domingo, 30 de novembro de 2014

Lendas e Curiosidades: O Sabiá-laranjeira.


"Apesar de Goeldi não lhe ter apreciado o canto, dizendo que seus trinados não passam de um "furi-furi" levado ao infinito e, nem, tão pouco ter manifestado simpatia por essa alminha encantadora de Gonçalves Dias, eu o classificarei dentre os nossos pássaros cantores genuinamente brasileiros, como o primus inter pares.
Se tenho razão, não discuto. Julgo que, talvez, esse meu modo de pensar seja questão de profundo entusiasmo que lhe dedico a ponto de reconhece-lo um artista impecável do canto.
Vou, pois apresenta-lo aos meus leitores, em primeiro lugar, não como espécimen raro, merecedor de análise circunstanciada no meio ornitológico, mas, tão somente, como um dos maiores cantores da primavera.
Quem o não conhece?
É ele o mais simpático da família, tanto pela compleição magnífica do corpo, como também pelo brilhante talento musical, fazendo a seus pares enorme sombra.
Olhinhos vivos, cabeça altamente erguida, peito arquejante, uma das pernas escondida por entre as penas bruno-avermelhadas, ei-lo senhor da Natureza, pousado elegantemente num galho, solitário, chamando com um canto vibrante e dolente a terna e encantadora companheira.
Vê-lo nesta sublime posição, dominando os encantos da terra é uma maravilha, um deslumbramento!
Ouvi-lo gorjear neste aspecto airoso, nesta atitude fidalga e enérgica, mas cheia de ternura, é um desdobramento compassivo e doce de saudades infinitas, - indizíveis, perpassadas de emoções evocativas, que nos transportam a tempos remotos, a regiões distantes, longínquas, indecifráveis. [...]". Antônio Caetano Guimarães Junior. Ensaios sobre ornithologia. Revista do Museu Paulista, São Paulo, t. 16, p. 99-100, 1929.
 
 
 
Sabiá laranjeira.
R. von Ihering. O livrinho das aves. 1914.
 


quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Viajantes: Que dia delicioso!


"Que dia delicioso! Mas o termo delicioso é demasiado fraco para exprimir os sentimentos do naturalista que, pela vez primeira, erra numa floresta brasileira. A elegância das ervas, a novidade das plantas parasitas, a beleza das flores, o verde ofuscante da folhagem e, mais que tudo isso, o vigor e o brilho geral da vegetação, enchem-me de espanto. Qualquer pessoa que ame as ciências da natureza experimenta, num dia como o de hoje, um prazer, uma alegria tão intensa, como não pode esperar sentir igual nunca mais". Charles Darwin (1809-1882). In: MELLO-LEITÃO, Candido. A vida na selva. São Paulo, 1940, p. 2.
 
 
 
Ilustração de Margareth Mee (1909-1988)
Flores da floresta amazônica.  2010.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Viajantes: Cajueiro



"[...]. Entre as árvores que então estavam em flor, a mais abundante era o cajueiro (Anacardium occidentale, L.). Destacava-se entre eles um velho espécime, de casca nodosa e galhos que tocavam o chão de todos os lados, com folhas recentes, de uma delicada coloração pardo-avermelhada, e numerosos frutos amarelos ou rubros (melhor dizendo, seus pedicelos dilatados), parecidos com peras, cada qual tendo embaixo dele uma castanha em forma de rim (que é o fruto propriamente dito). Tratava-se de um exemplar arbóreo bem pitoresco, apesar de seu tamanho modesto". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 77.
 
 
 
 
Desenho de  Mark Catesby
Sec. XVIII


domingo, 16 de novembro de 2014

Viajantes: Uma paisagem maravilhosa!


"O arvoredo desdobra-se, pouco a pouco, em toda sua opulência. Massas de folhagem sobem em trepadeiras verde-claro até às copas e dependuram-se até embaixo como vigorosas velas formando altos e redondos caramanchões. Por toda a parte raízes enormes  e lisas, de cor cinza finas ou grossas como braços, parecem amarras de navio a que estivesse presas enxarcias vindas lá do alto, desaparecendo no matagal florido ou enroscando-se nos troncos. O que se torna de surpreendente efeito é que ali nunca se vê o rio diante de si como uma estrada comprida, pois a cada meio ou um quilômetro há sempre uma volta a dar, aparecendo então uma nova paisagem maravilhosa. Os pássaros levantam-se em voo, sendo o mais elegante a garça esbelta e branca de neve, formando  contraste com a cor da espessa mata, onde não existe uma linha  reta, nem se nota, ao mesmo tempo, formações de contornos regulares. Frequentemente, o nosso conhecido  "Maçarico", de cores tão brilhantes, é chamado por aqui de Martim-pescador. O biguá, nosso mergulhão é visto habitualmente, nos ramos das árvores com muitos companheiros, estirando, curiosamente, o comprido pescoço, ou vem à tona, após mergulhar, correndo de passinhos rentes à superfície. Karl von Steinen (1855-1929). O Brasil Central. 1942, p. 55.
 
 
 
 
Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
Álbum de aves amazônicas 1900-1906.
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930).


quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Viajantes: Viagem no "rei dos rios".


"Com a entrada no rei dos rios encontramos novamente o vento geral, que de agora em diante se nos apresentava tão contrário, quanto nos favorecera na nossa viagem rio acima. Com exceção de um curto momento em que pela manhã cedo nos detivemos em Tapará, [...], lutamos quase todo o dia contra ele. [...]. Soprou hoje, com tanta violência que, juntamente com o preamar, desviou o igarité para leste, num movimento remoinhante. Fomos por isso obrigados a cortar varas, para poder impedir com grande trabalho o barco junto aos exemplares de Caladium e juncais da margem. Para a tarde, porém, o vento contrário amainou e não tardou que o céu estendesse seu manto estrelado no qual brilhava o Cruzeiro do Sul, por cima das águas escuras do Gigantesco Amazonas, como se quisesse festejar também a noite de Natal. [...]" Adalberto, Príncipe da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazônia-Xingu. 2002, p. 357.
 
 
 
Caladium.
 L´illustration horticole. Gand, 1891.


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Viajantes: As garças brancas nos rios do Pantanal.


"É particularmente ao cair da tarde que mais empolgante se tornam as cenas da natureza para quem sobe os grandes rios do Pantanal. Bandos incontáveis de aves mergulhadoras e ribeirinhas acorrem de todos os lados, convergindo para a fronde das árvores mais altas, não raro, por este sacrifício, inteiramente despojadas de folhas. As de cada espécie preferem de ordinário a companhia de suas semelhantes, tingindo assim a ramagem de pontilhado uniforme. À passagem do barco, a multidão inquieta estremece, vacila e agita as asas, pronta a seguir o exemplo daquele que, mais prudente ou espantadiço ergue-se no ar, projetando nos céus claros a sua silhueta característica. As garças brancas [...], obedecendo o estilo de sua numerosa parentela dobram em S o longo pescoço, estiram as patas para trás em prolongamento à cauda curta, e fendem os ares em lento bater de asas, com o bico apontado para diante; [...]". Olivério Pinto. Notas de uma viagem fluvial a Cuiabá. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Belém, v. 10, p. 336, 1949.
 
 
Garças
 Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum das aves amazônicas (1900-1906).


segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Viajantes: A estranha e linda mariposa Urania leilus.


"Chegamos ao sítio de nossa caçada por volta das quatro e meia. O canal era mais largo e apresentava várias ramificações. Faltava ainda hora e meia para o amanhecer e Raimundo aconselhou-me que cochilasse um pouco. Deitamos os dois nos bancos da canoa e adormecemos, deixando o bote vogando ao sabor da maré, então em calmaria. Dormi bem, apesar da dureza do leito, e quando despertei, no meio de um sonho com imagens da pátria, rompia a madrugada. Minha roupa estava úmida de orvalho. As aves agitavam-se, as cigarras começavam a sua música e a Urania leilus, estranha e linda mariposa de asas com um prolongamento caudal e de variegadas cores, de hábito semelhante aos das borboletas, começava a esvoaçar em bandos na copa das árvores. Raimundo exclamou: "Clareia o dia"!" A mudança foi rápida. O céu, para o nascente, tomou de súbito o mais formoso azul, no qual se destacavam estreitas faixas de alvas nuvens. Em tais momentos a gente sente como é realmente formosa a terra. O canal, em cujas águas flutuava nosso pequeno bote, tinha cerca de duzentas jardas de largura. Outros ramificavam-se à direita e à esquerda, recortando o grupo de graciosas ilhas que formam a terra de Carnapijó. Por toda parte a floresta formava ininterrupto caixilho: embaixo era a franja dos mangues, cuja folhagem miúda contrastava com as frondes em leque ou em pluma das palmeiras." Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944. v. 1, p. 230-231.
 
 
 

Urania leilus.
 Ilustração de Maria Sybilla Merian  (1647-1717).
  Insects of Surinam.


domingo, 9 de novembro de 2014

Reflexões: Hora íntima.



 
Quando o tédio vier, nas noites indormidas,
terei de preencher o vazio das horas.
Terei que dar sentido aos momentos estéreis
para não mergulhar no vácuo do não-ser.
 
Deverei ponderar sobre o que não criei,
sobre o desvalimento da presença inútil,
sobre a palavra dita em momento indevido
e sobre a negação de um gesto ou de um olhar.
 
Deverei meditar sobre o quanto não fiz,
sobre os passos levados pelos descaminhos,
sobre a inglória omissão a um apelo de amor,
sobre a invasão da dor na hora inoportuna.
 
Deverei resolver fracassos renegados,
assumir erro e culpa, acordar sofrimentos
que causei, ao vencer talvez espezinhando
impunemente ou não outras almas em ruínas.
 
Deverei descansar minha própria aparência,
surgir diante de mim como quem se confessa,
como quem se revela, em face da verdade,
para viver na luz, para dormir em paz.
 
Dulcinéa Paraense
 
Extraído de: PARAENSE, Dulcinéa. Dulcinéa Paraense a flor da pele. Belém: SECULT, 2011.
 
 
 
 


Pintura de  Francis John Wyburd (1826-1893).
 

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Vocabulário histórico da Amazônia e sua presença na literatura: Sapopema.


SAPOPEMA: grandes raízes que envolvem a base do tronco e  se elevam, às vezes, a dois metros de altura. 
 
ETIMOLOGIA: Do Guarani hapó 'raiz' + pembi 'tecedura', segundo Braz da Costa Rubim em Vocábulos indígenas e outros introduzidos no uso vulgar. Revista do Instituto Histórico e Geografico, t. 45, p. 1, 1882. Sin./Var.: sapupema, sapopemba.
 
LITERATURA: Álvaro Maia  comenta:
 
"Nada se vê, a dois metros de distância: as embarcações param, os motores abeiram aos barrancos. Canoas afoitas descem o rio, perto do escuro das margens, guiadas pelas correntezas espumantes e, muitas vezes, perdem os rumos.
As buzinas acordam os moradores. As bordoadas nas sapopemas, troando matas afora, servem para anunciar o caçador ou o seringueiro, que regressa da apanha do leite.
A sapopema acorda a alegria, - alguém vara as brenhas, um sopro de vida perpassa sob as árvores, uma voz vegetal saúda as barracas, que dormem ao longe." Álvaro Maia. Gente dos seringais. 1956, p. 13.
 
 
Árvore  e sapopemas.
 Franz Keller-Leuzinger. Voyage d´exploration sur l´Amazone et le Madeira. 1874.


terça-feira, 4 de novembro de 2014

Viajantes: Palmeiras espinhosas!


"[...]. Não disponho de referências no tocante às palmeiras, e tenho estado atualmente em locais onde essas plantas são muito interessantes. É bem verdade que sua coleta e preservação são extremamente difíceis.
Uma palmeira espinhosa, colhida nas profundezas da mata, num lugar distante do ponto onde se encontra a canoa, é uma carga difícil de ser transportada por um homem. Além disso, trata-se de um transporte extremamente desconfortável, pois as mãos de quem a arrasta estão constantemente sendo usadas para cortar e afastar os cipós que obstruem o caminho". Richard Spruce (1817-1893). Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 170.
 
 
Desmoncus paraensis Barb. Rodr.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. 1989.


segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Viajantes: Acampamento dentro da grande mata!


"A noite desce com presteza; a luz do fogo dança por sobre os troncos e galhos. É muito sossegado aqui na profundeza da mata. Nos campos abertos e perto das cidades há o concerto repicante dos insetos e o choro das aves noturnas; em volta dos lagos da várzea há o coaxar e o cricrilar dos grilos e os peixes a saltarem nos rasos. Nada disso é ouvido em nosso acampamento; não há sinal de vida, exceto as estranhas mariposas que adejam sobre a fogueira e, vez ou outra, o sussurro de algum animal no mato; um veado, talvez, atraído pela luz. Ficamos muito tempo acordados, como acontece num primeiro acampamento, vigiando os tições que se apagam e cismando vagamente! Que ponto minúsculo é o nosso acampamento dentro da grande mata!" Herbert Smith (1851-1919).In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.) Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2011.
 
 
 
 Cte. De Gabriac.
 Promenade a travers L´Amerique du Sud. 1868.