terça-feira, 29 de outubro de 2013

Viajantes: Botos no Araguaia.



"Aparecem ao redor da canoa os primeiros botos, resfolegando ruidosamente e expelindo a água pelo focinho, em altos jatos. Como o peixe-boi, a baleia e a doninha, o boto é um cetáceo, animal aquático de sangue quente, possuindo pulmões ao invés de brânquias, de maneira que tem necessidade do ar atmosférico para respirar de espaço a espaço. [...].
Comum na Amazônia, nos mais remotos recantos deste sistema fluvial constata-se a sua presença.
Os caboclos tratam-no como animal sagrado e ninguém o mata, porque a lenda lhe atribui a virtude de proteger os náufragos aos quais empurra com a cabeça para as margens dos rios. Persegue desapiedadamente os peixes com exceção somente dos de elevado porte, e demonstra habilidade extraordinária quando os encurrala nos remansos onde consegue pródigas caçadas. Creio que o privilégio do boto termina unicamente nas garras da onça, que às vezes vence a sua astúcia, pegando-o nos lugares rasos. [...]". Hermano Ribeiro da Silva. Nos sertões do Araguaia. 1935, p. 50.
 
 
 

Uiara-Tucuxi.
Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815)
. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. (1783-1792).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Viajantes: Garças.



"Através das rajadas da chuva que caía, mal podíamos ver a estrada. Cessado o aguaceiro depois de termos andado uma meia légua, o sol se mostrou por entre nuvens de chumbo. Súbito, banhado pelos raios de luz, apareceu um bando de lindas garças, que, com forte e gracioso bater de asas, apressaram o voo - a plumagem branca reverberando ao sol - e cruzaram o espaço, desaparecendo além, na linha brumosa do horizonte". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 2010, p. 123.
 
Garças.
Álbum das aves amazônicas. Desenho de Ernst Lohse. 1900-1906.
 


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Viajantes: Orquídea e Colibris.



"A Hiléia amazônica, com as suas ótimas condições de calor e umidade, é um excelente viveiro para as mais belas orquídeas. Apenas, ao contrário do que se pensa, não será nas suas grandes matas fechadas e sombrias, que as iremos encontrar com maior frequência. Tratando-se de plantas relativamente heliófilas, só nos galhos das mais altas árvores estarão bem expostas à luz que lhes convém. E aí, se quase as não veremos, mais difícil ainda será colhê-las. Ricos de orquídeas serão os igapós, certas campinas e o arredor das cachoeiras e nascentes. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955, p. 64.
 

 
 

 
Martim Johnson Head (1819-1904). Cattleya Orchid.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Viajantes: Jacarés.


 
"Já a partir dos primeiros estirões do curso inferior do Parauapebas, começamos a familiarizar-nos com o que daí em diante passa a constituir a característica deste rio: poços profundos entre os "secos" ou entre as cachoeiras, margens recobertas por castanheiros, e, nas águas imóveis e escuras, jacarés em profusão, cruzando o rio para cima e para baixo. Esses crocodilos de 3 metros ou mais de comprimento, tão familiarizados conosco como seria de se esperar de sáurios que jamais avistaram um ser humano, não deixam de nos inspirar uma certa prudência.[...]. E assim é que, em determinados momentos, prosseguimos escoltados por um verdadeiro batalhão de batedores que de bom grado, dispensaríamos". Henri Coudreau (1855-1899). Viagem a Itaboca e ao Itacaiunas. 1980, p. 63.
 
 



Jacarés.
 J. Creveaux. Voyages dans L´Amérique du Sud. 1883. Desenho de E. Riou.
 
 
 
 


domingo, 20 de outubro de 2013

Reflexões: Passe esse dia matando o tempo.



Passe esse dia matando o tempo - será a mesma história
Amanhã - e adiará mais a seguinte;
Cada indecisão traz seus próprios atrasos,
E dias são perdidos em lamentações pelos dias perdidos.
Você está falando sério? Aproveite este minuto -
A audácia envolve gênio poder e magia.
Dê o primeiro passo, e a mente se animará -
Comece, e o trabalho estará concluído!
 
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária. 2003.
 
 
Pintura de Miklós Barabás (1810-1898).
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Belém do Grão-Pará: Av. 16 de novembro em 1906 - Belém-Pará.



A Av. 16 de novembro que tem esse nome por causa da Adesão do Pará à República, era anteriormente denominada Estrada de São José, por ser o caminho que conduzia ao Convento de São José, construído no século XVII  pelos  Capuchos da Piedade. Ernesto Cruz. Ruas de Belém. 1970.
 
 
 
 
Praça São José  à entrada da Avenida 16 de Novembro em 1906.
O Município de Belém. 1906.
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Viajantes: Palmeiras.


"E mal se penetra o arquipélago, seja pelo norte de Marajó, conhecido por Ilhas de Fora, seja pelo sul, conhecido por Ilhas de Dentro, as palmeiras, numa orgia floral, reproduzem-se em mil formas, em mil tamanhos, em mil nuanças. De surpreendentes e altas cabeleiras, ora desgrenhadas como espanadores, ora ameaçadoras como cabeças de Medusa, ora harmoniosas como repuxos de verdura, elas minguam, reduzem-se aos tipos arbustivos, tufos rasteiros de palmas e plumas sob os quais zunem os grilos e chiam as cigarras". Raimundo Morais. Paiz das pedras verdes. 1930, p. 99.
 
 
 
 
Oenocarpus batua 
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palmarum brasiliensium :ou Relation des palmiers nouveax du Brésil, découverts, décrits et dessinés d'après nature, 1903. 

 
 
 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Viajantes: Fabricação de canoas.



"[...]. O dia seguinte os homens foram à mata a procura de árvores para a fabricação de canoas de casca. Usam para este fim da casca de uma leguminosa alta, que separam do tronco numa única peça e com o máximo cuidado para não quebrá-la no processo de descascar. A casca depois é estendida no chão e queimada durante alguns minutos em dois lugares perto das extremidades com achas de lenha em brasa. Nas linhas queimadas dobra-se a casca e depois ligam-se as extremidades com cipós, ficando assim uma espécie de caixa chata, retangular, segura nos lados por varas amarradas com cipós e no fundo por travessas. Pode-se imaginar que o movimento de tais embarcações maciças não é rápido, mas ao menos o perigo de soçobrar é mínimo para elas. Outra vantagem é que a sua fabricação custa pouco tempo. As nossas estavam prontas já na tarde do segundo dia e às 4 horas do dia 7 de setembro pudemos continuar a viagem. [...]". Emília Snethlage (1868-1929). A travessia entre o Xingu e o Tapajós. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, . v. 7, p. 81, 1912.
 
 
A construção da ubá.
J. Creveaux.Voyages dans L´Amérique du Sud. 1883.
Desenho de E. Riou .


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Viajantes: Carará.



"Os estúpidos cararás apareciam agora mais frequentemente; era o sinal, de que o tempo da seca já estava terminando. Este mergulhão é a mais sonolenta das aves da selva tropical. Logo que termina a sua rica refeição, que consiste exclusivamente de peixes, ele se assenta no mais alto galho de uma árvore ribeirinha e, com o pescoço encolhido, reassume seu mal interrompido sono. Se ele for espantado de repente, ele deixa-se cair na água e mergulha. Graças a formação característica de seu bico, ele pode ficar até uns 10 minutos debaixo d´água e nadar para frente e assim escapa frequentemente do seu perseguidor". Theodor Koch-Grunberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens ao noroeste do Brasil. 2005, p. 249.
 
 
 
 

Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
 Álbum de aves amazônicas. Desenho de Ernst Lhose (1873-1867).
 

 


domingo, 13 de outubro de 2013

Reflexões: Primeiras emoções de amor.



Oh, fosse o meu amor mais belo que o lilás,
Com as flores purpúreas saudando a primavera,
E eu um pássaro a nelas me abrigar,
Quando as fracas asas cansadas eu tivera;
Como eu choraria quando elas se vergassem
Nas mãos do fero outono e do inverno impiedoso!
Mas eu cantaria num vôo caprichoso
Quando o sol de maio lhes renovasse o viço.
 
Robert Burns (1759-1796)
A linguagem das flores, 1989.
 
 
Pintura de James Tissot (1836-1902).
A linguagem das flores, 1989.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Viajantes: Tucano e Biguatinga.



"Encontramos muitos pássaros esquisitos pela redondeza, inclusive alguns tucanos. Nunca vi nenhum outro de atitudes tão jocosas e grotescas como o tucano.
Nesse dia deparei-me com  um pousado na copa de certa árvore, com o seu vasto bico apontando para a frente e mantendo ao mesmo tempo a cauda em posição perpendicular. O tucano é por natureza, grotesco...
 
 
Tucano (Ramphastos cuvieri, Wagl.
John Gould (1804-1881). A monograph of The Ramphastidae or family of toucans.  1992.
 
 


Vimos também nos rios e nas lagoas o biguatinga, uma ave com pés de mergulhão e bico e cauda semelhante aos do socó, porém, como é hábito de muitas aves sul-americanas não faz vida em comum com as outras espécies. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1943, p. 102.
 
 
 
Biguatinga.
Desenho de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.
 
 




terça-feira, 8 de outubro de 2013

Lendas e Curiosidades: Furo Aturiá e a volta da Vira-Saia. Estado do Pará - Brasil


"[...]. E outro distintivo curioso, de fundo sociológico, ilustra o espírito regional cheio de visões fantásticas de crédulas narrativas de duendes, que se avivam e se estimulam no ermo terrível daquelas paragens misteriosamente recobertas da selva mais densa e pujante do vale. A natureza, ali, em tudo contribui para a crendice.
É no furo Aturiá, um dos mais soturnos e solitários do complicado labirinto. Há uma volta chamada Vira-Saia onde a gente local costuma dedicar as divindades autóctones todo o sortimento de roupas e trapos jogados na vegetação ribeirinha. A estranha oferenda secular tem sua história contada através de gerações: uma canoa subia o furo nos primitivos tempos da conquista, e ao dobrar a volta da Vira-Saia surgiu pela proa, em ronda sinistra, centenas de botos, fungando e ameaçando a pequena embarcação, que ficou paralisada, sem poder prosseguir a derrota ou retroceder. Um coro de vozes se fez ouvir, entoado por jovens desnudas e provocantes que afloravam das águas. As lindas iaras pediam roupas para cobrir a sua nudez, e tão logo as peças eram jogadas pelos caboclos atemorizados as estonteantes visões desapareceram e a canoa pode continuar a viagem". Leandro Tocantins (1928-2004). O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. 1961, p. 32.
 
 
 
 
Iara
 Gastão de Bettencourt. A Amazônia no fabulário e na arte. 1946.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Viajantes: Tocandira


Segundo Ariosto Espinheira em Viagem através do Brasil v. 1, Norte, "a tocandira é uma enorme formiga amazônica, cuja picada produz efeitos terríveis. Pela sua cor, confunde-se com os galhos e folhas caídas. Quem for picado por ela sofre dores cruéis, como se fosse atingido por uma aranha peçonhenta.
Em muitas tribos, os jovens índios, que queriam ser considerados guerreiros, eram experimentados, numa prova de resistência física pelas picadas da tocandira.
Os seringueiros acreditam que, ao morrer a tocandira dá origem ao chamado cipó-imbé, muito usado na construção de casas, pontes e cercas. O que parece certo é que a formiga leva para o formigueiro sementes desse cipó. As sementes germinam nos locais onde encontram formigueiros".
 
Em seguida o relato do botânico inglês Richard Spruce sobre sua experiência com a formiga tocandira:
 
"Ontem tive pela primeira vez o prazer de experimentar a ferroada de um grande formiga preta que, na língua geral, é chamada de tocandira. [...]. Depois do desjejum, fui herborizar numa capoeira a norte de San Carlos, onde havia muitos tocos e troncos caídos. Abaixei-me junto a um toco para colher musgos do gênero Fissidens, mal notando que, ao retirar as plantas, tinha deixado exposto um buraco na madeira podre. Aí, quando me levantei e fui colocar o musgo dentro do meu embornal, não reparei que uma fieira de tocandiras enfezadas emergia o tal buraco. Não demorou um segundo, e eu já tinha recebido uma violenta ferroada na coxa, tão forte que imaginei tratar-se de picada de cobra. Ergui-me num salto, e então pude ver meus pés e pernas estavam sendo tomados por aquelas terríveis formigas! A única saída era fugir em disparada, e foi o que fiz, tentando me esfregar contra todos os ramos e galhos pelo caminho, até finalmente me ver livre das tocandiras, mas não antes de se impiedosamente ferroado por elas em torno dos pés, pois eu estava com o calcanhar desprotegido, calçando apenas chinelos, e mesmo estes acabei perdendo durante a fuga...
Eu me encontrava então a pouco mais de cinco minutos de minha casa, pois já estava voltando quando ocorreu o desastre. Bem que eu queria caminhar rapidamente, mas não consegui. A dor era lancinante! Fiz das tripas coração para não me arrojar sobre o solo e rolar, como já havia visto os índios fazendo quando ferroados por essa formiga.
Em meu caminho, eu tinha de atravessar uma faixa de areia escaldante e depois uma lagoa parcialmente seca, na qual a água não chegava a mais que 2 pés [61cm] de profundidade. Imaginei que o contato com a água fosse aliviar a dor.
Quando por fim cheguei a casa imediatamente recorri ao amoníaco. A única pessoa que encontrei por perto foi a minha cozinheira índia, que, por sua conta e risco, me aplicou um torniquete bem forte acima dos tornozelos, esfregando depois o amoníaco nas picadas. Como a dor não aplacasse, pedi-lhe que esfregasse uma mistura de óleo e amoníaco, providência que também pareceu não surtir efeito algum, a não ser quando o óleo começou a esquentar. mesmo assim, o alívio produzido foi bem pequeno. O curioso foi que aos poucos se reduziu a dor dos ferimentos menos esfregados, e um deles que sequer tinha sido tocado foi o primeiro a parar de doer completamente!
Deviam ser umas duas horas da tarde quando fui atacado pelas formigas, e só comecei a sentir algum alívio cerca de três horas depois. Durante todo esse tempo, meu sofrimento foi indescritível, algo assim como o que teria sido provocado por cem mil queimaduras de urtiga... meus pés, e às vezes até mesmo minhas mãos, tremiam como se eu sofresse de paralisia. Em determinados momentos, a dor recrudescia tanto, que meu rosto ficava empapado de suor. [...].
Depois que a dor se tornou suportável, ela voltou a ficar aguda em duas ocasiões: ás 9 da noite e à meia-noite, quando deixei a rede e pisei no chão com o pé esquerdo, o que me provocou uma hora seguida de sofrimento atroz. Ao se aproximar a manhã, adormeci, e quando acordei não senti outro desconforto que não fosse uma ligeira dormência nos pés, mas o inchaço se manteve ainda durante umas trinta horas. [...]". Richard Spruce. Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 258-259.
 
Richard Spruce
(1817-1893)
 
 
 
Para saber mais sobre a formiga Tocandira leia: Amazônia Exótica: curiosidades da floresta.
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 
 
 
 
 
 
 


 
 


domingo, 6 de outubro de 2013

Reflexões: Tempo



Tempo
 
 

Às vezes parece que faz um século,
Às vezes parece que faz um minuto.
 
Eu devo andar tão perdido no tempo
Que o meu rosto no espelho olhou-me esta manhã
 
E em vez de perguntar: "Onde é que você está"?
Resolveu perguntar: "Quando é que você está?"
Guilherme de Almeida
(1890-1969)
 
 
 
Pintura de Charles Courtney. Tutt´Árt @


quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Belém do Grão-Pará: Colégio Gentil Bittencourt em 1906.


Em 26 de junho de 1906 é inaugurado em Belém, na Avenida Independência (atual Av. Magalhães Barata), o Instituto Gentil Bittencourt (atualmente denominado Colégio Gentil Bittencourt), majestoso estabelecimento estadual para educação feminina.
 
 
Instituto Gentil Bittencourt em 1906.
Fotografia em O MUNICÍPIO de Belém, 1906.
 
 
 
 
 
 
 
 
Quem foi Gentil Bittencourt?
 
Gentil Augusto de Morais Bittencourt nasceu em Cametá, no distrito de Carapajó, em 22 de setembro de 1874 e faleceu em Belém no dia 30 de março de 1942.
Foi um dos fundadores do Clube Republicano em pleno regime monárquico. Foi eleito vice-governador do Estado do Pará em 7 de fevereiro de 1891, assumindo o Governo, em substituição ao Dr. Justo Chermont, que se afastou do Pará para exercer as funções do Ministro das Relações Exteriores. Ocupou também interinamente a Prefeitura (Intendência de Belém nos anos de 1921 a 1923.
Sua carreira de magistrado iniciou ao ser nomeado Promotor Público da Comarca da Vigia em 1874; em  1880 assumiu a Promotoria da Capital, sendo nomeado Juiz de Direito de casamentos em 1890. No ano seguinte em 20 de junho foi nomeado desembargador.
Aposentou-se em 1906 transferindo-se para o Rio de Janeiro, só retornando a Belém anos depois. (Carlos Rocque. Grande Enciclopédia da Amazônia. 1967).

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Viajantes: Tempestade no Furo de Breves.


 
 
"[...]. No meio da noite fui acordado por um inesperado sacudir da minha rede. Pus-me de pé imediatamente, mas mal toquei o chão ele pareceu escorregar debaixo de mim; cambaleando como um bêbado caí sobre uma camada de sementes de cacau. A pilha de sacos havia caído sem que eu tivesse percebido e alguns haviam despejado o seu conteúdo pelo chão. Por um momento pensei estar sonhando, mas uma dor forte no braço direito deu-me a certeza de que estava acordado. Enquanto rastejava rumo à porta escutei um ruído confuso de vozes, ao mesmo tempo que a cobertura da cabine rangia debaixo de passos apressados. Para aumentar o terror do momento, a chalupa rodopiava de estibordo a bombordo, e a proporção que o movimento me atirava contra os sacos de cacau, eles rolavam sobre mim tentando esmagar-me contra a parede. Eu me sentia na constrangedora situação de um rato sendo golpeado e atirado de um lado para o outro rumo a uma ratoeira. [...].
Estávamos no meio de uma assustadora tempestade. A norte, a leste e a sul os céus descerravam visões fantásticas pela sucessão rápida de raios e relâmpagos. Parecia que uma dúzia de vulcões flamejavam ao mesmo tempo. Nem os relâmpagos crepitantes da Patagônia, nem as luzes ofuscantes de uma tempestade nos Andes comparavam-se em brilho aos losangos de fogo que se cruzavam ao nosso redor. Um vento implacável sacudia as árvores nas duas margens do rio. A água do canal, tão calma ao pôr do sol, estava agora selvagemente agitada e parecia leite fervente. A chalupa, de velas amainadas, voava mais do que navegava sobre a água espumante, com seus mastros esqueléticos e o seu cordame erguendo-se negro contra o céu brilhante como uma fornalha, parecia um daqueles veleiros fantasmas que cruzam com a rapidez de uma flecha os mares brumosos de histórias legendárias. Os tapuias, agarrados ao abrigo da chalupa, pareciam ter perdido a cabeça. Só o piloto mantinha o sangue frio; segurando firmemente o leme com as duas mãos, ele obrigava a chalupa a seguir a direção do canal que os clarões mantinham visível.
Essa corrida desordenada e furiosa no meio da noite negra, com os elementos da natureza em luta desenfreada, tinha uma grandeza e uma poesia que excitavam as minhas faculdades  e me deixavam indiferente aos perigos. Sentado na escotilha para desfrutar à vontade do espetáculo que o acaso me fazia presenciar,  eu admirava com sincero entusiasmo o alternar-se da escuridão mais completa e a luz intensa em breve intervalos. [...].
Se o piloto e seus homens esqueceram rapidamente a noite pavorosa que havíamos passado no Estreito de Breves, para mim foi diferente. A confiança que eu depositara nas suas águas calmas - confiança que eles haviam tão indignamente desafiado - justificou minha irritação para com eles. Desde então eu não só perdi a fé na infalibilidade dos provérbios, em que até então acreditava, como cheguei a duvidar de todas as aparências. Havia aprendido às minhas custas que a água é o elemento que mais deve ser temido".
Paul Marcoy (1815-1888). Viagem pelo Rio Amazonas. 2001, p. 256-259.
 
 
 
Le Tour du Monde.
Voyage de L´Océan Pacifique a L´Océan Atlantique a Travers L´Amerique du Sud. 1848-1860.