sexta-feira, 18 de maio de 2018

Plantas aquáticas flutuantes


"Entramos em seguida por um braço estreito do riacho, cujas águas estavam repletas de certas plantas aquáticas flutuantes que se aglomeravam em grandes massas flutuantes. A falta de vento obrigou-nos a remar, até que as ervas passaram a ser tão consideravelmente espessas que bloqueavam o canal inteiramente, tornando os remos inúteis. Os índios então desceram em terra e cortaram duas compridas varas com forquilhas. De fato, a massa vegetal era tão espessa que nela podíamos encontrar um firme apoio para as varas, conseguindo assim prosseguir. De vez em quando entrávamos em águas desimpedidas, remando então por entre exemplares de Utricularia e de Pontederia muito bonitas. Mas logo depois adentrávamos em trechos nos quais o canal estava completamente obstruído pelas ervas. As gramíneas eram por vezes tão altas que virtualmente desaparecíamos dentro delas. O pior de tudo era o fato de serem as folhas muito cortantes, bastando roçar a mão nelas para que nos lanhássemos dolorosamente. Dos lados do canal estendiam-se terrenos semi-inundados, recobertos por relvas. Era o campo, que se transforma num verdadeiro lago quando começa a estação chuvosa. [...]". Alfred Russel Wallace (1823-1913). Viagens pelos rios Amazonas e Negro. 1979.


Pontederia.
Trew, C. J. Ehret, G. D. Plantae selectae quarum imagines ad exemplaria naturalia Londinei in hortis curiosoum nutrita. 1750-1773.
www.biodiversity.org

sábado, 12 de maio de 2018

Jutaí (Hymenaea courbaril)


"Os galhos lá em cima douram-se com os últimos raios do sol: finas folhas enevoadas de murtas e acácias. Creio que foi Humboldt quem primeiro fez notar o efeito peculiar dessas folhas pinadas, uma feição notável das florestas tropicais. Há em torno de nosso acampamento uma vintena de espécies; um esplêndido bosque se estivesse em outro lugar. Minha rede está amarrada a um jetaí, [...], madeira forte e durável mas muito dura para muitos fins.
Os frutos ovais, castanhos, estão espalhados pelo chão; cascas duras, com as sementes envolvidas numa farinha doce. Uma resina pegajosa exuda do seu tronco; os índios usam essa jetaícica [...]  para envernizar seus potes e louças de barro e queimam a cerâmica em fogo alto feito com casca de jetai. [...]". Herbert Smith (1851-1919). In: PAPAVERO, Nelson; OVERAL William L. Taperinha: histórico das pesquisas de história natural realizadas em uma fazenda da região de Santarém, no Pará, nos séculos XIX e XX. 2011. p. 162-163.



 Jutaí. ou Jetaí. (Hymenaea courbaril) .
Jacquin, N. J. von. Selectarum  stirpium Americanarum historia.  t. 264, fig. 95, 1780-1781.
 www.plantillustrations.org.





terça-feira, 8 de maio de 2018

A república dos maracanãs e dos periquitos


"[...]. Restam ainda muitos outros pássaros, que também pertencem à república dos papagaios, e por isso muitos os descrevem como espécies subalternas na mesma transcendência dos papagaios; outros porém querem que sejam totalmente diversos, e que por si sós constituam nova república, como são os pássaros maracanãs e os periquitos. E na verdade eles só se diferenciam na sua pequenez, porque nas cores são o mesmo, porém, ou sejam da mesma, ou de diversa espécie, fazem-se acredores de alguma memória. São pois os maracanãs como médios entre os papagaios já referidos, e os periquitos, do tamanho de um pequeno frango. O bico revolto, pés, cores, habilidades e feitio tudo é de papagaio; e tem tanta variedade de castas, como os mesmos papagaios, porque há uns reais com cabeça e cauda amarelas, cotos e pontas das asas vermelhas. Outros, como os moleiros, todos verde-claros; estes sertanejos, e aqueles com alguma cor roxa, e assim nas mais castas todas galantes, e com a mesma habilidade de falar, rir, etc. e por isso também muito estimados. Os periquitos são os últimos por mais pequenos, e são como os estorninhos no corpo, posto que alguns têm a grandeza de melros. Têm também entre si a mesma variedade de castas que todos os das outras espécies, com o mesmo feitio, e cores não têm porém tanta expedição na língua para aprenderem a falar, ainda que alguma coisa tomam e aprendem, sendo que não necessitam de boa ponta de língua para serem estimados, pois só com a sua pequenez, belas cores, e vista granjeiam tanto a estimação e afeto das matronas que os trazem já nas palmas, já no seio, já no ombro, e quando pouco nos estrados e por todas as salas, com resguardo porém, sempre por razão dos cães e gatos. [...]". Pe. João Daniel (1722-1776). Tesouro descoberto no máximo rio Amazonas. 2004. p. 172-173.


Periquitos-Jandaia - Tuim e Maracanã.
Álbum de Aves amazônicas 1900-1906
Desenho de Ernst Lohse (1873-1930)

sábado, 5 de maio de 2018

Os guarás com suas asas cor de fogo


"Nada mais luxuriante e majestosa do que a navegação selvagem que cerca Belém. Não somente a costa oceânica está margeada por uma faixa sempre verde de mangueiras, como esse cinturão verde alcança, também, o interior e se prolonga desde a foz do Amazonas e do rio Pará até a Vila  de Cametá no Tocantins e depois a oeste, até Gurupá, e, finalmente, em todas as ilhas baixas, que se poderiam denominar o arquipélago do Pará. No entanto, à medida que se afasta do Atlântico, as árvores comuns às regiões marítimas vão se tornando  cada vez mais raras, enquanto a vegetação que caracteriza a região do Amazonas vai dominando até reinar sozinha. A verdura uniforme e escura daquelas árvores mistura-se pouco a pouco, e cada lugar a uma verdura mais variada e menos carregada, alternada, ora por flores magníficas, ora pelos topes recurvados da palmeira jupati. Bandos inumeráveis de guarás ou maçaricos vermelhos se abrigam nos cimos dessas palmeiras e passeiam, aqui e ali, sobre esse fundo verde as suas asas-cor-de-fogo". Alcide D´Orbigny (1802-1857). Viagem pitoresca através do Brasil. 1976. p. 79.



Guará. (Eudocimus ruber)
 J. T. Descourtilz. Oiseaux brillans du Brésil, 1834.
 www.biodiversitylibrary.org

sábado, 28 de abril de 2018

As florestas com sua vegetação extraordinária


"Nas florestas menos majestosas, em que os raios do sol penetram facilmente, descobre-se nas formas da vegetação uma variedade extraordinária, uma abundância não conhecida em outras regiões. mas o olho do naturalista se torna aqui mais necessário, e ele tem, nesta graça majestosa, belezas que só a ciência pode revelar.
"A vida, a mais abundante vegetação, diz um viajante, estão espalhadas por toda parte; não se encontra o menor espaço de terra desprovido de plantas". Ao longo de todos os troncos de árvores, vêem-se florescer, subir, enrodilhar-se, agarrar-se aos martírios, os caládios, os dracônitos, pimentas, begônias, baunilhas, fetos, líquens, musgos de espécies variadas. As palmeiras, as mimosas, as bignonias, os ingás, os cinchos, os azevinhos, o loureiro, a murta, o jacarandá, as vismias, as sapucaias, a figueira e mil outras espécies de árvores, a maior parte ignoradas, compõem as florestas. A terra está juncada de suas de suas flores, e dificilmente se identifica a árvore de onde caíram. Alguns dos gigantescos troncos, carregados de flores, de longe parecem brancos, amarelos escuros, encarnados, cor-de-rosa, violetas e azuis-celestes. Nos sítios abaulados elevam-se em grupos unidos sobre longos pecíolos as grandes e belas folhas elípticas das helicônias, que algumas vezes têm oito ou dez pés de altura, e são ornadas de flores exóticas encarnadas e cor de fogo. No ponto em que se dividem os ramos das maiores árvores, crescem enormes bromélias, com flores em espigas ou em panículas, de cor escarlate ou de coloração igualmente belas. Delas descem grossos tufos de raízes semelhantes a cordas, que chegam até ao chão e constituem novos obstáculos aos viajantes. Estes talos de bromélias cobrem as árvores até que elas morram depois de longos anos de existência, e desarraigadas pelo vento, caiam por terra com grande barulho. Milhares de plantas trepadeiras de todas as dimensões, desde a mais delgada até a da grossura da coxa de um homem, e cuja madeira é dura e compacta, bauínias, banistérias, paulínias e outras, se enlaçam ao redor das árvores, elevando-se até os seus cimos, onde florescem e dão seus frutos, sem que o homem possa percebê-los. Alguns destes vegetais têm uma forma tão singular, por exemplo certas banistérias, que não podemos vê-las sem espanto. Algumas vezes o tronco em torno do qual estas plantas se enroscam, cai em pé, então vêem-se talas colossais, enlaçados uns com outros, sustendo-se em pé e facilmente se percebe a causa deste fenômeno. Seria muito difícil pintar estas florestas, porque a arte será sempre insuficiente para descrevê-las".
Mas após ter visto os grandes deste vasto quadro, se dermos atenção às particularidades, maior há de ser a admiração. A variedade das árvores reunidas em um pequeno sítio maravilha sempre o europeu; e como disse um sábio observador, não é sem surpresa que se pode avaliar em 60 ou mesmo em 80 o número dos grandes vegetais de espécies diferentes, que é provável encontrar em um quarto de légua quadrada". Ferdinand Denis (1798-1890). Brasil. 1980. p. 72-73.



 Heliconia sp.  e Beija-flores
 Gould, J. A monograph of the Trochilidae, or family of humming birds. v. 2, t. 110, 1861. 
www.plantillustrations.org

terça-feira, 24 de abril de 2018

À medida que o dia avançava


"Quase sempre soprava um vento brando à medida que o dia avançava; recolhíamos então as nossas redes de dormir, içávamos todas as velas e a embarcação deslizava rio abaixo animadamente. Pena preferia que o almoço fosse preparado em terra quando não havia vento, ou este era muto fraco. Por volta de meio-dia procurávamos um recanto calmo na beira da mata, onde houvesse uma clareira suficiente para nela acendermos fogo. Eu dispunha então de uma hora para caçar nas vizinhanças, sendo quase sempre recompensado com a descoberta de novas espécies. Entretanto, durante a maior parte de nossa viagem parávamos na casa de algum colono, armando a nossa fogueira no seu embarcadouro. Antes do almoço era nosso hábito tomar banho no rio, e em seguida, de acordo com um costume generalizado no Amazonas - onde com efeito parece justificado, tendo em vista a pobre dieta de peixe da região - cada um de nós tomava meia caneca de cachaça, como aperitivo; finalmente acomodavamo-nos para saborear a refeição, composta de ensopado de pirarucu, feijão e torresmos. Uma ou duas vezes por semana comíamos galinha, ou outra ave qualquer, e arroz; ao jantar, depois que o sol se punha, sempre tínhamos peixe fresco, pescado à tardinha pelos nossos homens. As manhãs eram frescas e agradáveis até o meio-dia, mas à tarde o calor se tornava insuportável, principalmente quando o tempo estava nublado e ameaçando tempestade, o que acontecia com frequência. Nessas horas ficávamos acocorados à sombra das velas, ou nos estirávamos nas nossas redes dentro da cabina, preferindo ficar confinados ali a nos expormos ao intolerável calor do sol no convés. Geralmente interrompíamos a viagem por volta das nove horas, escolhendo um lugar seguro onde atracar o barco para a noite. As frescas horas do crepúsculo eram agradabilíssimas; bandos de patos selvagens (Anas autumnalis), de papagaios e araras de voz roufenha passavam voando aos pares, de volta aos seus abrigos, enquanto o sol mergulhava abruptamente no horizonte. Começava então o breve coro dos animais da floresta à hora do crepúsculo, no qual ressaltavam os macacos uivadores, cujos gritos apavorantes e sobrenaturais exacerbavam a sensação de solidão que nos assaltava à medida que as trevas se tornavam mais profundas. Logo depois, os pirilampos apareciam em grande variedade, pisca-piscando no meio das árvores. Quando a noite descia completamente, tudo silenciava no meio da mata, à exceção do coaxar ocasional das rãs arborícolas ou do monótono cricrilar de grilos e gafanhotos". Henry Walter Bates. (1825-1892). Um naturalista no Rio Amazonas. 1979. p. 112.


Selva.
 Peyritsch, J. J. ; Schott, H. W. Aroideae Maximilianae. 1879.
Desenho de Josef Selleney
www.plantillustrations.org

sábado, 21 de abril de 2018

As folhas numerosas da vitória-régia


"[...]. Os periantãs de canarana, soltos das margens como navios verdoengos das iaras, sobem e descem no vai-e-vem manso das marés. São esmeraldinos tufos flutuantes de gramínea ondulada pelos ventos. Aí pousam as aves aquáticas, pensativas umas, vigilantes outras, mas todas atentas para dentro dessas ilhas suspensas na flor da corrente, a ver se descobrem, no intrincado labirinto das raízes, os peixinhos, os insetos, as células que se escondem sob os talos de capim.
Às vezes, para amortecer a vaga, o tapuio mete a canoa em que marisca nesses tapetes errantes e vai, ao sabor do monção, filosoficamente, perscrutando os sítios daquela derrota imprevista para ele. Nalgumas lagoas mais quietas, paradas e negras, fora da ação das quadraturas e das sizígias, repontam, no esmalte verde dos charões vegetais debruados de tinta ferrugenta, as folhas numerosas da vitória-régia. Marchetam a superfície. De clorofila carregada, quase glauca, com pedúnculos exteriores e floridos, que se erguem do fundo palustre acima das bordas, essa ninféia do tamanho de pratos e do tamanho de tachos é ainda, tutelarmente, o agasalho dos ofídios, dos quelônios, dos poraquês, dos hidrossáurios, que debaixo dela se abrigam". Raimundo Morais (1872-1941). Na Planície amazônica. 6. ed. 1960. p. 21-22.


Beija-flor. em vitória-régia.
Victoria amazonica. Gould, J. A monograph of the Trochilidae, or family of humming birds. v. 5, t. 358, 1861.  www.plantillustrations.org