu pude saciar minha curiosidade tendo a oportunidade de observar diversos animais exóticos, mormente pássaros. Os tucanos e papagaios eram abundantes. Encontramos também com certa frequência esplêndidos anambés azuis e roxos. Os colibris às vezes passavam por nós como flechas, logo desaparecendo nas profundezas  da floresta. Pica-paus e diversas aves trepadoras de vários tamanhos e plumagens subiam pelos troncos e galhos das árvores. Víamos eventualmente o pequenino anambé de cabeça vermelha e pescoço entufado, e achávamos incrível como aquele pássaro tão diminuto podia rufar as asas de maneira tão barulhenta." Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 38-39.
 
 
 
 
Anambés.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas.  1900-1906.


quarta-feira, 8 de abril de 2015

Heliconias à margem do Uaupés


"[...]. Na medida em que minha viagem prosseguia, a região tornava-se mais bonita - florestas, florestas e mais florestas, alternando-se vez por outra com o cerrado, e escarpas de pedras vermelhas, com muralhas bem escoradas desde os tempos pré-históricos. Rios largos ziguezagueavam pela selva sem fim, com o sol transformando suas águas em ouro líquido.
Partindo de Manaus, fiz diversas visitas à reserva Ducke, uma bela área florestal batizada em homenagem ao botânico brasileiro Adolpho Ducke.
Pintei de forma entusiástica, já que havia muito material, tanto na reserva quanto nos seus arredores: Heliconia acuminata, com brácteas amarelo-pálido, em uma grande colônia sob as árvores da floresta; Streptocalyx longifolius, cujas flores são polinizadas pelos morcegos à noite; Streptocalyx poeppigii, com suas longas inflorescências vermelhas e roxas; todas essas plantas maravilhosas e muitas outras". Margaret Mee ( 1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 33.
 
 
 
Heliconia acuminata.
 Ilustração de Margaret Mee (1909-1988).
Flores da floresta amazônica. 2010.


quarta-feira, 1 de abril de 2015

As inúmeras palmeiras das florestas alagadiças


"A seringueira já hoje se planta como também às margens do Tocantins. Porém os tipos mais característicos destas florestas alagadiças são as inúmeras palmeiras de todas as espécies e formas desde a delgada e volúvel Jacitara até o Miriti (é variante provincial do nome Buriti), cujo tronco direito como uma coluna de 20 a 30 metros, sustenta uma imensa copa umbeliforme, e sua digna emula, a soberba Maximiliana regia.
Menos elevados, porém mais compactos, salientam-se os Ubuçus e Jupatis, pelas colossais dimensões da folhagem. Espécies de Astrocaryum, cujo tronco é todo guarnecido de espinhos pretos, alternam com grupos de elegantes Euterpes, Açaís e Bacabas de folhagem penada e pendente. [...]." Dr. Paulo Ehrenreich (1855-1914). A segunda expedição alemã ao rio Xingu. Revista do Museu Paulista, t. 16, 1929, p. 283.
 
 
Astrocaryum spp. Rio Yatapu, primeira cachoeira.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum Palmarum, 1989.