segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Viajantes: Marianne North e A Casa Grande de Morro Velho.



"A Casa Grande de Morro Velho era mesmo uma ótima casa para uma artista se instalar, e logo, entrei numa regular e muito agradável rotina. Fiquei com o quarto mais alegre e arejado, vizinho ao dos meus amigos, com uma janela grande dando para a varanda iluminada, onde as pessoas iam e vinham continuamente, fazendo pausas para fofocar. Embaixo, ficava o jardim, cheio de flores das mais perfumadas: um grande pé de Magnolia grandiflora em plena florada cuja fragrância chegava até mim; à sua volta touceiras de rosas, cravos, gardênias (sempre em flor), bauínias de todos os matizes (a delícia dos beija-flores e das borboletas), heliotrópios do tamanho de uma árvore e cobertos de flores aromáticas, além de grandes moitas de poinsétia com estrelas escarlates medindo um pé de diâmetro; atrás delas havia bananeiras, palmeiras e outras plantas, sendo as encostas cobertas de matas por onde vislumbravam-se as antigas fábricas e o riacho descendo pelo vale". Marianne North (1830-1890). Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, J. A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Rio de Janeiro: Sextante, 2012. p. 172.
 
 
Bananeiras, laranjeiras, palmeira e touceira de bico-de-papagaio num jardim em Morro Velho.
Pintura de Marianne North


domingo, 29 de dezembro de 2013

Viajantes: Os Castanhais e sua disseminação.


"[...]. O primeiro lugar entre as árvores disseminadas pelos roedores cabe a Bertholletia, cujas sementes acham os seus maiores distribuidores e ao mesmo tempo os seus melhores propagadores nas cutias. Nos castanhais que não são explorados é raro achar-se, entre as centenas de ouriços que cobrem o solo da mata, um único que não esteja aberto pelos dentes aguçados destes roedores, e completamente esvaziado. Mas as cutias não têm sempre o tempo de regalar-se tranquilamente com as saborosas castanhas; é o seu costume levar uma parte das sementes até uma certa distância, para enterrá-las, como reserva para o futuro. Assim pode acontecer facilmente que uma ou outra destas sementes seja esquecida e consiga grelar num lugar próprio para seu ulterior desenvolvimento. [...]". Jacques Huber (1867-1914). Mattas e madeiras amazônicas. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, Belém, v. 6, n. 1-4, 1909-1910. p. 154-155.
 
 
 
Castanhais (Bertholletia sp.)
Desenho de Percy Lau (1903-1972)




Cutia (Dasyprocta sp.)
Ilustração de Eron Teixeira


sábado, 28 de dezembro de 2013

Viajantes: Observando as aves.

 
"O socó comum, encontrado geralmente aos pares nas lagoas das proximidades, e não em bandos como acontece com o da mata - é tão manso quanto a garça noturna e outros pequenos pernaltas. Durante o voo o maguari e alguns outros pernaltas esticam o pescoço em linha reta. O jaburu, que tem um belo voo, procede de igual maneira, porém, fazendo uma leve curva por causa do papo. As grandes e esbeltas garças, ao contrário, inclinam o longo pescoço para trás numa belíssima curva, de maneira que a cabeça fica bem próxima das espáduas.
Certo dia deparei um pássaro, planando no ar, sobre a água de uma lagoa e em seguida mergulhou em busca de um cardume de piabas. A princípio julguei que se tratava de um pequeno martim-pescador de peito amarelo, mas, verifiquei depois que era um bem-te-vi. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1943, p. 62-63.
 
 
 
Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)
Ilustração de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.

 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Reflexões: Equilíbrio



De vez em quando afaste-se,
relaxe um pouco,
porque quando você voltar
ao seu trabalho
seu julgamento será mais seguro;
já que continuar sempre no trabalho fará com que você perca a capacidade
de julgar...
 
Distancie-se um pouco
porque o trabalho parece menor
e mais pode ser abarcado num vislumbre,
e uma falta de harmonia
ou proporção
pode ser vista com mais facilidade.
 
Leonardo da Vinci (1452-1519)
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária. 2003.
 
 
 
 
 
Pintura de Sherree Valentine Daines - 1956
Tutt'Art@
 



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Viajantes: Barra do Rio Negro

 
"Acima de Itacoatiara cai a margem esquerda em altas barrancas de barro e de areia, e depois, em rochedos abruptos. Passamos a boca do enorme rio Madeira, que fica escondido atrás das ilhas, e ao meio dia primeiro de junho entramos no rio Negro, cujas águas pretas, bruscamente se destacam das águas pardo-amarelentas do Amazonas, e longe, rio abaixo, indicam a proximidade do poderoso tributário, ostentando manchas escuras. Paramos lançando âncora, diante da antiga "Barra do Rio Negro", que hoje é Manaus". Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas - viagens no noroeste do Brasil (1903/1905), 2005, p. 27.
 
 
 
Manaus, 1865.
 Jacques Burkhart,Aquarela


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Viajantes: Borboleta na floresta.


"[...]. Mil coisas nessas matas atraem a vista e nos distraem daquilo que procuramos. Quantas vezes paramos para admirar um tronco por si só constituindo um mundo vegetal! A cada modo, a cada encontro dos ramos, as parasitas se agarram; as lianas pendem dos galhos altos até o chão; os cipós enleiam o tronco, tão estreitamente unidos uns aos outros que se diriam as caneleiras duma coluna. E quantas vezes ficamos imóveis, à escuta, para distinguir o sussurro do vento nas folhas das palmeiras, a uns cinquenta pés acima de nossas cabeças; não é ruído lento e surdo de vento nos galhos dos pinheiros das nossas florestas; mais parece o som claro duma água corrente. Através da estreita trilha, uma enorme borboleta, dessa cor azul vivo que se admira nas coleções de insetos do Brasil, flutua serenamente no ar diante de nós; ei-la pousada quase ao nosso alcance, dobrando os seus esplendores azulados e parecendo, calma e imóvel, uma simples flor castanho-escuro salpicada de branco! Luís Agassiz (1807-1873) & Elisabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil 1865-1866. 2000, p. 302-303.
 

 
 
Trepadeiras com borboletas
Ilustração de Marianne North (1830-1890).
www.kew.org
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Reflexões: Inspiração.



Quando você está inspirado por algum grande
objetivo, algum projeto extraordinário,
todos os seus pensamentos libertam-se de seus grilhões;
Sua mente transcende as limitações,
sua consciência expande-se em todas as direções,
e você se descobre em um mundo novo,
notável, maravilhoso.
Forças, faculdades e talentos adormecidos
tornam-se vivos e você descobre
que é uma pessoa muito mais fantástica
do que alguma vez sonhou.
 
Patanjali
(Aproximadamente do século I ao século III A.C.).
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária.2003.
 
 
 
Pintura de
Elisabeth Louise Vigée-Le Brun (1755-1842).


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Viajantes: Orquídeas e Bromélias.


"[...]. Nesse arrabalde, vi muitas coisas curiosas. Um dia, seis macacos de rabo comprido e bigodes cinzentos estavam conversando trepados numa árvore, e deixaram que eu me aproximasse até embaixo para assistir às suas brincadeiras por meio de meu binóculo de ópera. Os galhos em que se achavam valiam também a pena serem observados, tamanha era a profusão de trepadeiras, bromélias e outras plantas silvestres, como orquídeas e samambaias, que carregavam. Essas bromélias tinham, com frequência, as mais belas florescências escarlates ou púrpura. Marianne North (1830-1890). Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North. 1872-1873. 2012, p. 160.
 
 
Grupo de epífitas, orquídeas e bromélias no Brasil.
Ilustração de Marianne North.  www.kew.org


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Viajantes: Helicônia.



"Durante as chuvas, essa região fica provavelmente submersa, já que o rio sobe, no mínimo, três metros. Podemos perceber claramente isso pelas pedras, com formato de cúpula fincadas como esculturas, que possuem a cor negra abaixo da linha da água e branca acima. Andando em terra firme, o caminho parecia um labirinto de redes cortado por um canal de lama preta. As árvores eram altas, formando uma cúpula negra acima de nós. Em algumas partes da floresta havia pouca, ou até mesmo nenhuma, vegetação rasteira. Onde existia, a maior parte era composta por marantas, helicônias e aroides. As árvores variavam consideravelmente desde finas e esguias até troncos maciços sustentados por raízes reforçadas. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 24.
 
 
 
Heliconia chartacea var. meeana.
 Ilustração de Margaret Mee. Amazonas, Rio Uapés.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Viajantes: Taperebá.


"[...]. Me parece provável que o taperebá, bem que indígena na foz do Amazonas, primitivamente não era uma árvore muito comum, restrita a certas áreas, mas que os seus frutos, procurados desde tempos remotos pelos índios que os empregavam para fazer uma bebida refrigerante, foram largamente disseminados ao redor dos pontos habitados, onde esta árvore, antes de tudo amiga da luz, achava condições favoráveis para o crescimento. Como tantas outras árvores frutíferas, o taperebá apenas merece entre nós o nome de árvore cultivada ou domesticada. Uma vez presente no perímetro de uma povoação ela se torna logo subespontânea, e dificilmente se extermina tendo a vida muito dura e podendo grelar não só de troncos caídos no chão, mas também das raízes mestras deixadas na terra depois de derrubada a árvore". Jacques Huber (1867-1914). Notas sobre a pátria e distribuição geographica das árvores frutíferas do Pará. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, t. 4, n. 1-4, 1906, p. 386-387.
 
 
 
J. Barbosa Rodrigues explica em Frutos e Sementes: cadernos de anotações porque o jabuti não fica  embaixo de um taperebazeiro. Bem interessante, leiam! 
 
 


domingo, 8 de dezembro de 2013

Viajantes: Beija-flores.




"Apenas alguns passos fora da varanda do rancho eis-nos em pleno campo aberto, em chão de areia movediça, ao pé de duas árvores que a continuidade do vento torceu e inclinou. Uma é um cajueiro de flores vermelhas e outra uma morcegueira (Andira) revestida de corimbos roxos. Murmura-nos aos ouvidos o zumbir de uma nuvem de insetos, e uma boa dúzia de beija-flores rutilantes ajuda a animar o quadro, ora voando de um lado para outro, rápidos como flechas, ora pairando por momentos ante os cachos floridos. [...]". Emílio A. Goeldi. Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia. v. 3, n. 1-4, 1900-1902. p. 382.
 
 
 
Beija-Flor. Campylopterus obscurus.
 John Gould. A Monograph of the Trocilidae or Humming Birds. 1855-1861.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Viajantes: A solidão profunda e acentuada na floresta.


"Bem lá no alto, acima das águas translúcidas do rio, as grandes árvores da floresta dos dois lados misturam seu delicado traçado de galho e folhagem em longas alamedas de sombra suave, aqui em massas de verdura escura, ali em manchas de esmeralda claro, ou com aberturas para o céu azul que enviam feixes de raios brilhantes de sol sobre as águas sombreadas e murmurantes, como chapas de ouro e prata reluzentes. Grandes cipós e trepadeiras pendem dos galhos, alguns como cabos de navio em linhas retas, a balançar suavemente com os sopros de ar que passam, outros em grandes festões, alguns nus como uma corda, outros cobertos de folhas, flores e parasitas. Palmeiras, samambaias e bambus projetam sua folhagem emplumada a partir dos altos das margens e formam os lados desta colunata de floresta. O solo vermelho das margens altas é atapetado de massas de convolvuláceas rasteiras, maracujás, e diversas variedades de samambaias e arões. A solidão é  profunda e acentuada, imperturbada pelo murmulho da água sobre seu leito pedregoso, pelo pulo de um peixe, ou pelo voo célere de um martim-pescador verde-bronze, parecendo, ao atravessar um feixe de sol, brilhar como uma esmeralda. James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v.1, p. 257.
 
 
 
Floresta brasileira.
C. Fr. von Martius (1794-1868).
Historia naturalis palmarum. 1823-1850.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Viajantes: Flores Brasileiras



"[...]. A vegetação continua sempre encantadora. Aliás, percebe-se facilmente como é estreita a faixa de vegetação que acompanha o rio. As regiões inundáveis são aqui mais frequentes e em maior extensão do que no rio São Lourenço. O capim aparece no fundo da água, quase tudo é pântano, embora os altos colmos das árvores nos deem a falsa aparência de bonita campina. A mata ergue-se por toda a parte, diretamente da água. Os eternos aspectos dessa vegetação inesgotável em formas decorativas e variadas embriagam-nos simplesmente. Apenas, passam depressa demais. Tudo é verde, mas que gradações! Desde a tenra e delicada trepadeira a brilhar sob a luz do sol, até a folhagem verde azulada de algumas árvores, enquanto em outras aparece uma tonalidade parda ou acinzentada em inúmeras variações. De vez em quando - flores - são campainhas roxas e flores amarelas de efeito encantador, como discreto ramo primaveril aos pés de uma tapeçaria escura e luxuriante. [...]". Karl von den Steinen (1855-1929). O Brasil Central. 1942, p. 56-57.
 
 
 
 
Flores silvestres do Brasil.
Marianne North (1830-1890). kew.org