quarta-feira, 28 de maio de 2014

Reflexões: Trabalho.



Trabalho
 
 
Quando trabalha, você é uma flauta por cujo coração o sussurro das horas se transforma em música. Amar a vida pelo trabalho é estar em intimidade com o segredo da vida mais interior. Todo o trabalho é em vão, salvo quando houver amor. Pelo trabalho o amor se torna visível.
 
Kahlil Gibran (1883-1931)
In: DYER, Wayne W. Muitos mestres. Rio de Janeiro: Nova Era 2003. p. 238.
 
 
 
 
Pintura de Albert Lynch (1851-1912)

 
 
 


domingo, 25 de maio de 2014

Viajantes: Os canoeiros de rios encachoeirados.


"[...]. Canoeiros! Ei-los no hábil manejar dos remos sobre as ubás ou canoas, ao atracar ou desatracar das margens; aproveitando, conforme as circunstâncias, a correnteza, ou o  remanso; marcando as horas da viagem, de acordo com a observação da maré, muitas vezes para evitar a surpresa da pororoca; escolhendo o canal de navegação: contornando baixios e desviando de troncos de árvores submersos ou flutuantes.
Contudo, isso é banal, nem tudo é planície...
Quando se torna necessário remontar ou descer os rios encachoeirados, que vêm das fronteiras ao norte do Brasil, então surge o herói, evocando a epopeia das bandeiras e monções.
Cada cachoeira, cada rápido ou canal rochoso é um obstáculo a vencer, revestido das suas peculiaridades, que se  transmutam de aspecto, algumas vezes, em poucas horas.
Audácia, decisão rápida, precisão e iniciativa sem vacilações, ante qualquer imprevisto, são os requisitos básicos aos canoeiros de tais empresas. [...]." João de Melo Morais. Canoeiros de rios encachoeirados. In:  IBGE. Tipos e aspectos do Brasil. 1966. p. 13.
 
 
Canoeiros.
Desenho de Percy Lau (1903-1972).
 IBGE. Tipos e aspectos do Brasil. 1966.


terça-feira, 20 de maio de 2014

Viajantes: Os Araçaris.


"Os Araçaris têm brado mais claro, que soa Kulik, Kulik. Gostam de dar concertos pela madrugada e à tardinha; em geral reúnem-se num ou mais gigantes da floresta, soltos ou vizinhos entre si, que demoram na borda da mata ou dominam a vegetação adjacente. Um dá o alamiré, os outros entoam ora em solo, ora em dueto, ora em coro, uns mais profundos, outros mais altos, concerto admirável e cômico, que excita gargalhadas quando invisível, na vizinhança pode observar-se o modo como as diversas partes do corpo, cabeça, pescoço e cauda entram também na mímica [...].
Durante as horas quentes do dia gostam de permanecer ocultos na sombra das copas escuras, arranjam-se na meia luz do mato trançado ou de uma touceira de taquara, chegando mesmo a pousar no chão.
A noite gostam de escolher um esconderijo seguro para dormir. Tomam então posição muito esquisita; de cauda voltada para diante por cima do dorso, cabeça escondida debaixo de uma asa, representam espetáculo altamente engraçado. Antes de entregarem-se ao sono, denotam inquietação notável, saltitam por aqui e por ali e soltam o grito a mais não poder". Emílio A. Goeldi (1859-1917). As Aves do Brasil. 1894.
 
 
Araçari. Pteroglossus aracari.
Ilustração de  John Gould (1804-1881).
A monograph of The Ramphastidae or family of toucans.  1992.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Viajantes: Mamoeiro.


"[...]. A um canto, isolado, podemos encontrar um mamoeiro (Carica papaya), cujo fruto, em forma de melão, é consumido pelos criados e operários. Esta planta causa uma impressão curiosa e atrai logo a atenção do forasteiro. O tronco, da altura de 12, 14 e até 20 pés, fica sempre verde, ao menos na sua parte superior, e termina numa copa sem ramos e de folhas cor verde-amarela, muito parecidas com as do rícino. Debaixo destas folhas, encontramos, nas árvores femininas, grande número de frutas, que ao amadurecerem, se tornam amarelas, parecidas com o melão, porém menores. A polpa é amarela também e no interior há grande quantidade de sementes, preto-esverdeadas e cobertas por uma espécie de pele em cinco periféricos, o que faz lembrar o mais belo caviar. Esta fruta que é um regalo inacessível fora do Brasil, sempre despertou em mim grande desejo de vê-la". Dr. Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil através das Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. São Paulo: Liv. Martins, 1952. p. 48.
 
 
Mamão (Carica papaya).
 Berthe Hoola van Nooten tropical Prints, 1863.


terça-feira, 13 de maio de 2014

Viajantes: A atraente e peculiar vegetação da floresta.


"Do maciço de uma destas tramas de arbustos enredados por milhares de lianas, é difícil, como já foi dito, fazer-se uma ideia entre nós. Nos troncos das árvores fixaram-se grandes orquídeas; bromeliáceas da altura de um homem são frequentes e muitas espécies de musgos e liquens balançam-se como translúcidos ninhos de pássaros, redondos como bolas no cimo dum arbusto seco ou pendurados nos galhos como caudas de cavalos ou cabeleiras. Aqui e ali veem-se também muito alto nas árvores, flores ou cachos de flores encarnadas, roxas ou amarelas, e nas margens do caminho ananases com suculentas frutas vermelhas. Nesses emaranhados não faltavam palmeiras esguias, ou touceiras daquelas pequenas palmeiras e daquelas grandes canas em forma de palmeira com espinhos enfileirados muito juntos uns dos outros em volta do tronco como anéis pretos, como não faltam também aquelas enormes coroas de palmeira com um tronco tão curto que parecem sair diretamente do solo ou do matagal. Muitas vezes as árvores, estendendo seus grandes galhos com as orquídeas que regularmente crescem nelas, parecem monstruosos candelabros. A variedade das plantas trepadeiras e as graciosas formas e contornos que dão às matas é muito atraente e peculiar. [...]". Adalberto, Príncipe da Prússia (1811-1873). Brasil: Amazonas-Xingu. 1977, p. 50.
 
 
 
Orquídea. Catleya vellutina.
Nativa do Brasil.
Orchid album , London, 1882
www.biodiversitylibrary.org


quarta-feira, 7 de maio de 2014

Belém do Grão-Pará: Ver-o-Peso.


Hoje, como dantes, após se valerem das condições favoráveis dos ventos e da maré, as embarcações chegadas às docas do Ver-o-Peso, recolhidas as velas, logo se apresentam para o trabalho complementar da atracação na vazante.
Decorrida assim, tal fase, segue-se logo o primeiro contato da freguesia com os vendedores. "Uns têm barcos próprios, outros trabalham para terceiros. O desembarque das mercadorias de grande volume, os gritos de estivadores improvisados, as boas qualidades da farinha proclamadas pelo seu dono, assumem caráter  excepcional para quem, como nós - escreveu José Leal - observa pela, pela primeira vez o espetáculo".
O peixe, o feijão, as frutas, a farinha, as galinhas e as tartarugas, os cachos de bacaba e de açaí, os cupuaçus, os cestos de tangerinas, bem como os jacazinhos de abios e os de bacuris, as cordas de caranguejos, as pencas de bananas, as verduras de toda sorte, tudo isso é desembarcado e colocado no chão, ou espalhado por sobre mesas toscas para o feito de ser vendido ao povo. [...].
Artigos de armarinho, artigos de venda, "locais" para refeições, plantas medicinais, folhetos em prosa e verso, tudo isso pode ser visto no mercado interno do Ver-o-Peso. Fora, a variedade continua: paneiros de arroz em casca, farinha, abacate, abacaxi, plantas ornamentais, flores diversas.
Dobra-se a esquina do mercado, seguindo o cais, nos seus ziguezagues, e nem por isso deixa a feira de continuar animada e pitoresca como sempre. Aqui, melado e rapadura; ali potes de barro, jarros, "quartinhas" ou moringas; panelas, alguidares, cabungos ou urinóis; acolá, cuias de Santarém, fumo cheiroso e mortalhas para cigarro. Ao cabo da caminhada, uma só conclusão se pode tirar: de tudo se vende e de tudo se compra no fabuloso mercado do VER-O-PESO. [...]". José Veríssimo (1857-1916). IBGE. Tipos e aspectos do Brasil. 1966, p. 51-52.
 
 
 
 
Ver-o-Peso em Belém do Pará.
Ilustração e Percy Lau.
IBGE. Tipos e aspectos do Brasil. 1966.

 


quinta-feira, 1 de maio de 2014

Viajantes: La Condamine na floresta!


"Os exploradores estavam sós. Ouviu-se um frouxo zumbir de insetos, um grito de tucano, um ruído abafado de árvore que baqueava e depois disso o silêncio. Fazia um frio de adega nas matas de Esmeraldas. Eriodendros esculturais os dominavam como titãs escorando arcobotantes. Nada se movia , a não ser as asas de um morpho gigantesco que esvoaçava na úmida obscuridade da floresta. Tão enlevado se sentiu La Condamine com a cena que momentâneamente se esqueceu que estavam sós, sem guias no coração da mata. [...]". Victor W. von Hagen. A América do Sul os chamava. s.d. p. 50.
 
 
 
 
Morpho.
Gottlieb Tobias Wilhelm, 1810.





Charles Marie La Condamine (1701-1774) - Cientista e explorador francês que realizou várias viagens, sendo uma delas à América do Sul onde desceu o curso do Rio Amazonas, publicando depois na Europa, suas impressões e descobertas sobre a geografia, fauna e flora da bacia amazônica.