quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Viajantes: Laranjas



"Jantamos sentados em grande esteira, sobre a qual fora estendida toalha branca, muito limpa. A refeição constituiu de galinha com arroz (o prato comum desta região para as visitas) com sobremesa de "laranjas torradas", isto é, de laranjas parcialmente secas ao sol. O fruto, cultivado no pomar de Gaspar com cuidado um pouco maior do que é habitual nessa região, já era de boa qualidade, mas tratado desta forma tinha uma doçura e riqueza de sabor muito superiores a tudo o que eu até agora tinha provado. Quando íamos embora nosso hospedeiro, que ouvira meus louvores ao fruto mandou para a canoa de presente, grande cesto cheio". Henry Walter Bates (1825-1892) . O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 2, p. 289.
 
 
Laranja
Ilustração de J. Th. Descourtilz


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Reflexões: A casa do coração!



A casa do coração
 
 
Friedrich Rükert (1788-1866)
Tesouro da Juventude. v.5, 1963.
 
 
O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a Dor, noutro o Prazer.
 
Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu adormece a Dor.
 
Cuidado, Prazer, cautela!
Canta e ri mais devagar..
Não vá a Dor acordar...
 
 
 
Pintura de Claude Monet (1840-1926)
 

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Viajantes: Araras



"[...]. As esplêndidas araras e outras belas aves da mesma família adornam essas matas umbrosas formadas das mais variadas plantas. Um bando de vinte ou mais, tal como o que vimos iluminado pelos raios esplendentes do sol, pousado numa árvore de um verde reluzente, constitui, decerto, quadro magnífico, de que só podem fazer ideia os que o tenham contemplado. Trepam agilmente pelos cipós entrelaçados e expõem orgulhosamente aos raios do sol, em todas as faces os corpos terminados pelos rabos compridos. Eram então, vistas frequentemente na parte baixa, ou à meia altura, de uma trepadeira espinhosa, aí denominada "espinho", de cujo fruto, que a esse tempo amadurecia, gostavam muito, [...]". Maximilian zu Wied-Neuwied. Viagem ao Brasil. 1958. p. 241.
 
 
Arara. Edward Lear (1812–88)


sábado, 22 de fevereiro de 2014

Lendas e Curiosidades: Jaquiranambóia


A Jaquiranambóia é uma interessante criaturinha que em toda parte do nosso vasto território é conhecida através de um interminável rosário de superstições.
O vocábulo Jaquiranambóia, jiquirana bóia, jitirana bóia ou jiquitirana bóia, segundo os letrados indianólogos são corruptelas de iaquirana-bói, que quer dizer cigarra-cobra, talvez uma alusão a forma extravagante do esquisito prolongamento cefálico cheio de rajas de carregada cor.
É a Ñakirâ-mbói do Paraguai, que segundo Bertoni, significa cigarra-cobra como no Brasil.
O nosso lendário animalzinho, tão cercado de mistérios, é apenas um inocente homóptero, que na crença popular, é cego, seca a árvore onde pousa, fulmina o incauto que dele se aproxima e arrasta um inacabável cortejo de desgraças.
Mas em resumo o que é a jaquiranambóia, esse mito da imaginação popular, sempre fértil?
Responderemos será tudo isso, que dizem apenas não é cega, não seca a árvore onde pousa, não fulmina ninguém, nem é mensageira de nenhuma desgraça.
Cientificamente é um inócuo homóptero primo irmão das cigarras, essas descuidosas precursoras do verão, dedicadas as musas e que tantas vezes tem inspirado os poetas sonhadores e os românticos.
Se a nossa jaquiranabóia não é tão comum como as cantoras da estação calmosa é contudo bastante frequente nas nossas matas e mesmo nos jardins da cidade, pois já a capturamos no parque da Praça da República. [...].
Agora ouçamos a nunca esquecida naturalista Maria Sybila Merian (1647-1717):
Ela esteve durante algum tempo em Surinam e deixou preciosos documentos científicos sobre a flora e a fauna daquela  (antiga)possessão holandesa.
Conta-nos Merian, que um dia os seus indígenas levaram-lhe algumas jaquiranas, que foram encerradas cuidadosamente numa caixa.
Alta noite ouvindo um ruído estranho, que partia do improvisado viveiro, foi observá-lo e viu, com grande espanto, vários focos luminosos.
Maravilhada com tão surpreendente espetáculo não tardou em proclamar as fantásticas propriedades do singular inseto, que recebeu do glorioso Lineu a denominação científica altamente sugestiva de Laternaria phosphorea.
Maria Sybila Merian não teve a felicidade de ver publicado o seu monumental trabalho sobre os insetos de Surinam, publicado em 1726. Raymundo, Benedicto. Jiquirana-boia. Fauna, São Paulo, n. 5, p. 10, 1942.
 
 
Jaquiranambóia
Maria Sybila Merian  (1647-1717)
 Insetos do Suriname

 
 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Viajantes: O mês de julho na Amazônia!


"O mês de julho ia correndo muito farto. Abundavam o peixe, a caça, a fruta. A mudança do tempo surgira com a vazante, característico sinal do grande calendário amazônico. O descer das águas no aranhol hidrográfico vira a folha do almanaque e a estação adquire um cunho de primavera, maximé na pestana verde e ribeirinha dos rios. Aí, nessa quadra pitoresca e risonha, a hiléia matiza-se de flores. Gritam o vermelho e o amarelo na umbela das árvores. É uma festa da natureza presidida por alguma divindade silvestre. Os paus d´arco se cobrem de ouro e violeta. Os cipós enfeitam-se de corolas. As orquídeas explodem em ramalhetes, em buquês, em cachos de campainhas e cálices brancos, roxos, pintados, cróceos. O cheiro que se exala dessas caçoletas aéreas, entornando fragrâncias no éter, guarda a sutileza de essências de serralhos e de templos. Em certos recantos da selva, sobretudo na muralha de verdura das beiradas, a floração é tão alta  que evoca um jardim de gigantes, pois as catleias e os catasetuns desabrocham lá nos fusos superiores. Os litorâneos taxizeiros, abrindo as flores como as hortênsias, brancas, vermelhas, azuladas, ferruginosas, reforçam a beleza marginal da mata nesses meses em que a água baixa. A floresta volve-se, enfim, numa fonte de aromas numa sinfonia de perfumes, numa onda de essências." Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraunas. 1985, p. 148-149.
 
 
Catasetum saccatum (Orchidaceae).
Margaret Mee. In search of flowers of the Amazon Forests. 1989.


domingo, 16 de fevereiro de 2014

Reflexões: Os Beija-flores!



Os Beija-flores!
 
 
Como beijos escapados

Ao coração da floresta,
Voam por todos os lados
Os beija-flores em festa.
 
Numa algazarra ruidosa,
Leves asas adejando,
Ora um cravo, ora uma rosa,
Acariciam de brando.
 
Não fazem grande demora:
Em busca de outros afetos,
Na manhã clara e sonora,
Lá se vão irrequietos...
 
Sobem sorrindo as colinas,
Descem aos vales sem pouso,
Bicando as flores franzinas,
Que o mato ostenta garboso.
 
Na luz dourada suspensos,
Bailam por curtos instantes...
Depois por campos extensos
Partem, boêmios, inconstantes...
 
Partem, mas de quando em quando,
A encher o azul de fulgores,
Sobre carolas, ruflando,
Pairam: flores sobre flores...
 
Elóra Possólo Chaoul
Fauna, a. 2, n. 6, jun. 1943, p. 36
 
 

Colibri.
Martin Johnson Heade(1819-1904) - Tutt'Art@
 

 
 


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Viajantes: Mata virgem!


"Com a aproximação da noite, a mata começava a animar-se. Da crista do arvoredo mais alto, onde, aos raios do sol, sazonam frutos e se abrem as corolas perfumosas, desciam bandos de macacos e esfuziava a passarinhada em busca de seus ninhos. É que a natureza amazônica reproduz os jardins suspensos de Semíramis. A muitos metros do solo, as frondes portentosas tecem-se num vergel florido que atrai, durante o dia todos os habitantes da floresta. Assim, enquanto no recesso da mata tudo é silêncio e obscuridade, vai lá por cima uma agitação constante. São ramos que verga ao peso dos animais: araras e tucanos que tricolejam sementes duras; flores que se esfarfalham tocadas pelos beija-flores; gritos agudos, chilreados álacres; frêmitos de asas, ruge-ruge de penas... A noite, porém, traz a transmutação do cenário. Povoa-se o sobosque em detrimento do dossel de verdura. A bicharada baixa a seus esconderijos:  estalidam galhos, sombras esgueiram-se na meia luz do crepúsculo. As aves aconchegam-se entre a folhagem. Era o que eu observava agora, ouvindo ao longe o coro triste dos guaribas, concertando com as outras muitas vozes que me cercavam: pios flébeis, chilidos, assobios, e até o rechino de algumas cigarras e a coaxação dos primeiros sapos". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia misteriosa.  6. ed. 1953, p. 29. 
 
 
Mata virgem..
 Peyritsch, Johann Joseph. 1879.


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Viajantes: A ave Cigana.


"Nessas mesmas searas de aninga faz a sua morada predileta a "cigana" (Opisthocomus cristatus) ave singular com a forma do faisão: ali vivem, ali comem, em bandos de 20 a 50 e mais indivíduos, alimentando-se destas folhas um tanto cáusticas; ali se aninham e chocam, ali completam todo o ciclo da sua vida tranquila de camponês pacato". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha do Marajó. Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia, t. 3, n. 1-4, 1900-1902, p. 386.
 
 
 
Cigana (Opisthocomus cristattus), à esquerda.
 Desenho de Ernst Lhose (1873-1930)
 Àlbum de Aves amazônicas - 1900-1906


terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Viajantes: Palmeira Jacitara


"[...]. Há mesmo um gênero de palmeiras trepadeiras (Desmoncus), cujas espécies são conhecidas em língua tupi por jacitara. Apresentam elas hastes muito espinhosas, flexuosas, que se estendem de uma árvore a outra, pelo alto e alcançam um tamanho incrível. As folhas que têm a forma característica da família, surgem com longos intervalos em vez de formar a densa coroa apical, e são providas de certo número de longos espinhos recurvos apicais. Tais órgãos são excelentes auxiliares que permitem à jacitara agarrar-se em sua ascensão mas são muito incômodos para o viajante, pois às vezes pendem sobre a estrada e se prendem às roupas e ao chapéu, arrancando este último ou rasgando aquelas. [...]". Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no rio Amazonas. 1944, v. 1, p. 78-79.
 
 
 
Desmoncus sp.
C. Fr. von Martius. Historia Naturalis Palmarum (1823-1850). 


domingo, 2 de fevereiro de 2014

Reflexões: Não invejo de maneira alguma!


Não invejo de maneira alguma
O cativo sem a ira do nobre,
O pintarroxo nascido na gaiola,
Que jamais conheceu as florestas de verão.

Não invejo a fera que leva
Sua permissão dos campos dos tempos,
Desagrilhoada do sentido de crime,
A quem a consciência nunca perturba;

Nem o que pode ser considerado uma bênção,
O coração que jamais empenhou a palavra,
Mas fica paralisado nas malhas da preguiça,
Nem um descanso criado de propósito.

Considero verdade, aconteça o que acontecer,
Sinto-o, quando mais me entristeço,
Que é melhor ter amado e perdido
Do que nunca ter amado.
 
 
Alfred, Lord Tennyson (1809-1892)
Dr. Wayne W. Dyer. Muitos mestres...2003
 
 
 
 
Pintura de Edward Killingworth Johnson (1825-1896)
 
 


sábado, 1 de fevereiro de 2014

Viajantes: Anambés.


"[...]. Pouco depois, chegávamos num trecho ensolarado, onde as árvores eram substituídas por um tapete flutuante de ervas, salpicado de belíssimas plantas aquáticas, como os lírios-d´água, as pequenas utriculárias amarelas e as vistosas pontederiáceas, com suas flores de cor azul brilhante, suas curiosas folhas e seus grossos talos. Mas logo em seguida reentrávamos nos sombrios recessos de floresta, passando por entre os enormes troncos cilíndricos que se erguiam como colunas acima das águas profundas. Eis que - pluft! - uma fruta caía perto da canoa, indicando a presença de aves frugívoras por perto. Podia ser um bando de periquitos barulhentos, ou os anambés-azuis de brilhante plumagem ou os belíssimos anambés roxos, de asas delicadamente brancas e plumagem purpúrea. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 116.
 
 
 
Anambé-Pompadora.
Desenho de Antonio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.