quarta-feira, 30 de abril de 2014

Viajantes: As embarcações na Amazônia.



"Mais longe, vêem-se alguns ubás, ou longas pirogas indígenas, capazes de deslocar apenas 50 centímetros de água, com 10 a 15 metros de comprimento, que deslizam ao lado de montarias, espécie de canoas grosseiras características dessa região. Convém ainda acrescentar a essas embarcações de formas e dimensões tão variadas: as igarités, que são barcos de rio, cobertos na parte central por um só teto de folhas de palmeiras; a igaraçu, barca com duas coberturas; o bote, ou grande canoa; e o batelão, variedade de barcaça, que vemos misturados às vigilengas nas docas do porto do Ver-o-Peso e do Reduto. Paul Walle [1872-19?]. No Brasil do Rio São Francisco ao Amazonas. 2006, p. 299.
 
 
 
Doca do Ver-o-Peso em 1905.
O MUNICÌPIO de Belém, 1905.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

Viajantes: Arara-azul


"[...]. Depois de uma marcha terrível de mais de oito horas por péssimas picadas e através de savanas literalmente ardentes sob o sol quente da Guiana, chegamos ao misterioso lago e, embora derreados, não resistimos ao exame imediato desta maravilhosa bacia de água doce. [...]. Nunca encontrei lugar em que os animais mostrassem uma tão completa ausência de medo do homem, num verdadeiro estado paradisíaco como aqui, à beira deste desconhecido lago no meio da floresta, que é provavelmente o mais meridional de uma série de lagos semelhantes distribuídos na região inexplorada, entre as bocas dos rios Cunani e Cassiporé. As araras azuis pousavam a cada instante, em bandos de quatro a seis, nas majestosas palmeiras-miriti da margem oposta. Vimo-las chocando em buracos destes troncos altos, onde a ave desde longe é atraída por sua enorme cauda para a qual o buraco não oferece naturalmente espaço bastante. [...]. Emílio A. Goeldi (1859-1917). Resultados ornithologicos de uma viagem de naturalistas à costa da Guyana Meridional. Boletim do Museu Paraense de História Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), Belém, t. 3, fasc. 1-4, p. 223, 1900-1902.
 
 
 
Arara-azul ou Araraúna (Anodorhynchus hyacinthinus)
Ilustração de J. Th. Descourtilz. História natural das aves do Brasil. 1983.


terça-feira, 22 de abril de 2014

Viajantes: O açaí e seus cachos roxo-negros!


"A bacaba é um verdadeiro néctar da floresta, e o patauá, autêntico chocolate, nutritivo, cheio de calorias, é capaz também de refazer as forças perdidas dum moribundo. Entretanto, nenhuma dessas palmeiras disputa ao açaí (Euterpe oleracea Mart.) as primazias tonificantes. Ele vinga, encantado milagre de Ceres, em todas as barrancas, em todas as ribanceiras onde bata o sol; reponta em touças de hastes esguias e folhas em plumas glaucas. Não há beirada, sobretudo no golfo aberto debaixo do Equador, onde seus cachos roxo-negros não avultem para o vinho substancial e propiciatório. [...]". Raimundo Morais (1872-1941). Amphitheatro amazônico. 1936, p. 243.
 
 
Açaí (Euterpe oleracea)
Ilustração de Eron Teixeira


segunda-feira, 21 de abril de 2014

Viajantes: Cacaueiros


"Dos frutos da bacabeira extrai-se um suco oleoso, muito nutritivo e de agradável sabor adocicado. Mas a esguia Euterpe edulis sobrepuja aqui, com o açaí, todas as outras palmeiras. Ela é e será a benfeitora das tapuias nas suas pequenas malocas da floresta; nenhuma outra se poderá comparar a ela.
Mas isso não significa toda a riqueza das habitações índias na selva. Por toda parte viceja na floresta os espessos maciços de cacaueiros. De longe brilham as grandes cápsulas amarelas dos seus frutos. Contém, além dos conhecidos caroços, uma polpa acidulada, que com açúcar se conserva sólida ou sob forma gelatinosa. Os caroços só precisam ser limpos, trabalho que pode ser feito à sombra pelas crianças, e constitui uma espécie de ponto de reunião, para a qual os vizinhos e suas famílias se convidam reciprocamente. Alcançam com pouco trabalho um preço convidativo e proporcionam sempre bom lucro aos seus apanhadores. [...]". Robert Avé-Lallemant (1812-1884). No rio Amazonas (1859). 1980, p. 40-41.
 
 
 
Cacau (Theobroma cacao)
Ilustração de Eron Teixeira


terça-feira, 15 de abril de 2014

Lendas e Curiosidades: O Caburé


"[...]. Há uma lenda guarani que pinta o caburé como tirano, o que exerce fascínio inelutável sobre as demais aves.
Seu olhar, sobretudo é notável. Quando fixa seu íris amarelado e de reflexos metálicos, na vítima que escolhe, esta, paralisada de terror, nem se mexe.
Por vezes, insulado, como um misantropo, no escuro da copa de um arvoredo, lança um grito estridente.
Todo o passaredo próximo acode a este apelo inflexível, a que não podem fugir, e o bando de vítimas começa a voejar em derredor do monstro fascinador, à espera do sacrifício. [...]". Eurico Santos (1883-1968). Da ema ao beija-flor. 1952, p. 229.
 
 
Caburé (Glaucidium brasilianum).
 Desenho de Antônio Martins.
Brasil 500 pássaros. www.eln.gov.br


segunda-feira, 14 de abril de 2014

Viajantes: Flores da floresta



"Alguns meses após o meu retorno a São Paulo, percebi que o miolo das bromélias que encontrei com Maria atrás da residência em Salvador estava manchado de vermelho, um sinal bem claro de que estava florescendo. A cada dia a área vermelha crescia e a cor se tornava mais intensa. Em um momento, do meio da roseta, surgindo de dentro da piscina formada pela água, apareceu uma colônia de pequenas flores brancas, ligeiramente manchadas de rosa. Algumas semanas depois o broto também floresceu. O fruto era de um azul metálico brilhante. Posteriormente foi reconhecida como uma nova espécie, Neoregela margaretae. Durante os meses de chuva forte, aquelas florestas distantes ficariam sobrecarregadas destas joias vermelhas". Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica: a arte botânica de Margaret Mee. 2. ed. 2010, p. 49. 
 
 
Neoregelia margaretae
Ilustração de Margaret Mee (1909-1988)


domingo, 13 de abril de 2014

Viajantes: A solidão sombria da floresta


"[...]. É especialmente interessante quando a tempestade torna mais soturna as profundidades dos nichos e faz destacar, de chofre, a sua solidão sombria. A floresta é pobre em grandes animais; as espécies maiores são menos abundantes; como na África Equatorial, o inanimado não admite a presença do animado; devemos, portanto, procurar caça nos lugares em que os limites da floresta encontram os campos cultivados. Por outro lado, a mata é desagradavelmente rica em vidas menores. E assim como vemos formas vegetais que vão dos criptógamos árticos, aos musgos e líquens que se agarram aos rochedos, que são cobertos de bromélias tropicais e que as palmeiras sombreiam, assim também ouvimos o grasnar do gavião, o grito do gaio e o martelar de muitos pica-paus, combinados com o vozerio do papagaio e do periquito, e o badalar da cotinga, no alto das árvores. "Ubi aves ibi angeli", diziam os antigos, e gostamos dos bípedes plumosos, não por si mesmos, embora sejam amáveis "per se", mas porque a sua presença indica a do homem. Nem nos devemos esquecer, ao noticiarmos as "harmonias naturais" daqueles palácios de verdura, a música dos "sapos cantores" nos brejos, e os concertos de rãs, realizados na água e na grama, na terra e em cada árvore caída. [...]". Richard Burton (1821-1890). Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. 1976, p. 253.
 
 
Pica-paus na floresta
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)
Álbum de aves amazônicas. 1900-1906


quinta-feira, 10 de abril de 2014

Reflexões: Trabalhos de Amor Perdidos


Mas o amor, primeiro aprendido  em uns olhos de mulher,
Não vive sozinho fechado na cabeça,
Mas, com a agilidade de todos os elementos,
Corre com a rapidez de nossos pensamentos
E dá a cada faculdade dupla potência,
Acima de suas funções e seus ofícios.
Acrescenta preciosa visão aos olhos;
Os olhos de um amante veem mais longe que uma águia;
Os ouvidos de um amante ouvem o mais tênue som,
Que passa despercebido ao ladrão cauteloso:
O tato do amor é mais fino e sensível
Que as sensitivas antenas do caracol;
Ao paladar do amor desagradam os petiscos vulgares de Baco.
Pela coragem, não é amor um Hércules
Ainda galgando as árvores nas Hespérides?
Sutil como a Esfinge; doce e musical
Como o alaúde do brilhante Apolo,
Encordoado com seus cabelos;
E quando o Amor fala, a voz de todos os deuses
Deixa os céus estonteantes com a harmonia.
Nunca deve o poeta tocar uma pena para escrever
Até que sua tinta seja temperada pelos suspiros do Amor.
 
 
William Shakespeare (1564-1616)
Trabalhos de Amor Perdidos
 A Linguagem das Flores. 1989
 
 
 
Pintura de
Frederick Leighton (1830-1896)


terça-feira, 8 de abril de 2014

Viajantes: Anacã


"Descendo o rio na manhã seguinte, fiquei encantado com um bando de Deroptyus accipitrinus, o papagaio de coleira, chamado "Anacã" uma das formas mais esquisitas dos psitacídeos do Novo Mundo, lembrando o Kakatua australiano. Tudo é aberração nesta ave até o seu grito, que é um vigoroso kiá-kiá-kiá-güi-güi-güi, , diferente do de todos os outros papagaios neo-tropicais". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Resultados ornithologicos de uma viagem de naturalistas à costa da Guiana Meridional. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia (Museu Goeldi), t. 3, fasc. 1-4, p. 226, 1900-1902.
 
 
 
 
Anacã e Ararajuba.
 In: Gastão Cruls. Hiléia amazônica. 2003.
 Ilustração de Armando Pacheco. 1942.


domingo, 6 de abril de 2014

Viajantes: Jaçanã


"[...]. Ao lado de um certo trecho do caminho, onde não havia mais mangues, dada a predominância da água doce dos rios e riachos, existia um lugar ermo cheio de juncos; ali encontrei uma jaçanã [...], linda ave com penas cor de canela  e asas de um verde claro como a grama, pousada nas folhas que boiavam. Pela primeira vez, via essa curiosa ave, cujos dedos são mais compridos que as próprias pernas. Durante muito tempo, deixou-se contemplar, não é desconfiada; por fim, levantou voo, mostrando-se assim em sua mais radiante beleza. Logo que pousou no junco vizinho, levantou uma grande saracura, de cor verde-oliva, à procura de outro lugar para pouso. [...]". Dr.Hermann Burmeister (1807-1892). Viagem ao Brasil. 1952, p. 58.
 
 
 
 
 
Jaçanã (Jacana jacana)
Ilustração de Antônio Martins


quinta-feira, 3 de abril de 2014

Viajantes: As sementes escarlates do urucú.

[...]. Outras drogas obtidas comumente na floresta são agora produzidas na fazenda. Esta colunata sombria é constituída de árvores de andiroba e de suas grandes nozes triangulares, espalhadas pelo chão, obtém-se o óleo amargo usado para queimar e para fins medicinais. Esta árvore menor é o urucú que tem sido cultivado pelos índios desde tempos imemoriais; as sementes escarlates são usadas para pintar cabaças e outros pequenos artigos e são exportadas em quantidades consideráveis. [...]". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, N. ; OVERAL, W. L. (Orgs.) Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 2011, p. 151.
 
 
 
 
Urucu. (Bixa orellana)
Ilustração de Eron Teixeira