segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Um bonito cenário tropical


"Como a manhã está muito clara, as massas de vegetação destacam-se em vários planos e há um quê de cenário teatral nesses amplos panos de verdura e bambolinas muito verdes recortadas sobre o azul do céu. Numa delas, pousa imóvel um maguari.
Por todos os lados, surgem fustes de palmeiras. São inajás portentosas, bosquetes de jauaris, esguias urucuris, marajás, tucumãs, patauás...
Aqui e ali, acairelando as ilhas, uma ou outra ponta de areia branca ou atijolada, onde se esgalham araçazeiros em flor, e, depois, araparis e, também, tortuosas mongubeiras.
O arapari foi uma das minhas surpresas da Amazônia. Ainda que o houvesse descrito sem margem a retificações, sempre o acreditei de porte arbustivo, quando agora venho encontrar uma verdadeira árvore, com alguns metros de altura, e dando até boa madeira para canoas.
Não se faz preciso muito tempo para que conheçamos a primeira corredeira. Vão-se à água os nossos homens, não só para que se alivie o peso à embarcação, como no intuito de levá-la a braços e a corda por entre as pedras em que o rio murmureja.
Mais adiante, já não é bastante essa manobra, e saltamos todos à margem esquerda, para a transposição da Cachoeira do Cajual. Aí, até a carga tem de ser levada às costas através de um pequeno varadouro. Contudo, perdem-se três horas, - tempo de sobra para a cata de castanhas e cajus, na redondeza, e o preparo de um bom café tomado à hora do reembarque.
Pela tarde, enubla-se o céu e o calor é intenso. Já, então, deixamos para trás o Igarapé Grande, onde um rancho de palha, agora ao abandono abriga os trabalhadores no tempo do fabrico.
Ao longe, bufam lontras à flor d´água, e na galhaça de uma grande árvore ribeirinha, dois cuatás esguritam-se à nossa passagem.
Um dos remadores, vaqueano destas paragens, vem ao encontro da nossa curiosidade e aponta-nos as plantas mais em evidência.
São escovas de macaco as inflorescências que se amiúdam à beira d´água, pintadas de vermelho vivo. Aquela árvore mais alta, é um taperebázeiro. E para atestar a dureza do seu cerne, o caboclo concluiu: "Jabuti não anda embaixo de taperebázeiro, porque se a árvore cai em cima dele, ele fica preso pro resto da vida. Isso é pau que não apodrece". Mais adiante, está um pariri, cujas frutas são muito apreciadas pelas antas. No fundo, aquela palmeira tucumã dá um vinho excelente...
Mas o céu é cada vez mais negro e a chuva não se faz esperar, pondo à prova os impermeáveis com que o Sampaio e eu nos protegemos. Felizmente, é uma rápida pancada e, em pouco, o tempo volta a clarear". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 4. ed. ilust. 1954. p. 38-40.


Pachira aquatica
Panhuys, L. von. Watercolours of Surinam. 1811-1824.
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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Tajá: uma planta interessante


"A etnobotânica tem, entre os inúmeros vegetais ligados às crenças, superstições e usos dos indígenas e dos caboclos da Amazônia, os Tajás. Conhecidos, entre os civilizados, pelas denominações de tinhorão e caládios, foram eles batizados, consoante a botânica indígena pelo nome de Tajá.
Segundo E. Stradelli: Taiá " é nome comum a muitas plantas que se distinguem pelas largas folhas, formando toiça, muitas vezes elegante e caprichosamente manchadas, do gênero Caladium e afins."
O mesmo autor enumera as seguintes espécies de Tajá:
Taiá-embá - é uma espécie que toma a forma de tajá sem sê-lo como aliás diz o nome - não tajá.
Taiá-peua, tajambeba, tajápeba - tajá de raiz chata.
Taiá-pinima - tajá-pintado
Tajá-piranga - tajá-vermelho, tajá-pintado de vermelho. É entre estes que, parece, estão as espécies mais venenosas. É um tajá de largas manchas vermelhas, cor de sangue, de cujas
raízes os indígenas do Uaupés extraem o veneno que propinam às mulheres condenadas à morte por terem surpreendido alguns dos segredos do Jurupari.
Tajá-puru -  tajá a cuja raiz se atribui a propriedade de trazer a felicidade nos amores e de tornar marupiara (feliz) a quem o trás consigo pelo que se encontra muito cultivado especialmente no baixo Amazonas".
F. C. Hoehne escreve: "Uma das plantas mais interessantes, pela enorme semelhança do seu caule com o corpo de uma serpente, do gênero Lachesis, encontramos no gênero Staurostigma, que tem muitos representantes nas matas aqui do sul. No norte aparece ainda Dracontium, que também tem os pecíolos foliares e os pedúnculos florais maculados como uma "Jararaca", a ponto de poderem ser confundidos com esta serpente quando cortados e postos no meio da estrada". [...].
Na Amazônia, o povo conhece as virtudes mágicas do "Tajá pirarucu", que o caboclo pescador leva num ouriço de castanha, sob o banco da sua ubá ou do seu casco quando vai pescar, o que a dona da casa planta, à entrada da casa, (para que o tajá onça ou "tajá-cobra" a proteja.
Em simbiose com essas aráceas vivem espíritos bons protetores e amigos, como também espíritos diabólicos, terríveis e implacáveis. [...].
Todos os tajás tem história, diz Nunes Pereira:
O espírito ou a alma de um pássaro se encarna numa dessas espécies de aráceas: o "tajá que pia"; e o tamba-tajá, que está ligado à vida  amorosa da gente simples e romântica da Amazônia.
Do Tamba-tajá dizem em Tracuateua, no Estado do Pará, que tem "um macaquinho às costas" referindo-se à pequena folha que lhe aparece (nem sempre em todas) colada à página inferior das principais, e nela se vendo, também um coração rudimentar. Do que ali é conhecido com o nome de Cala-a-boca, dizem na Amazônia, em geral, que quando se mostra verde, as folhas, algo de mau ocorrerá. O Tajá Rio Branco protege a casa; e o do Rio Negro, se ela é invadida, dentre as suas folhas saem dois homens que afugentam as feras, os intrusos e os maus espíritos.
Há uma arácea, com idênticas virtudes mágicas, que se denomina Puraqué.
Todas essas forças mágicas nos são reveladas pelos índios e seus mestiços". Manuel Nunes Pereira (1892-1985). Moronguetá: um decameron indígena. 1967. v. 1, p. 147-148.


Caladium sp.
 La Belgique horticole. Journal des jardins et vergers. v. 11, t. 1, 1861.
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domingo, 4 de fevereiro de 2018

Mudança de paisagem


"[...]. A mudança do nosso ambiente também se fazia notar, entre outras, na própria vegetação, que tanto mais tomava outras formas, quanto mais seguíamos para oeste. Com isso, igualmente se modificava a feição da paisagem: as árvores pareciam mais baixas, de galhos menos extensos, com as copas, portanto, mais estreitas; eram mais raros os cipós; particularmente abundava uma palmeira, a paxiúba barriguda, cujo tronco alto de 40 e tantos pés se engrossa no meio, a modo de tonel, de sorte que essa parte costuma em geral ser cavada pelos índios para suas igaras. Na própria mata, encontramos pequenas palmeiras ubins, e, aqui e ali, brotadas nas rochas, seivosas moitas da trepadeira arum, e particularmente do cipó timbó [...], gênero de plantas que se tornou conhecido primeiro no Peru. Ademais, parecia esta mata agora bastante desabitada de animais; só se viam macacos de muitas espécies, mutuns fugiam, erguendo-se nas moitas, e algumas grandes araras azuis grasnavam no topo das palmeiras, onde se aninhavam". J. B. von Spix (1781-1826) & C. Fr. von Martius (1794-1868). Viagem pelo Brasil -1817-1820. 2. ed. v. 3, [1961]. p. 241.


Mutum - Urumutum -
Álbum de aves amazônicas 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Um verdadeiro temporal


"[...]. Estando o dia abrasador, a atmosfera baixa e nuvens carregadas para o S ameaçando mudança de tempo, pelas 3 horas da tarde dirigi-me para Itaituba. Depois de uma hora de viagem começou a soprar o vento, que crescendo sempre, encapelou as águas, que a custo podia a força de dois remos rompe-las. Sobrevindo depois chuva, acompanhada de repetidos relâmpagos e trovões, formou-se um verdadeiro temporal, acompanhado de furacões, que me obrigou a arribar a uma praia, com grande dificuldade, já molhado não só pela chuva como pela água que entrava na canoa ocasionada pela quebra das vagas de encontro ao seu costado. Então, tive ocasião de observar o temporal sem risco de vida, um dos maiores que costumam assolar essa paragem. A chuva cessara. O vento mugia pela floresta, levando ante si inúmeras folhas, flores e galhos; as águas encapeladas pareciam refletir com rapidez; o ruído da chuva e dos trovões era aterrador, entretanto o sol estava fora, a tarde clara, e só grossas nuvens corriam pelo horizonte de S. para N.
Era um espetáculo soberbo, que se me oferecia, e que ainda não tinha observado.
Cinco minutos durou essa revolução dos elementos, correndo depois para S.O. todo o temporal. Cessando o vento começaram as águas a aplainarem-se dando-me lugar a seguir viagem, procurando sempre a margem. Pelas 6 horas, depois de lutar muito com a corrente que ainda sentia-se do temporal, cheguei a Itaituba, onde o vento tinha feito garrar algumas montarias, canoas de cachoeira e atirado com outras para terra.
No dia seguinte, ao alvorecer, tomei a direção da mata que fica à esquerda da vila, onde encontrei muitas Maximilianas regias  e uma variedade de Bactris macroacantha de porte menor, que estava com frutos verdes. Próximo a um lago que aí há coberto de aninga, encontrei alguns pés de Symphonia (seringueiras) e de Dipterix odorata (cumarú) que estavam também com frutos. Estes servem de alimento aos morcegos, que comem a polpa do mesocarpo e abandonam o resto. [...]". João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração e estudo do Valle do Amazonas: Rio Tapajós. 1875. p. 70-71.


Montrichardia arborescens.
Curtis´s Botanical Magazine. v. 128, t. 7817. 1902.
Desenho de M. Smith.
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sábado, 27 de janeiro de 2018

Um verdadeiro túnel de verdura


"[...]. Graças a essa excursão, pisei, hoje, pela primeira vez, a floresta amazônica. Todo o nosso percurso foi feito através de um verdadeiro túnel de verdura, entrecortado de dois ou três regatos, aliás quase secos.
A mata é portentosa e só por uma ou outra clareira o sol consegue vencer a grenha hirsuta e verde das frondes que se entretecem no alto. Como colunas mestras desse majestoso zimbório, alteiam-se aqui e ali os grossos e sombrios troncos das castanheiras. São também gigantescos os tauaris, que o General me dá a conhecer. De sua entrecasca os nativos conseguem boa estopa e até mortalha para cigarros. Entre as palmeiras, destaco as murumurus, de palmas brotando do chão, à maneira de enormes cocares. Não raro, um amontoado de pétalas coloridas, juncando o nosso caminho, denuncia as árvores que andam a florir lá por cima, mas que não vemos. assim, deve provir daqueles mesmos tauaris, o pintalgado vermelho, sobre o folhedo, em que pisamos uma vez. Corolas cremes e estreladas atestam também a floração dos piquiás. [...]". Gstão Cruls (1888-1959). A Amazônia que eu vi. 1954. 4. ed. il. 1954. p. 29-30.


Castanhais
Desenho de Percy Lau (1903-1972)

domingo, 21 de janeiro de 2018

Um soberbo panorama


"[...]. No dia seguinte pelas 6 horas da manhã tomando um animal, subi ao cume da serra, para examinar a floresta. Daí goza-se um soberbo panorama, vendo-se até perder-se nas nuvens do horizonte, inúmeros igarapés que correm pelas terras baixas, distinguindo-se bem o Tapajós, assoberbado tudo pelo volume do Amazonas; apresentando o aspecto geral, de um mar coberto de ilhas e penínsulas de verdejante vegetação. Depois de por algum tempo,  gozar as delícias de uma das brilhantes páginas da natureza do equador, segui tendo a minha esquerda um grande cacoal, onde ouvia-se cantar o japu (Cassicus cristatus), e à minha direita um imenso canavial, ocupando ambos a chapada da serra ou a terra preta, chamada. [...].
Apeando-me à entrada da mata, fui puxando o animal por entre ela, para melhor observar e coletar. Pouco depois de deixar o lugar cultivado, comecei insensivelmente a descer à sombra de um imenso docel de verdura, que a centenas de pés ficava acima de minha cabeça. [...]. Logo que comecei a caminhar deparei com um grande pé de inajá, que media mais de cem pés, pelo cálculo que fizemos, medindo um outro que jazia por terra já seco, derrubado pelo vento, e que tinha iguais dimensões. Descendo, entrei num vale úmido, coberto igualmente por fechada floresta, mas cuja vegetação não atingia às proporções da vertente da serra e era então mais entrelaçada de cipós. Aí encontrei muitos exemplares de Griffinia e uma Musacea cujas flores senti não poder aproveitar por estarem estragadas, não só pelo tempo como pelos insetos. [...]. João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração e estudo do Valle do Amazonas: Rio Tapajós. 1875. p. 41-42.


Griffinia hyacinthina
Magazine of botany and register of fowering plants. v. 12, 1839.
Desenho de S. Holden.
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quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Os músicos da selva


"Em nenhum outro lugar do mundo existem tantas aves canoras como nas florestas. A natureza, aí, é uma orquestra. Seus instrumentos são as lufadas agitadas dos ventos, o tamborilar da chuva, o farfalhar das folhas. Os insetos acompanham em surdina. O baixo é representado pelo coaxar dos sapos. E os solistas são os pássaros canoros.
Raramente existe silêncio completo na mata. Mesmo ao meio-dia, quando a maioria dos animais da floresta se esconde do  sol ainda se ouve o zumbir das abelhas e das moscas de cores álacres, assim como o coro dos sapos.
Quando a névoa matinal começa a ceder lugar aos raios do sol, as vozes das aves penetram a floresta. Os insetos  despertam para a vida. As borboletas, e entre elas as grandes "Morphos", azuis e brancas, batem as asas, vibram as extremidades delas e levantam voo nas sombras das verdes mansões. Os pássaros solistas espertam cantando. Às cinco horas ouve-se a voz de uma pomba, que parece dizer, em nossa língua "Maria, já é dia!" De repente a calma da floresta é ferida pelo som de um sino. É  uma nota tão pura e límpida que todos os que a ouvem ficam certos de que alguém anda a bater um sino do mais melodioso tom. O próprio Orfeu, sem dúvida, deixaria cair sua flauta para escutar tão belo som. Este vem de um pássaro bonito e todo branco, uma araponga, pertencente à família dos Cotingídeos, que também encerra o galo da serra e o pavão da mata.
A araponga, um pouco menor que um pombo doméstico, é toda branca. na parte superior do comprido bico negro existe uma saliência preta, formada por uma peça em forma de clava, que, segundo os índios, fica de pé quando o pássaro entoa o seu canto.
Logo outras aves se reúnem ao coro da mata. Pode-se ouvir, ao longe, o canto do "realejo", de notas tão melodiosas que vocês jurariam  ter entrado na floresta algum tocador de sinfonias. Outro pássaro, que ainda não possui nome, desfia um canto que lembra o som do martelo a bater em prego: "peng-peng-peng!".
Durante o dia há um verdadeiro desfile de pássaros, cada qual entoando um canto todo seu. São os "surucuás" bronzeados e de tintas vermelhas, as "ciganas" e as rubras "guarás", ou "ibis". São os mutuns de cor preta lustrosa, os perus da selva. Garças brancas, como fantasmas,ou cinzentas. Também desfilam patos, pica-paus, tangarás,ferreiros e pombas. Todas essas aves despertam com o cantar dos músicos da selva. [...]". Victor W von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. [195?]. p. 97-100.


Surucuás.
DESCOURTILZ, Jean Theodore Ornithologie Bresilienne Ou Histoire Des Oiseaux Du Brésil, Remarquables Par Leur Plumage, Leur Chant Ou Leurs Habitudes.[1852-1856].
www.biodiversitylibrary.org