quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Verdadeiros jardins suspensos


"[...]. Entre o solo triste dos deserdados e o alto das franças floridas há um andar intermédio, onde se apresenta uma outra vida luxuriante e multicor, verdadeiros jardins suspensos, constituídos por plantas que nas árvores gigantescas foram apenas buscar um pouco, bastando-lhes o pouco de terra que se acumula entre dois ramos, a umidade retida pelas raízes emaranhadas. É o andar das epífitas, orquídeas de flores caprichosas, gravatás de brilhante colorido, e outras, e outras muitas. Aqui e ali, rompendo a dureza de um tronco, surge a despeito da treva e da umidade, muito abaixo das suas irmãs felizes das alturas, uma flor que vem buscar a fertilização num mundo diferente, por asas diversas das que voluteia, visitando as outras  flores de sua espécie". Cândido de Mello-Leitão (1886-1948). A vida na selva. 1940. p 9-10.


Orquídea Comparettia falcata
Lindenia-iconographie des orchidées, v. 4, 1888
www.biodiversitylibrary.org

domingo, 10 de dezembro de 2017

Uma formidável tempestade


"Nessa tarde, quando regressávamos, uma formidável tempestade surpreendeu-nos na mata. O mar de frondes verdes encapelara-se de súbito, estopetado por ventania louca, que ululava com voz rugidora e ameaçante. Os pegões eram contínuos e ia no ar a zanguizarra das franças atritadas e o remoinho das folhas soltas e dos galhos partidos. Por vezes, tinha-se a impressão de que as árvores não resistiriam às lufadas mais fortes, que lhes vergavam os tronos e torciam as ramas, abrindo clareiras por onde se divisavam nesgas de um céu de chumbo. E fez-se a noite na floresta, uma noite espessa e tormentosa, entrecortada apenas de onde a onde pela fosforescência lívida dos relâmpagos. As bátegas caíam pesadas enquanto os trovões restrugiam sobre as nossas cabeças, aumentando a atoarda do furacão em que se ouvia o alarido de mil bocas em rinchavelhadas histéricas, uivos, urros e assobios. Não seria maior a algazarra se uma multidão de gigantes andasse às soltas, resfolegando uma pocema de guerra.
Encolhidos entre as sapopemas de uma sumaumeira,  tínhamos as caras de quatro náufragos e olhávamos uns para os outros. Malila, mais calma, observou-nos: - Isto é a mãe do mato que está zangada.
A seguir, abrindo a cestinha a tiracolo, começou a esfregar-se pacientemente com a tinta vermelha do carajurú que a protegeria da ação do raio". Gastão Cruls (1888-1959). A Amazônia misteriosa. 6. ed. 1953. p. 183-184.



Árvore  com sapopemas.
Franz Keller-Leuzinger. Voyage d´exploration sur l´Amazone et le madeira. 1874.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Os perfumes da mata


"[...]. Quantos mesmo estando acostumados a mata olham sem ver tudo o que nela existe! A baunilha que abraça amorosamente o tronco da mungubeira e deixa cair generosamente, das gordas favas, gotas de mel, onde as formigas se encharcam e se besuntam. Mais adiante, o "cipó catinga" enlaça troncos impregnando do seu perfume as cascas sarabulhentas e inodoras de certas árvores. A japana, além de medicinal, possui um cheiro doce e agreste, cresce à beira dos caminhos e dentro delas saltam gafanhotos muito verdes e coleópteros com salpicos.
O sol, aos poucos, sacudia o seu torpor e esquentava até as tocas das cotias, acendendo a mata de luz, calor, perfumes, cantos de pássaros, gritos de macaco e ilas, murmúrios diversos; insetos, vermes e repteis, vêm voar e deslisar gostosamente por onde pousa o sol. [...]. E. Costa Lima. O filho da cobra grande. 2. ed. 1944. p. 117-120.


Baunilha. Vanilla planifolia,
 Denisse, E. Flore d´Amérique, t. 94, 1843-1846.
 www. plantillustrations. org

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Os notáveis cipós


"[...]. Mas os cipós ainda se tornam notáveis por muitos outros aspectos. Há alguns que, como o já citado cipó-d´água e o ituá-açu, são a providência dos que se perdem na mata. Quando de qualquer deles se corta rapidamente um pedaço da haste, mais ou menos um metro, que também sem perda de tempo, deve ser logo virada para baixo, de tal modo que a sua extremidade superior passe a ser inferior, desta se escoará boa quantidade d´água, sempre límpida e fresca, apenas ligeiramente ácida. Vários se recomendam pela beleza das suas flores ou pelo delicado sabor dos seus frutos, quando não reúnem as duas coisas, como acontece com os numerosos maracujás. Outros serão aproveitados pelas qualidades estimulantes ou medicamentosas de suas sementes e, entre estes, vale por todos o guaraná. Ainda outros, pela tinta que se extrai das suas folhas, como o carajuru, ou pelos violentos tóxicos que se conseguem dos seus caules e raízes, como o dos Strychnos, que entram na composição do curare, e de certas Apocináceas, que servem para  tinguijar o peixe. [...]". Gastão Cruls (1888-1959). Hiléia amazônica. 1955. p. 15. 



Maracujá. Passiflora alata.
Kerner, J. S. Hortus sempervirens, v. 33, t. 392 (1814).
Desenho de J. S. Kerner.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Floresta de igapó


"O trecho da floresta, que estávamos atravessando, era um igapó, mas os pontos mais elevados do terreno só eram inundados por uma camada de poucos centímetros de água na época das chuvas. Esse trecho era composto por uma assombrosa diversidade de belas e majestosas árvores, nas quais uma infinita variedade de trepadeiras lenhosas e grossas se enroscavam e formavam caracóis e anéis, guirlandas e festões, tranças e franjas. A palmeira mais comum era a imponente Astrocaryum jauari, cujos espinhos, caídos no chão, nos obrigavam a ter o máximo cuidado ao pisar, pois estávamos todos descalços. A vegetação rasteira era rala, exceto nos trechos onde havia bambuais, os quais formavam impenetráveis moitas de plumosa folhagem e agressivas hastes cheias de nós, o que sempre nos levava a fazer uma volta para evitá-las. O chão se apresentava inteiramente atulhado de frutas podres, vagens gigantescas, folhas, ramos e troncos de árvores, dando a impressão de ser ao mesmo tempo o cemitério e o berço do grande mundo vegetal que se expandia lá no alto. Algumas árvores eram de uma altura fenomenal. Vimos vários espécimes da moratinga, com seus troncos cilíndricos - cuja circunferência nem ouso calcular - elevando-se a alturas vertiginosas e se perdendo no meio das copas das árvores mais baixas. Outra árvore grande e digna de nota era o açacu [...]. Qualquer viajante no Amazonas, ao conversar com o povo da região, acabará por ouvir falar nas venenosas propriedades do leite dessa árvores. Quando retalhado a faca, o seu tronco exsuda uma seiva leitosa que não  só é fatal se for ingerida, como causa também feridas incuráveis quando simplesmente borrifada na pele. Meus companheiros sempre passavam o mais longe possível do açacu, quando o encontravam. A árvore é suficientemente feia para fazer jus à sua má fama; seu tronco tem um tom verde-oliva sujo e eivado de espinhos curtos e pontiagudos, de mortífero aspecto". Henry Walter Bates (1825-1892). Um naturalista no Rio Amazonas. 1979. p. 249.




Açacu. Hura crepitans.
Trew, C. J, Ehret, G. D. Plantae selectae. v 4, t. 34. 1754.
www.plantillustrations.org

terça-feira, 21 de novembro de 2017

A naturalista na floresta


"[...].Tão distraída andou porém que a noite a surpreendeu numa clareira rasgada na floresta. O céu fosco, sem ameaça de chuva, mas também sem a rosa do sol, lembrava esses dias toldados de cinzento que aparecem no Alto Amazonas ao tempo das friagens, de maio a agosto. Calma, confiante no astro a surgir e que a orientaria, Snethlage reuniu um pouco de sacaís, ateou-lhes fogo e, para alimentá-la durante a noite, arrastou para junto da fogueira vários galhos de árvore por ali tombados. Fez a cama de folhas secas perto das labaredas e recostou-se no chão com a espingarda no regaço. Adormeceu profundamente. Ao repontar baço da claridade notou que o dia de novo não deixaria ver o disco vermelho do sol, o que a impossibilitava de se orientar ao rumo do rio. Comera na véspera o chocolate que levara. Era preciso arranjar alimentos.
Prestou atenção em roda e viu uma grande árvore de caju do mato. Foi até embaixo da copa monumental onde recolheu muitas frutas, doces, vermelhos, saborosos. Chupou alguns e assou as castanhas. Muito próximo, um uxizeiro estrelava o chão de uxis. Juntou vários. Por sua vez as sapucaias, de ouriços abertos nas árvores, deixavam cair as castanhas magníficas, estivando o solo de amêndoas. Passou de novo o dia caminhando a esmo até que se viu forçada a escolher um ponto em condições de pernoitar. Outra vez reuniu muitos galhos e sacaís, acendendo uma fogueira, junto da qual ela se deitou. Agora porém algo inquieta, apreensiva mesmo. Das vinte e uma horas em diante, o ruído na floresta fora infernal: assobios, gemidos, soluços, quedas de frutos, estrídulos, urros, pipilos, passadas, correrias, choques de cascos, bicadas na madeira, arrasto pelas folhas secas no chão, mandíbulas a roerem, pulos, cipós a se agitarem, baques de corpos em luta, zunidos, cápsulas e frutos a se abrirem com a força de molas de aço.
Na maioria dos casos Snethlage conhecia o bicho que determinava este ou aquele ruído, tantas observações já fizera sobre a vida animal da nossa fauna. Por fim, o cansaço a empolgou e dormiu no meio da jangla ao som dramático daquela música do teatro amazônico. Aos primeiros cantos da maria-já-é-dia levantou-se ao pé do brasido quase  extinto e refletiu no que se passara, recordando-se dos comentários do seu grande patrício Alexandre Humboldt, que fora o primeiro letrado a registrar quanto são silenciosos os dias na mata amazônica e quanto são ruidosas as noites, [...].
Sem o sol, tornou a caminhar ao acaso, alheia a qualquer diretriz. Passou por uma plantação de milho cujas espigas atingiam cerca de quarenta centímetros, sendo os grãos alternadamente vermelhos e pretos. Examinou algumas verdoengas. Saborosas. Era o célebre milho do índio que os botânicos brasileiros da atualidade classificavam de nativo. Cruzou depois outra desenvolvida plantação de abacaxis, também visto agora como indígena. Recordou-se porém das polêmicas já havidas a respeito dos nomes e das espécies. Porque alguns diziam que o ananás provinha do abacaxi e vice-versa; era ananás e não abacaxi. Hoje, no entanto, está absolutamente provado entre botânicos e filólogos que do abacaxi proveio o ananás e que o nome indígena é o primeiro. Ananás o chamaram os conquistadores. [...].". Raimundo Morais (1872-1941). Os Igaraúnas. 1985. p. 199-200.


Ananas.
Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae quarum imagines ad exemplaria naturalia Londinei, in hortis curiosorum nutrita. [s.l. s.n.], 1750-1773.
 www.biodiversitylibrary.org

sábado, 18 de novembro de 2017

Em pleno rio Amazonas


"Estamos agora em pleno rio Amazonas. O nosso barco parte as águas do rio-dos-rios, majestoso e soberbo. Paus rolam, na corrente, serena.
Ao quarto dia, na fímbria do horizonte, o azul forte das serras. Começou, assim, aspecto novo para a nossa visão.
O Jari...Arumanduba...
A serra da Velha Pobre, com o cimo pelado e nu.
Troncos esguios, retos, dourados, de folhas amarelas e secas, que brilham batidas de sol...
Trepadeiras tristes que envolvem as árvores.
O rio é  mais espumoso e mais cor de barro.
Junto das montanhas, a vegetação torna-se mirrada, pequena, raquítica.
Bananeiras que farfalham ao vento.
Os ramos deitam-se sonolentos sobre o espelho líquido.
O painel imutável torna-se, às vezes, monótono.
Na agonia da tarde, os céus ficam translúcidos como uma lâmina rebrilhante.
O rio - um lago sereno - reflete o firmamento: torna-se, também, claríssimo". Raimundo de Menezes. Nas ribas do rio-mar. 1928. p. 177-178.


Bananeira. Musa paradisiaca.
Denisse, E. Flore d´Amérique, t. 117, 1843-1846.
www.plantillustrations.org.