segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Viajantes: Marianne North e A Casa Grande de Morro Velho.



"A Casa Grande de Morro Velho era mesmo uma ótima casa para uma artista se instalar, e logo, entrei numa regular e muito agradável rotina. Fiquei com o quarto mais alegre e arejado, vizinho ao dos meus amigos, com uma janela grande dando para a varanda iluminada, onde as pessoas iam e vinham continuamente, fazendo pausas para fofocar. Embaixo, ficava o jardim, cheio de flores das mais perfumadas: um grande pé de Magnolia grandiflora em plena florada cuja fragrância chegava até mim; à sua volta touceiras de rosas, cravos, gardênias (sempre em flor), bauínias de todos os matizes (a delícia dos beija-flores e das borboletas), heliotrópios do tamanho de uma árvore e cobertos de flores aromáticas, além de grandes moitas de poinsétia com estrelas escarlates medindo um pé de diâmetro; atrás delas havia bananeiras, palmeiras e outras plantas, sendo as encostas cobertas de matas por onde vislumbravam-se as antigas fábricas e o riacho descendo pelo vale". Marianne North (1830-1890). Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, J. A viagem ao Brasil de Marianne North (1872-1873). Rio de Janeiro: Sextante, 2012. p. 172.
 
 
Bananeiras, laranjeiras, palmeira e touceira de bico-de-papagaio num jardim em Morro Velho.
Pintura de Marianne North


domingo, 29 de dezembro de 2013

Viajantes: Os Castanhais e sua disseminação.


"[...]. O primeiro lugar entre as árvores disseminadas pelos roedores cabe a Bertholletia, cujas sementes acham os seus maiores distribuidores e ao mesmo tempo os seus melhores propagadores nas cutias. Nos castanhais que não são explorados é raro achar-se, entre as centenas de ouriços que cobrem o solo da mata, um único que não esteja aberto pelos dentes aguçados destes roedores, e completamente esvaziado. Mas as cutias não têm sempre o tempo de regalar-se tranquilamente com as saborosas castanhas; é o seu costume levar uma parte das sementes até uma certa distância, para enterrá-las, como reserva para o futuro. Assim pode acontecer facilmente que uma ou outra destas sementes seja esquecida e consiga grelar num lugar próprio para seu ulterior desenvolvimento. [...]". Jacques Huber (1867-1914). Mattas e madeiras amazônicas. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, Belém, v. 6, n. 1-4, 1909-1910. p. 154-155.
 
 
 
Castanhais (Bertholletia sp.)
Desenho de Percy Lau (1903-1972)




Cutia (Dasyprocta sp.)
Ilustração de Eron Teixeira


sábado, 28 de dezembro de 2013

Viajantes: Observando as aves.

 
"O socó comum, encontrado geralmente aos pares nas lagoas das proximidades, e não em bandos como acontece com o da mata - é tão manso quanto a garça noturna e outros pequenos pernaltas. Durante o voo o maguari e alguns outros pernaltas esticam o pescoço em linha reta. O jaburu, que tem um belo voo, procede de igual maneira, porém, fazendo uma leve curva por causa do papo. As grandes e esbeltas garças, ao contrário, inclinam o longo pescoço para trás numa belíssima curva, de maneira que a cabeça fica bem próxima das espáduas.
Certo dia deparei um pássaro, planando no ar, sobre a água de uma lagoa e em seguida mergulhou em busca de um cardume de piabas. A princípio julguei que se tratava de um pequeno martim-pescador de peito amarelo, mas, verifiquei depois que era um bem-te-vi. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1943, p. 62-63.
 
 
 
Bem-te-vi (Pitangus sulphuratus)
Ilustração de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.

 


quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Reflexões: Equilíbrio



De vez em quando afaste-se,
relaxe um pouco,
porque quando você voltar
ao seu trabalho
seu julgamento será mais seguro;
já que continuar sempre no trabalho fará com que você perca a capacidade
de julgar...
 
Distancie-se um pouco
porque o trabalho parece menor
e mais pode ser abarcado num vislumbre,
e uma falta de harmonia
ou proporção
pode ser vista com mais facilidade.
 
Leonardo da Vinci (1452-1519)
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária. 2003.
 
 
 
 
 
Pintura de Sherree Valentine Daines - 1956
Tutt'Art@
 



quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Viajantes: Barra do Rio Negro

 
"Acima de Itacoatiara cai a margem esquerda em altas barrancas de barro e de areia, e depois, em rochedos abruptos. Passamos a boca do enorme rio Madeira, que fica escondido atrás das ilhas, e ao meio dia primeiro de junho entramos no rio Negro, cujas águas pretas, bruscamente se destacam das águas pardo-amarelentas do Amazonas, e longe, rio abaixo, indicam a proximidade do poderoso tributário, ostentando manchas escuras. Paramos lançando âncora, diante da antiga "Barra do Rio Negro", que hoje é Manaus". Theodor Koch-Grünberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas - viagens no noroeste do Brasil (1903/1905), 2005, p. 27.
 
 
 
Manaus, 1865.
 Jacques Burkhart,Aquarela


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Viajantes: Borboleta na floresta.


"[...]. Mil coisas nessas matas atraem a vista e nos distraem daquilo que procuramos. Quantas vezes paramos para admirar um tronco por si só constituindo um mundo vegetal! A cada modo, a cada encontro dos ramos, as parasitas se agarram; as lianas pendem dos galhos altos até o chão; os cipós enleiam o tronco, tão estreitamente unidos uns aos outros que se diriam as caneleiras duma coluna. E quantas vezes ficamos imóveis, à escuta, para distinguir o sussurro do vento nas folhas das palmeiras, a uns cinquenta pés acima de nossas cabeças; não é ruído lento e surdo de vento nos galhos dos pinheiros das nossas florestas; mais parece o som claro duma água corrente. Através da estreita trilha, uma enorme borboleta, dessa cor azul vivo que se admira nas coleções de insetos do Brasil, flutua serenamente no ar diante de nós; ei-la pousada quase ao nosso alcance, dobrando os seus esplendores azulados e parecendo, calma e imóvel, uma simples flor castanho-escuro salpicada de branco! Luís Agassiz (1807-1873) & Elisabeth Cary Agassiz (1822-1907). Viagem ao Brasil 1865-1866. 2000, p. 302-303.
 

 
 
Trepadeiras com borboletas
Ilustração de Marianne North (1830-1890).
www.kew.org
 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Reflexões: Inspiração.



Quando você está inspirado por algum grande
objetivo, algum projeto extraordinário,
todos os seus pensamentos libertam-se de seus grilhões;
Sua mente transcende as limitações,
sua consciência expande-se em todas as direções,
e você se descobre em um mundo novo,
notável, maravilhoso.
Forças, faculdades e talentos adormecidos
tornam-se vivos e você descobre
que é uma pessoa muito mais fantástica
do que alguma vez sonhou.
 
Patanjali
(Aproximadamente do século I ao século III A.C.).
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária.2003.
 
 
 
Pintura de
Elisabeth Louise Vigée-Le Brun (1755-1842).


quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Viajantes: Orquídeas e Bromélias.


"[...]. Nesse arrabalde, vi muitas coisas curiosas. Um dia, seis macacos de rabo comprido e bigodes cinzentos estavam conversando trepados numa árvore, e deixaram que eu me aproximasse até embaixo para assistir às suas brincadeiras por meio de meu binóculo de ópera. Os galhos em que se achavam valiam também a pena serem observados, tamanha era a profusão de trepadeiras, bromélias e outras plantas silvestres, como orquídeas e samambaias, que carregavam. Essas bromélias tinham, com frequência, as mais belas florescências escarlates ou púrpura. Marianne North (1830-1890). Recordações de uma vida feliz. In: BANDEIRA, Júlio. A viagem ao Brasil de Marianne North. 1872-1873. 2012, p. 160.
 
 
Grupo de epífitas, orquídeas e bromélias no Brasil.
Ilustração de Marianne North.  www.kew.org


terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Viajantes: Helicônia.



"Durante as chuvas, essa região fica provavelmente submersa, já que o rio sobe, no mínimo, três metros. Podemos perceber claramente isso pelas pedras, com formato de cúpula fincadas como esculturas, que possuem a cor negra abaixo da linha da água e branca acima. Andando em terra firme, o caminho parecia um labirinto de redes cortado por um canal de lama preta. As árvores eram altas, formando uma cúpula negra acima de nós. Em algumas partes da floresta havia pouca, ou até mesmo nenhuma, vegetação rasteira. Onde existia, a maior parte era composta por marantas, helicônias e aroides. As árvores variavam consideravelmente desde finas e esguias até troncos maciços sustentados por raízes reforçadas. Margaret Mee (1909-1988). Flores da floresta amazônica. 2010, p. 24.
 
 
 
Heliconia chartacea var. meeana.
 Ilustração de Margaret Mee. Amazonas, Rio Uapés.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Viajantes: Taperebá.


"[...]. Me parece provável que o taperebá, bem que indígena na foz do Amazonas, primitivamente não era uma árvore muito comum, restrita a certas áreas, mas que os seus frutos, procurados desde tempos remotos pelos índios que os empregavam para fazer uma bebida refrigerante, foram largamente disseminados ao redor dos pontos habitados, onde esta árvore, antes de tudo amiga da luz, achava condições favoráveis para o crescimento. Como tantas outras árvores frutíferas, o taperebá apenas merece entre nós o nome de árvore cultivada ou domesticada. Uma vez presente no perímetro de uma povoação ela se torna logo subespontânea, e dificilmente se extermina tendo a vida muito dura e podendo grelar não só de troncos caídos no chão, mas também das raízes mestras deixadas na terra depois de derrubada a árvore". Jacques Huber (1867-1914). Notas sobre a pátria e distribuição geographica das árvores frutíferas do Pará. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, t. 4, n. 1-4, 1906, p. 386-387.
 
 
 
J. Barbosa Rodrigues explica em Frutos e Sementes: cadernos de anotações porque o jabuti não fica  embaixo de um taperebazeiro. Bem interessante, leiam! 
 
 


domingo, 8 de dezembro de 2013

Viajantes: Beija-flores.




"Apenas alguns passos fora da varanda do rancho eis-nos em pleno campo aberto, em chão de areia movediça, ao pé de duas árvores que a continuidade do vento torceu e inclinou. Uma é um cajueiro de flores vermelhas e outra uma morcegueira (Andira) revestida de corimbos roxos. Murmura-nos aos ouvidos o zumbir de uma nuvem de insetos, e uma boa dúzia de beija-flores rutilantes ajuda a animar o quadro, ora voando de um lado para outro, rápidos como flechas, ora pairando por momentos ante os cachos floridos. [...]". Emílio A. Goeldi. Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas). Boletim do Museu Paraense de Historia Natural e Ethnographia. v. 3, n. 1-4, 1900-1902. p. 382.
 
 
 
Beija-Flor. Campylopterus obscurus.
 John Gould. A Monograph of the Trocilidae or Humming Birds. 1855-1861.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Viajantes: A solidão profunda e acentuada na floresta.


"Bem lá no alto, acima das águas translúcidas do rio, as grandes árvores da floresta dos dois lados misturam seu delicado traçado de galho e folhagem em longas alamedas de sombra suave, aqui em massas de verdura escura, ali em manchas de esmeralda claro, ou com aberturas para o céu azul que enviam feixes de raios brilhantes de sol sobre as águas sombreadas e murmurantes, como chapas de ouro e prata reluzentes. Grandes cipós e trepadeiras pendem dos galhos, alguns como cabos de navio em linhas retas, a balançar suavemente com os sopros de ar que passam, outros em grandes festões, alguns nus como uma corda, outros cobertos de folhas, flores e parasitas. Palmeiras, samambaias e bambus projetam sua folhagem emplumada a partir dos altos das margens e formam os lados desta colunata de floresta. O solo vermelho das margens altas é atapetado de massas de convolvuláceas rasteiras, maracujás, e diversas variedades de samambaias e arões. A solidão é  profunda e acentuada, imperturbada pelo murmulho da água sobre seu leito pedregoso, pelo pulo de um peixe, ou pelo voo célere de um martim-pescador verde-bronze, parecendo, ao atravessar um feixe de sol, brilhar como uma esmeralda. James W. Wells [1841-?]. Explorando e viajando três mil milhas através do Brasil: do Rio de Janeiro ao Maranhão. 1995. v.1, p. 257.
 
 
 
Floresta brasileira.
C. Fr. von Martius (1794-1868).
Historia naturalis palmarum. 1823-1850.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Viajantes: Flores Brasileiras



"[...]. A vegetação continua sempre encantadora. Aliás, percebe-se facilmente como é estreita a faixa de vegetação que acompanha o rio. As regiões inundáveis são aqui mais frequentes e em maior extensão do que no rio São Lourenço. O capim aparece no fundo da água, quase tudo é pântano, embora os altos colmos das árvores nos deem a falsa aparência de bonita campina. A mata ergue-se por toda a parte, diretamente da água. Os eternos aspectos dessa vegetação inesgotável em formas decorativas e variadas embriagam-nos simplesmente. Apenas, passam depressa demais. Tudo é verde, mas que gradações! Desde a tenra e delicada trepadeira a brilhar sob a luz do sol, até a folhagem verde azulada de algumas árvores, enquanto em outras aparece uma tonalidade parda ou acinzentada em inúmeras variações. De vez em quando - flores - são campainhas roxas e flores amarelas de efeito encantador, como discreto ramo primaveril aos pés de uma tapeçaria escura e luxuriante. [...]". Karl von den Steinen (1855-1929). O Brasil Central. 1942, p. 56-57.
 
 
 
 
Flores silvestres do Brasil.
Marianne North (1830-1890). kew.org


quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Viajantes: Pimentas.



"[...]. Nas proximidades das choupanas encontramos ainda muitas das pimenteiras (Capsicum) que lá haviam plantado; seus frutos acres foram para nós um feliz achado, pois é um condimento que, acrescentado ao peixe, nessas florestas úmidas, muito contribui para facilitar a sua digestão, podendo ser ainda encarado como remédio contra febres. Nas viagens pelas matas do Brasil é uso levar uma provisão de pimentas secas, que vão sendo consumidas durante as refeições". Maximilian zu Wied-Neuwied. Viagem ao Brasil. 1958, p. 365.
 
 
 
 
Pimentas.
Ilustração de J. Th. Descourtilz.

domingo, 24 de novembro de 2013

Belém do Grão-Pará: Rua Conselheiro João Alfredo


A Rua Conselheiro João Alfredo teve, primitivamente, o nome de Rua dos Mercadores, pois estavam ali localizados os principais comerciantes da cidade de Belém. Foi também chamada de Rua da Cadeia, por ser o local onde ficava o presídio da cidade. Só depois recebeu o nome de Conselheiro João Alfredo.
 
João Alfredo Corrêa de Oliveira foi Presidente da Província do Pará, nomeado por Carta Imperial de 20 de outubro de 1869, tendo exercido o cargo, de 2 de dezembro daquele ano até o dia 17 de abril de 1870. (Ernesto Cruz. Ruas de Belém. 1970).
 
 
 
 
Rua João Alfredo no início do Século XX.
O Município de Belém. 1906.


quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Viajantes: Anhuma.


"[...]. Ouvimos e vimos, nas margens, as lindas araras, e encontramos, pela primeira vez, uma ave notabilíssima, a "aniuma" ou anhuma..., que não é rara nessa altura do rio. Essa linda ave, do tamanho de um ganso grande, mas de pernas e pescoços maiores, tem na testa um apêndice longo e delgado, semelhante a um chifre, de quatro a cinco polegadas de comprimento, e, ao nível da articulação dianteira de cada asa, dois fortes esporões pontiagudos. É arisca, mas logo se trai pela voz forte, que, embora muito sonora e potente, tem modulações algo semelhantes à voz do nosso pombo selvagem, sendo, porém, acompanhadas de algumas estranhas notas guturais; esse grito ressoava longe pela mata e trouxe novo entretenimento para o nosso senso venatório. Muitas delas, amedrontadas pela batida dos remos, voaram para a floresta; voando pareciam-se com urubu. [...]". Maximilian zu Wied-Neuwied. (1782-1867). Viagem ao Brasil. 1958, p. 244.
 
 
Anhuma (Anhuma cornuta)
Ilustração de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.
 


quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Viajantes: Orquídeas no Igapó.



"Mas que maravilhosa flor amarela será aquela, estranhamente suspensa no ar? Suas pétalas brilham na penumbra como se fosse de ouro! Aproximamo-nos dela, e o mistério se esclarece: está presa a uma haste delgada como um fio, de uma jarda e meia de comprimento, saindo de um denso aglomerado de folhas que se acha fixado numa casca de árvore. Trata-se de uma variedade de Oncidium, uma das mais lindas orquidáceas, alegrando essa melancólica penumbra com suas brilhantes folhas suspensas. Aos poucos, outras vão surgindo, em profusão cada vez maior, ora brancas, ora purpúreas, ora rajadas; algumas presas a troncos flutuantes, mas a maioria sobre musgos que crescem dentro dos ocos das árvores. Há uma espécie verdadeiramente magnífica, que tem 4 polegadas de largura. Os nativos chamam-na de flor-de-Santana. Tem pétalas roxas e brilhantes, e seu perfume é delicadíssimo. Trata-se de uma espécie nova. No gênero, é a flor mais maravilhosa dessa região. Os próprios nativos não podem deixar de admirá-la, ficando intrigados pelo fato de que uma flor tão linda crescesse à toa no igapó...". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 116-117. 
 
 
 
 
Oncidium maculosum.
J. Barbosa Rodrigues. Iconographie des orchidées du Brésil. (1877-1898).


terça-feira, 19 de novembro de 2013

Viajantes: Beija-flores em redor das flores suspensas no Rio Solimões.


"[...]. Quando despertei na manhã seguinte, estávamos subindo pela margem esquerda do Solimões por espia. Era então a estação chuvosa na região por onde corre o grande rio. Os bancos de areia e todas as terras baixas já estavam debaixo d´água, e a poderosa corrente, duas ou três milhas de largura, arrastava contínua fila de árvores arrancadas e ilhotas de plantas flutuantes. A paisagem era das mais melancólicas; o único som que se ouvia era o murmúrio surdo das águas. A margem ao longo da qual viajamos o dia todo, estava atravancada, a cada passo, por árvores caídas, algumas das quais tremiam nas correntes que cercavam alguns pontos mais salientes. Nossa velha peste a mutuca, começou a atormentar-nos logo que o sol esquentou. Viam-se bandos de garças brancas a beira d´água, e em alguns lugares os beija-flores se espanejavam em redor das flores suspensas. O desolado aspecto da paisagem aumentou depois do por do sol, quando a lua apareceu, mergulhada em névoas. Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944, v. 2, p. 149.
 
 
Ramos de orquídeas e beija-flores.
Pintura de Martin Johnson Heade.
 

domingo, 17 de novembro de 2013

Viajantes: Caraxué.


"[...]. Nas primeiras horas da manhã, as matas perto da minha casa se enchiam de animação com os seus cantos - uma coisa rara na região.
Ouvi ali, pela primeira vez, o canto suave e agreste do caraxué, uma espécie de tordo. [...]. Verifiquei mais tarde tratar-se de um pássaro muito comum nas pequenas matas da região dos campos, perto de Santarém. Esse pássaro é muito menor do que o nosso tordo, suas cores são menos vistosas e o seu canto não é tão forte, tão variado ou tão prolongado como o deste; o seu tom porém, é doce e plangente, e se harmoniza muito bem com o ar agreste e silvestre das matas onde unicamente ele é ouvido nas manhãs e tardes de opressivo calor tropical. Com o passar do tempo o canto desse humilde pássaro foi despertando em mim agradáveis lembranças, assim como faziam em minha terra os seus congêneres, mais bem dotados. Há várias espécies desses pássaros no Brasil; nas províncias do Sul eles são chamados de sabiás. Os brasileiros não são insensíveis aos encantos do sabiá, que é considerado a sua melhor ave canora; [...]. Em várias ocasiões encontrei ninhos de caraxué; é feito de gravetos e capim seco, forrado de barro; os ovos são coloridos e pintalgados como os do nosso melro, mas de tamanho muito menor.[...]". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979, p. 107.
 
 
 
Caraxué(Sabiá)  - Cutipuruí - Vô-Vô - Peruinha-do-campo.
Ilustração de Ernst Lohse (1873-1930). Álbum da Aves Amazônicas. 1900-1906.


quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Viajantes: Palmeiras.


"Qualquer trecho da selva que divise na foz do Amazonas, sobretudo para o sul da linha equinocial, é todo entremeado desses vegetais, que fornecem à nossa gente, numa prodigalidade materna, a madeira, óleo, a cera, a palha, o tóxico, o marfim, a tala, o remédio, a goma, o palmito, a água, a farinha, o leite, o fruto. Deles se fazem casas e canoas, pontes e redes, armas e paneiros, balaios e gaiolas, cercas e armadilhas, botes e joias." Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930, p. 104.
 
 

 
Astrocaryum vulgare e Cocos nucifera.
 C. Fr. von Martius. Historia naturalis palmarum. 1823-1850.
 


quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Lendas e Curiosidades: Mercados & Pajelança.


"Do Ver-o-Peso ao Mercado-de-Ferro é um passo. Um e outro se confundem no turbilhão das invariáveis manhãs de feira. Até as torres esguias, de aspecto oriental, do velho mercado, fazem parte da paisagem do Ver-o-Peso. São o pano de fundo da doca.
Pouco adiante e mais afastado do cais, o turista vai encontrar o Mercado Municipal, ocupando extensa área que lateralmente se delimita com a Travessa Oriental do Mercado e a Travessa Ocidental do Mercado.
Mas o vasto espaço marginal à baía de Guajará onde se enquadram o Ver-o-Peso e aqueles dois entrepostos é todo um mercado: nas calçadas, no leito das ruas, nas pequenas casas de comércio, nos botequins, movimenta-se a multidão num vai-e-vem interessante. Formigueiro matutino. Território do pitoresco. [...].
E a pajelança? Bem, é melhor que o turista entre no Mercado e se detenha a observar gente, coisas... e saia para o ar livre, dando uma volta pela beira do cais, por entre as barracas armadas como se fossem casas em ruas de uma cidadezinha de papelão.[...].

Vidros com banhos cheirosos.
 

Banhos e defumações, embalados em caixinhas, se industrializam um tanto prosaicamente. Ervas, raspas, cipós, raízes, cascas, flores, trevos, são a matéria prima. Os nomes indicam o uso: "Defumação desmancha-tudo", "Defumação desatrapalha", "Banho vai-e-volta", "Banho desempata", ...
Os preparos que entram nessa alquimia cabocla, tão cheirosa e agradável - se encontram dentro ou fora dos mercados. Mas como fazer a coisa certa, temperar esta raiz com aquela erva, por o mínimo ou o máximo desta raspa ou daquele cipó, de acordo com as finalidades da mandinga? É melhor respeitar o segredo desses Cagliostros.
 
Ervas cheirosas
 
 
Contudo, se o turista quiser conhecer alguns dos ingredientes, à venda nos mercados, ei-los: fava-de-baunilha, priprioca, pau-rosa, orisa, macaca-poranga, mão de-onça, alecrim, japana, mucura-caá, pataqui, catinga-de-mulata, chama, trevo-cumarú, patchuli, membeca, verônica, arruda, , cravo-jutaí, casca-preciosa, vindica, casca-de-cedro, canela, hortelã, louro, pau-d´angola, açucena-do-mato, capim-marinho, cumaru, casca-sacaca.,[...]". Leandro Tocantins(1928-2004). Santa Maria de Belém do Grão-Pará. 1963, p. 289-292.
 
 
 
Cascas e Paus que entram nos famosos banhos-de-cheiro.

 

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Viajantes: Bacaba (Oenocarpus distichus Mart.)



"Aí crescia em abundância uma nobre palmeira, que dava caráter peculiar ao distrito, o Oenocarpus distichus, uma das muitas bacabas dos nativos. Alcança quarenta a cinquenta pés de altura. A copa é verde-escura brilhante e de forma singularmente achatada ou comprimida, pois as folhas estão dispostas de um e outro lado, quase no mesmo plano. A primeira vez que vi esta árvore nos campos, onde o vento leste sopra com fúria noite e dia, meses a fio, pensei que a forma fosse devido a que as folhas seguissem um mesmo meridiano pela ação constante dos ventos. Mas o plano de crescimento nem sempre concorda com a direção do vento, e a copa tem a mesma forma quando a árvore cresce em bosques abrigados. O fruto desta bela palmeira amadurece no fim do ano e é muito apreciado pelos naturais, que com ela fabricam agradável bebida, semelhante ao açaí, [...], destacando a polpa dos caroços e misturando-a com água. [...]. A bebida tem aspecto leitoso e gosto agradável de nozes. Henry Walter Bates (1825-1892). O naturalista no Rio Amazonas. 1944. v. 2, p. 42.
 
 
 
 
Oenocarpus distichus Mart.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum palmarum brasiliensium. vol. 1, t. 38, 1903.



domingo, 10 de novembro de 2013

Reflexões: SONETO XXVIII.


 
SONETO XXVIII
 
 
Minhas cartas! Todas elas frio,
Mudo e morto papel! No entanto agora
Lendo-as, entre as mãos trêmulas o fio
da vida eis que retomo hora por hora.

Nesta queria ver-me era no estio
Como amiga a seu lado... Nesta implora
Vir e as mãos me tomar... Tão simples! Li-o
E chorei. Nesta diz quanto me adora.

Nesta confiou: sou teu, e empalidece
A tinta no papel, tanto o apertara
Ao meu peito que todo inda estremece!

Mas uma... Ó meu amor, o que me disse
Não digo. Que bem mal me aproveitara,
Se o que então me disseste eu repetisse...
 
Elizabeth Barrett Browning (1806-1861)
algumapoesia.com.br
    In
Sonnets from the Portuguese
   
1850

•  Tradução: Manuel Bandeira
    In
Estrela da Vida Inteira
   
Record, Rio de Janeiro, 1998
 
 
 

Leitura da carta. Pintura de  Peter Kraemer

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Viajantes: Os Rápidos (Corredeiras) na Amazônia.


"Na manhã de 22 de março reiniciamos a viagem com seis canoas, percorrendo dez quilômetros. Vinte minutos após a partida, encontramos a primeira série de rápidos. Aí todos nós tivemos de marchar a pé exceto os três melhores canoeiros, os quais despenderam uma hora na travessia das canoas, uma após outra. Neste meio tempo descobrimos uma casa de abelhas no tope de uma árvore inclinada sobre o rio; nossos timoneiros escalaram-na para retirar o mel, porém, infelizmente derramaram tudo no momento da descida. Deparou-se-nos, a seguir, uma pequena, mais forte queda d´água, a qual não tivemos coragem de vencer com nossas toscas e fracas embarcações super lotadas. Felizmente, foi-nos possível seguir por um canal profundo, que se estendia em desvio de um quilômetro, indo ter justamente abaixo da cachoeira, a cerca de cinquenta metros do seu ponto inicial.
Prosseguimos com as embarcações em marcha apenas durante hora e meia, pois que novamente encontramos outra série de rápidos que nos tomou mais seis horas de travessia e em cuja base acampamos. Toda a carga foi retirada das canoas que foram descidas uma de cada vez Em certo ponto mais difícil e perigoso empregaram-se cordas para evitar qualquer surpresa desagradável, mas mesmo assim, quase perdemos uma embarcação. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1945, p. 263.
 
 
Um rápido (Corredeira) na Amazônia.
 Karl von den Steinen. 1942.
 
 
 


terça-feira, 5 de novembro de 2013

Viajantes: Socós na Ilha de Marajó - PA



"A cada pancada dos remos levanta-se do verde labirinto de grinaldas, de um lado ou de outro, um bando de socós, em todas as fases de idade, evidentemente advertidos mais pelo seu agudíssimo ouvido que mesmo pela vista, e se dispersam em todas as direções, com gritos ásperos que bem mostram o embaraço em que se acham para encontrar sem demora um novo esconderijo sombrio.
E assim durante um bom quarto de hora, caminhamos, levando continuamente à nossa frente uma nuvem de 30, 50 e mais socós; [...]". Emílio A. Goeldi (1859-1917). Maravilhas da natureza na Ilha de Marajó (Rio Amazonas) Boletim do Museu de Historia Natural e Ethnographia, t. 3, n. 1-4, 1900-1902, p. 387.
 
 
 
 
Socós
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930).
Álbum de Aves Amazônicas. 1900-1906.


domingo, 3 de novembro de 2013

Reflexões: O nosso livro.


Livro do meu amor, do teu amor,
Livro do nosso amor, do nosso peito...
Abre-lhe as folhas devagar, com jeito,
Como se fossem pétalas de flor.
 
Olha que outro já não sei compor
Mais santamente triste, mais perfeito.
Não esfolhes os lírios com que é feito
Que outros não tenho em meu jardim de dor!
 
Livro de mais ninguém! Só meu! Só teu!
Num sorriso tu dizes e digo eu:
Versos só nossos mas que lindos sois!
 
Ah! meu Amor! Mas quanta, quanta gente
Dirá, fechando o livro docemente:
"Versos só nossos, só de nós dois!"

Florbela Espanca (1894-1930)
Poemas de Florbela Espanca. 1996.
 
 
 
 
Karl Ludwig Becker (1820-1900).
One year one painting a day.blogspot


sábado, 2 de novembro de 2013

Viajantes: Cássias.

 

"Os caules das palmeiras são inteiramente revestidos de plantas orquidáceas, que nessa época estavam quase todas sem folhas ou flores. Apesar disso, pode-se presumir que não haja uma considerável variedade de espécies. Nos alagadiços há grande abundância de convolvuláceas arbustivas. Em alguns trechos, formam-se verdadeiros jardins de cássias e mimosas, entremeadas de delicadas florezinhas do campo." Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979, p. 67.
 
 
 
 
Cassia spp.
Pintura de Marianne North (1830-1890). kew.org


terça-feira, 29 de outubro de 2013

Viajantes: Botos no Araguaia.



"Aparecem ao redor da canoa os primeiros botos, resfolegando ruidosamente e expelindo a água pelo focinho, em altos jatos. Como o peixe-boi, a baleia e a doninha, o boto é um cetáceo, animal aquático de sangue quente, possuindo pulmões ao invés de brânquias, de maneira que tem necessidade do ar atmosférico para respirar de espaço a espaço. [...].
Comum na Amazônia, nos mais remotos recantos deste sistema fluvial constata-se a sua presença.
Os caboclos tratam-no como animal sagrado e ninguém o mata, porque a lenda lhe atribui a virtude de proteger os náufragos aos quais empurra com a cabeça para as margens dos rios. Persegue desapiedadamente os peixes com exceção somente dos de elevado porte, e demonstra habilidade extraordinária quando os encurrala nos remansos onde consegue pródigas caçadas. Creio que o privilégio do boto termina unicamente nas garras da onça, que às vezes vence a sua astúcia, pegando-o nos lugares rasos. [...]". Hermano Ribeiro da Silva. Nos sertões do Araguaia. 1935, p. 50.
 
 
 

Uiara-Tucuxi.
Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815)
. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá. (1783-1792).

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Viajantes: Garças.



"Através das rajadas da chuva que caía, mal podíamos ver a estrada. Cessado o aguaceiro depois de termos andado uma meia légua, o sol se mostrou por entre nuvens de chumbo. Súbito, banhado pelos raios de luz, apareceu um bando de lindas garças, que, com forte e gracioso bater de asas, apressaram o voo - a plumagem branca reverberando ao sol - e cruzaram o espaço, desaparecendo além, na linha brumosa do horizonte". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 2010, p. 123.
 
Garças.
Álbum das aves amazônicas. Desenho de Ernst Lohse. 1900-1906.
 


quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Viajantes: Orquídea e Colibris.



"A Hiléia amazônica, com as suas ótimas condições de calor e umidade, é um excelente viveiro para as mais belas orquídeas. Apenas, ao contrário do que se pensa, não será nas suas grandes matas fechadas e sombrias, que as iremos encontrar com maior frequência. Tratando-se de plantas relativamente heliófilas, só nos galhos das mais altas árvores estarão bem expostas à luz que lhes convém. E aí, se quase as não veremos, mais difícil ainda será colhê-las. Ricos de orquídeas serão os igapós, certas campinas e o arredor das cachoeiras e nascentes. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955, p. 64.
 

 
 

 
Martim Johnson Head (1819-1904). Cattleya Orchid.


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Viajantes: Jacarés.


 
"Já a partir dos primeiros estirões do curso inferior do Parauapebas, começamos a familiarizar-nos com o que daí em diante passa a constituir a característica deste rio: poços profundos entre os "secos" ou entre as cachoeiras, margens recobertas por castanheiros, e, nas águas imóveis e escuras, jacarés em profusão, cruzando o rio para cima e para baixo. Esses crocodilos de 3 metros ou mais de comprimento, tão familiarizados conosco como seria de se esperar de sáurios que jamais avistaram um ser humano, não deixam de nos inspirar uma certa prudência.[...]. E assim é que, em determinados momentos, prosseguimos escoltados por um verdadeiro batalhão de batedores que de bom grado, dispensaríamos". Henri Coudreau (1855-1899). Viagem a Itaboca e ao Itacaiunas. 1980, p. 63.
 
 



Jacarés.
 J. Creveaux. Voyages dans L´Amérique du Sud. 1883. Desenho de E. Riou.
 
 
 
 


domingo, 20 de outubro de 2013

Reflexões: Passe esse dia matando o tempo.



Passe esse dia matando o tempo - será a mesma história
Amanhã - e adiará mais a seguinte;
Cada indecisão traz seus próprios atrasos,
E dias são perdidos em lamentações pelos dias perdidos.
Você está falando sério? Aproveite este minuto -
A audácia envolve gênio poder e magia.
Dê o primeiro passo, e a mente se animará -
Comece, e o trabalho estará concluído!
 
Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832)
DYER, Wayne W. Muitos mestres: sabedoria de diferentes épocas para a vida diária. 2003.
 
 
Pintura de Miklós Barabás (1810-1898).
 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Belém do Grão-Pará: Av. 16 de novembro em 1906 - Belém-Pará.



A Av. 16 de novembro que tem esse nome por causa da Adesão do Pará à República, era anteriormente denominada Estrada de São José, por ser o caminho que conduzia ao Convento de São José, construído no século XVII  pelos  Capuchos da Piedade. Ernesto Cruz. Ruas de Belém. 1970.
 
 
 
 
Praça São José  à entrada da Avenida 16 de Novembro em 1906.
O Município de Belém. 1906.
 


quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Viajantes: Palmeiras.


"E mal se penetra o arquipélago, seja pelo norte de Marajó, conhecido por Ilhas de Fora, seja pelo sul, conhecido por Ilhas de Dentro, as palmeiras, numa orgia floral, reproduzem-se em mil formas, em mil tamanhos, em mil nuanças. De surpreendentes e altas cabeleiras, ora desgrenhadas como espanadores, ora ameaçadoras como cabeças de Medusa, ora harmoniosas como repuxos de verdura, elas minguam, reduzem-se aos tipos arbustivos, tufos rasteiros de palmas e plumas sob os quais zunem os grilos e chiam as cigarras". Raimundo Morais. Paiz das pedras verdes. 1930, p. 99.
 
 
 
 
Oenocarpus batua 
J. Barbosa Rodrigues (1842-1909). Sertum palmarum brasiliensium :ou Relation des palmiers nouveax du Brésil, découverts, décrits et dessinés d'après nature, 1903. 

 
 
 


terça-feira, 15 de outubro de 2013

Viajantes: Fabricação de canoas.



"[...]. O dia seguinte os homens foram à mata a procura de árvores para a fabricação de canoas de casca. Usam para este fim da casca de uma leguminosa alta, que separam do tronco numa única peça e com o máximo cuidado para não quebrá-la no processo de descascar. A casca depois é estendida no chão e queimada durante alguns minutos em dois lugares perto das extremidades com achas de lenha em brasa. Nas linhas queimadas dobra-se a casca e depois ligam-se as extremidades com cipós, ficando assim uma espécie de caixa chata, retangular, segura nos lados por varas amarradas com cipós e no fundo por travessas. Pode-se imaginar que o movimento de tais embarcações maciças não é rápido, mas ao menos o perigo de soçobrar é mínimo para elas. Outra vantagem é que a sua fabricação custa pouco tempo. As nossas estavam prontas já na tarde do segundo dia e às 4 horas do dia 7 de setembro pudemos continuar a viagem. [...]". Emília Snethlage (1868-1929). A travessia entre o Xingu e o Tapajós. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de Historia Natural e Ethnographia, . v. 7, p. 81, 1912.
 
 
A construção da ubá.
J. Creveaux.Voyages dans L´Amérique du Sud. 1883.
Desenho de E. Riou .


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Viajantes: Carará.



"Os estúpidos cararás apareciam agora mais frequentemente; era o sinal, de que o tempo da seca já estava terminando. Este mergulhão é a mais sonolenta das aves da selva tropical. Logo que termina a sua rica refeição, que consiste exclusivamente de peixes, ele se assenta no mais alto galho de uma árvore ribeirinha e, com o pescoço encolhido, reassume seu mal interrompido sono. Se ele for espantado de repente, ele deixa-se cair na água e mergulha. Graças a formação característica de seu bico, ele pode ficar até uns 10 minutos debaixo d´água e nadar para frente e assim escapa frequentemente do seu perseguidor". Theodor Koch-Grunberg (1872-1924). Dois anos entre os indígenas: viagens ao noroeste do Brasil. 2005, p. 249.
 
 
 
 

Carará -Mergulhões - Gaivotas - Trinta-réis - Arirambas.
 Álbum de aves amazônicas. Desenho de Ernst Lhose (1873-1867).
 

 


domingo, 13 de outubro de 2013

Reflexões: Primeiras emoções de amor.



Oh, fosse o meu amor mais belo que o lilás,
Com as flores purpúreas saudando a primavera,
E eu um pássaro a nelas me abrigar,
Quando as fracas asas cansadas eu tivera;
Como eu choraria quando elas se vergassem
Nas mãos do fero outono e do inverno impiedoso!
Mas eu cantaria num vôo caprichoso
Quando o sol de maio lhes renovasse o viço.
 
Robert Burns (1759-1796)
A linguagem das flores, 1989.
 
 
Pintura de James Tissot (1836-1902).
A linguagem das flores, 1989.


quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Viajantes: Tucano e Biguatinga.



"Encontramos muitos pássaros esquisitos pela redondeza, inclusive alguns tucanos. Nunca vi nenhum outro de atitudes tão jocosas e grotescas como o tucano.
Nesse dia deparei-me com  um pousado na copa de certa árvore, com o seu vasto bico apontando para a frente e mantendo ao mesmo tempo a cauda em posição perpendicular. O tucano é por natureza, grotesco...
 
 
Tucano (Ramphastos cuvieri, Wagl.
John Gould (1804-1881). A monograph of The Ramphastidae or family of toucans.  1992.
 
 


Vimos também nos rios e nas lagoas o biguatinga, uma ave com pés de mergulhão e bico e cauda semelhante aos do socó, porém, como é hábito de muitas aves sul-americanas não faz vida em comum com as outras espécies. [...]". Theodore Roosevelt (1858-1919). Nas selvas do Brasil. 1943, p. 102.
 
 
 
Biguatinga.
Desenho de Antônio Martins. Brasil 500 pássaros. 2000.
 
 




terça-feira, 8 de outubro de 2013

Lendas e Curiosidades: Furo Aturiá e a volta da Vira-Saia. Estado do Pará - Brasil


"[...]. E outro distintivo curioso, de fundo sociológico, ilustra o espírito regional cheio de visões fantásticas de crédulas narrativas de duendes, que se avivam e se estimulam no ermo terrível daquelas paragens misteriosamente recobertas da selva mais densa e pujante do vale. A natureza, ali, em tudo contribui para a crendice.
É no furo Aturiá, um dos mais soturnos e solitários do complicado labirinto. Há uma volta chamada Vira-Saia onde a gente local costuma dedicar as divindades autóctones todo o sortimento de roupas e trapos jogados na vegetação ribeirinha. A estranha oferenda secular tem sua história contada através de gerações: uma canoa subia o furo nos primitivos tempos da conquista, e ao dobrar a volta da Vira-Saia surgiu pela proa, em ronda sinistra, centenas de botos, fungando e ameaçando a pequena embarcação, que ficou paralisada, sem poder prosseguir a derrota ou retroceder. Um coro de vozes se fez ouvir, entoado por jovens desnudas e provocantes que afloravam das águas. As lindas iaras pediam roupas para cobrir a sua nudez, e tão logo as peças eram jogadas pelos caboclos atemorizados as estonteantes visões desapareceram e a canoa pode continuar a viagem". Leandro Tocantins (1928-2004). O rio comanda a vida: uma interpretação da Amazônia. 1961, p. 32.
 
 
 
 
Iara
 Gastão de Bettencourt. A Amazônia no fabulário e na arte. 1946.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Viajantes: Tocandira


Segundo Ariosto Espinheira em Viagem através do Brasil v. 1, Norte, "a tocandira é uma enorme formiga amazônica, cuja picada produz efeitos terríveis. Pela sua cor, confunde-se com os galhos e folhas caídas. Quem for picado por ela sofre dores cruéis, como se fosse atingido por uma aranha peçonhenta.
Em muitas tribos, os jovens índios, que queriam ser considerados guerreiros, eram experimentados, numa prova de resistência física pelas picadas da tocandira.
Os seringueiros acreditam que, ao morrer a tocandira dá origem ao chamado cipó-imbé, muito usado na construção de casas, pontes e cercas. O que parece certo é que a formiga leva para o formigueiro sementes desse cipó. As sementes germinam nos locais onde encontram formigueiros".
 
Em seguida o relato do botânico inglês Richard Spruce sobre sua experiência com a formiga tocandira:
 
"Ontem tive pela primeira vez o prazer de experimentar a ferroada de um grande formiga preta que, na língua geral, é chamada de tocandira. [...]. Depois do desjejum, fui herborizar numa capoeira a norte de San Carlos, onde havia muitos tocos e troncos caídos. Abaixei-me junto a um toco para colher musgos do gênero Fissidens, mal notando que, ao retirar as plantas, tinha deixado exposto um buraco na madeira podre. Aí, quando me levantei e fui colocar o musgo dentro do meu embornal, não reparei que uma fieira de tocandiras enfezadas emergia o tal buraco. Não demorou um segundo, e eu já tinha recebido uma violenta ferroada na coxa, tão forte que imaginei tratar-se de picada de cobra. Ergui-me num salto, e então pude ver meus pés e pernas estavam sendo tomados por aquelas terríveis formigas! A única saída era fugir em disparada, e foi o que fiz, tentando me esfregar contra todos os ramos e galhos pelo caminho, até finalmente me ver livre das tocandiras, mas não antes de se impiedosamente ferroado por elas em torno dos pés, pois eu estava com o calcanhar desprotegido, calçando apenas chinelos, e mesmo estes acabei perdendo durante a fuga...
Eu me encontrava então a pouco mais de cinco minutos de minha casa, pois já estava voltando quando ocorreu o desastre. Bem que eu queria caminhar rapidamente, mas não consegui. A dor era lancinante! Fiz das tripas coração para não me arrojar sobre o solo e rolar, como já havia visto os índios fazendo quando ferroados por essa formiga.
Em meu caminho, eu tinha de atravessar uma faixa de areia escaldante e depois uma lagoa parcialmente seca, na qual a água não chegava a mais que 2 pés [61cm] de profundidade. Imaginei que o contato com a água fosse aliviar a dor.
Quando por fim cheguei a casa imediatamente recorri ao amoníaco. A única pessoa que encontrei por perto foi a minha cozinheira índia, que, por sua conta e risco, me aplicou um torniquete bem forte acima dos tornozelos, esfregando depois o amoníaco nas picadas. Como a dor não aplacasse, pedi-lhe que esfregasse uma mistura de óleo e amoníaco, providência que também pareceu não surtir efeito algum, a não ser quando o óleo começou a esquentar. mesmo assim, o alívio produzido foi bem pequeno. O curioso foi que aos poucos se reduziu a dor dos ferimentos menos esfregados, e um deles que sequer tinha sido tocado foi o primeiro a parar de doer completamente!
Deviam ser umas duas horas da tarde quando fui atacado pelas formigas, e só comecei a sentir algum alívio cerca de três horas depois. Durante todo esse tempo, meu sofrimento foi indescritível, algo assim como o que teria sido provocado por cem mil queimaduras de urtiga... meus pés, e às vezes até mesmo minhas mãos, tremiam como se eu sofresse de paralisia. Em determinados momentos, a dor recrudescia tanto, que meu rosto ficava empapado de suor. [...].
Depois que a dor se tornou suportável, ela voltou a ficar aguda em duas ocasiões: ás 9 da noite e à meia-noite, quando deixei a rede e pisei no chão com o pé esquerdo, o que me provocou uma hora seguida de sofrimento atroz. Ao se aproximar a manhã, adormeci, e quando acordei não senti outro desconforto que não fosse uma ligeira dormência nos pés, mas o inchaço se manteve ainda durante umas trinta horas. [...]". Richard Spruce. Notas de um botânico na Amazônia. 2006, p. 258-259.
 
Richard Spruce
(1817-1893)
 
 
 
Para saber mais sobre a formiga Tocandira leia: Amazônia Exótica: curiosidades da floresta.