domingo, 21 de janeiro de 2018

Um soberbo panorama


"[...]. No dia seguinte pelas 6 horas da manhã tomando um animal, subi ao cume da serra, para examinar a floresta. Daí goza-se um soberbo panorama, vendo-se até perder-se nas nuvens do horizonte, inúmeros igarapés que correm pelas terras baixas, distinguindo-se bem o Tapajós, assoberbado tudo pelo volume do Amazonas; apresentando o aspecto geral, de um mar coberto de ilhas e penínsulas de verdejante vegetação. Depois de por algum tempo,  gozar as delícias de uma das brilhantes páginas da natureza do equador, segui tendo a minha esquerda um grande cacoal, onde ouvia-se cantar o japu (Cassicus cristatus), e à minha direita um imenso canavial, ocupando ambos a chapada da serra ou a terra preta, chamada. [...].
Apeando-me à entrada da mata, fui puxando o animal por entre ela, para melhor observar e coletar. Pouco depois de deixar o lugar cultivado, comecei insensivelmente a descer à sombra de um imenso docel de verdura, que a centenas de pés ficava acima de minha cabeça. [...]. Logo que comecei a caminhar deparei com um grande pé de inajá, que media mais de cem pés, pelo cálculo que fizemos, medindo um outro que jazia por terra já seco, derrubado pelo vento, e que tinha iguais dimensões. Descendo, entrei num vale úmido, coberto igualmente por fechada floresta, mas cuja vegetação não atingia às proporções da vertente da serra e era então mais entrelaçada de cipós. Aí encontrei muitos exemplares de Griffinia e uma Musacea cujas flores senti não poder aproveitar por estarem estragadas, não só pelo tempo como pelos insetos. [...]. João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração e estudo do Valle do Amazonas: Rio Tapajós. 1875. p. 41-42.


Griffinia hyacinthina
Magazine of botany and register of fowering plants. v. 12, 1839.
Desenho de S. Holden.
 www.plantillustrations.org

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Os músicos da selva


"Em nenhum outro lugar do mundo existem tantas aves canoras como nas florestas. A natureza, aí, é uma orquestra. Seus instrumentos são as lufadas agitadas dos ventos, o tamborilar da chuva, o farfalhar das folhas. Os insetos acompanham em surdina. O baixo é representado pelo coaxar dos sapos. E os solistas são os pássaros canoros.
Raramente existe silêncio completo na mata. Mesmo ao meio-dia, quando a maioria dos animais da floresta se esconde do  sol ainda se ouve o zumbir das abelhas e das moscas de cores álacres, assim como o coro dos sapos.
Quando a névoa matinal começa a ceder lugar aos raios do sol, as vozes das aves penetram a floresta. Os insetos  despertam para a vida. As borboletas, e entre elas as grandes "Morphos", azuis e brancas, batem as asas, vibram as extremidades delas e levantam voo nas sombras das verdes mansões. Os pássaros solistas espertam cantando. Às cinco horas ouve-se a voz de uma pomba, que parece dizer, em nossa língua "Maria, já é dia!" De repente a calma da floresta é ferida pelo som de um sino. É  uma nota tão pura e límpida que todos os que a ouvem ficam certos de que alguém anda a bater um sino do mais melodioso tom. O próprio Orfeu, sem dúvida, deixaria cair sua flauta para escutar tão belo som. Este vem de um pássaro bonito e todo branco, uma araponga, pertencente à família dos Cotingídeos, que também encerra o galo da serra e o pavão da mata.
A araponga, um pouco menor que um pombo doméstico, é toda branca. na parte superior do comprido bico negro existe uma saliência preta, formada por uma peça em forma de clava, que, segundo os índios, fica de pé quando o pássaro entoa o seu canto.
Logo outras aves se reúnem ao coro da mata. Pode-se ouvir, ao longe, o canto do "realejo", de notas tão melodiosas que vocês jurariam  ter entrado na floresta algum tocador de sinfonias. Outro pássaro, que ainda não possui nome, desfia um canto que lembra o som do martelo a bater em prego: "peng-peng-peng!".
Durante o dia há um verdadeiro desfile de pássaros, cada qual entoando um canto todo seu. São os "surucuás" bronzeados e de tintas vermelhas, as "ciganas" e as rubras "guarás", ou "ibis". São os mutuns de cor preta lustrosa, os perus da selva. Garças brancas, como fantasmas,ou cinzentas. Também desfilam patos, pica-paus, tangarás,ferreiros e pombas. Todas essas aves despertam com o cantar dos músicos da selva. [...]". Victor W von Hagen (1908-1985). Animais da América do Sul. [195?]. p. 97-100.


Surucuás.
DESCOURTILZ, Jean Theodore Ornithologie Bresilienne Ou Histoire Des Oiseaux Du Brésil, Remarquables Par Leur Plumage, Leur Chant Ou Leurs Habitudes.[1852-1856].
www.biodiversitylibrary.org

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Lindos e aristocráticos vegetais


"Todas as ilhas, todas as margens, todas as penínsulas, toda a terra, em suma, daí para o jusante, povoa-se desses lindos e aristocráticos vegetais. Dir-se-ia rolarem para o banho da maré atlântica, de fluxo e refluxo, que desse ponto para a nascente se faz sentir, tal o florescimento, a pompa, o esplendor deles nas restingas e coroas. Há ínsulas fechadas de miritisais, verdadeiras paliçadas gigantescas, que ostentam no alto, como frisos esmeraldinos, os flabelos agitados pelo vento.
E mal se penetra o arquipélago, seja pelo norte de Marajó, conhecido por Ilhas de Fora, seja pelo sul, conhecido  por Ilhas de Dentro, as palmeiras, numa orgia floral, reproduzem-se em mil formas, em mil tamanhos, em mil nuanças. De surpreendentes e altas cabeleiras, ora desgrenhadas como espanadores, ora ameaçadoras como cabeças de Medusa, ora harmoniosas como repuxos de verdura, elas minguam, reduzem-se aos tipos arbustivos, tufos rasteiros de palmas e plumas sob os quais zunem os grilos e chiam as cigarras.
Aqui, de troncos retos, esbranquiçados, pardos, escuros, manchados; ali, em corcovas, em anéis, em arcos; além, trepando pelo caule das árvores, invocam serpentes monstruosas que tivessem glaucas orelhas de burro. Lisas numa espécie, enrugadas noutra, sem acúleos nesta, espinhentas naquela, amigas da claridade hoje, dadas à penumbra amanhã, as palmeiras amazônicas não somente guardam o sentido da Planície, pelas transformações que sofrem de dia para dia, como pelos deslocamentos que lhes imprimem as correntes fluviais, as marés oceânicas, levando-as dum extremo a outro, transplantando-as, alterando-lhes a estrutura, o colorido, o porte.
Além dessa mobilidade proveniente da ação hídrica, força viva e constante no vale, elas varam, pela mão do homem, do seu habitat agreste para os povoados, para os vilórios, para as cidades, e vão, numa apoteose peregrina, abrindo os leques nos jardins, nos parques, nas ruas, nas salas, nos templos. É um molde de beleza que se topa em todos os ângulos da bacia. A clorofila que as atinge, nuançada em mil tonalidades, dilui-se no azul, no cinzento, no roxo, no pardo, no vermelho. Na concorrência em busca do sol, esses indivíduos chegam-se tanto às margens, que representam, naquele lance geográfico de planura, vizinho do mar, a terceira manifestação vegetal de qualquer terra nova. Nos furos, nos canais, nos poções, nos igarapés dos verdejantes Estreitos de Breves, parece haver, pelo decorativo da palmeira, uma eterna festa da Primavera, tal a ornamentação da selva". Raimundo Morais (1872-1941). Paiz das pedras verdes. 1930. p. 98-100.


Astrocaryum farinosum.
Rio Yatapu, primeira cachoeira.
J. Barbosa Rodrigues. Sertum Palmarum Brasiliensium, 1872.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

As plantas que estavam em flor


"Constando-me que em um sítio próximo do rio Piracanã existiam algumas igaçabas para ele me dirigi na madrugada do dia 6 de Julho, tomando para isso uma montaria tripulada por dois tapuios, e indo amanhecer na ponta da ilha de Camararury que divide o Tapajós em dois braços, estendendo suas praias por ele a dentro em grande extensão. Querendo conhecer a vegetação que orna as margens, quer da ilha quer do rio, nesse lugar, tomei pelo braço que costeia a ilha pela margem esquerda e desci.
Tomando nota das plantas que estavam em flor, ou mais abundava nas margens, notei que uma ou outra soqueira de jauari aparecia,  rompendo a espessa ramada, feita de algumas plantas sarmentosas, que aí crescem em abundância tornando inacessível as margens, sem auxílio de algum instrumento que abra passagem. Começando a vazar o rio, contudo as águas beijavam ainda as raízes e ramas dessa longa cipoada, dentre a qual e além via-se romper e aparecer grandes pés de tachi do igapó, uma polygoniácea, do gênero Triplaris, e que julgo ser a Triplaris bompladiana, que embelezava a floresta com suas flores brancas e avermelhadas, quando velhas, que apresentavam quase suas copas inteiramente cobertas de flores; são árvores altas, mas cuja madeira não tem emprego, senão para carvão. Com seus troncos mergulhados na água e firmados na areia se antepõe a essa cipoada, inúmeros pés de mirtáceas, dos gêneros psidium e eugenia. João Barbosa Rodrigues (1842-1909). Exploração e estudo do valle do Amazonas: Rio Tapajós. 1875. p. 67-68.



Psidium pyriferum.  (Goiaba)
Botanical register. v. 13, 1827.
www.biodiversitylibrary.org

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Uma orquídea nos galhos de grande árvore


"A tarde estava sombria, com toda a aparência de chuva; mas, quando surgiu a lua, clareou e tornou-se bela a noite. Rede e poncho estavam ainda demasiadamente úmidos para neles dormir; por isso me deitei no alto de duas malas, com os arreios por travesseiro, ao pé de grande fogo que havíamos feito antes.
Na manhã seguinte, oito de setembro, continuamos o caminho, parando às onze horas sob umas árvores à beira do rio. A rota era agora em uma região mais rica que as que eu vira até então na província, coberta de matas na maior parte cheias de folhagem.
Perto das casas, que apareciam mais numerosas que  até aqui, vicejavam grandes plantações de algodão, fumo, cana de açúcar e mandioca. 
Nos galhos de grande árvore junto da estrada apanhei a primeira orquídea que havia visto na jornada, uma espécie de Oncidium, comprida e de folhas redondas.
A árvore em que crescia era o umari [...], mas a orquídea só crescia no lado inferior do galho, com as longas folhas pendentes como outros tantos látegos, entremeados de grandes panículas de flores amarelas. [...]". George Gardner (1812-1849). Viagem ao interior do Brasil. 1975. p. 91.


Orquídea Oncidium limminghei
Lindenia. iconography of orchids v. 1, 1885

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Maria-é-dia


" Jovial e madrugadora, maria-já é-dia ou marido-é-dia, não permite que ninguém demore no leito, depois que a madrugada começou a roçar sua clâmide de luz pelos cabeços dos montes.
Então enche a manhãzinha de gritos: maria-é-dia, maria-é-dia, convite amável para deixar o tépido aconchego dos lençóis e admirar o espetáculo sempre único do dia que desabrocha como uma flor, e cuja duração é regulada pelo subir e descambar do sol.
Maria-é-dia ama as claridades solares, e quem sabe se à noite não olha ansiosa o tranquilo caminhar das estrelas, perscrutando, saudosa, os primeiros albores da madrugada. O certo é que não há dia que nos chegue, sem que ela deixe de anunciá-lo alacremente.
Seu aspecto é de um pequeno bem-te-vi, ao qual se desbotassem as penas do cucuruto, que não são amarelas, mas esbranquiçadas. O dorso é, entretanto, pardo oliváceo, garganta cinzenta clara, mas o amarelo do ventre é desmaiado [...].
Em matéria de ninho, ninguém lhe dá conselhos e sabe fazê-lo com arte e extrema inteligência. Tece com tal sabedoria a tigelinha de seu ninho e põe-lhe externamente musgos e líquens, fixado por teias de aranha, que tal construção se dissimula e se confunde com os galhos da árvore seca onde o localiza. [...]". Eurico Santos (1883-1968). Pássaros do Brasil. 2004. p. 122-123.



Irapuru - Corruíra - Maria-é-dia - Cambaxirra.
Eurico Santos. Pássaros do Brasil. 2004.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Uma viagem iluminada pela lua



"[...]. Deslizamos pela sinuosa corrente abaixo, passando sob enormes árvores curvadas sobre a água, e logo desembocamos no Murucupi. Poucos metros adiante, entramos no Aitituba, um canal mais largo. Atravessamos esse canal e entramos em outro estreito braço de rio, no lado oposto. Ali a maré estava contra nós e tivemos muita dificuldade em prosseguir a viagem. Depois de lutarmos contra a forte corrente numa extensão de três quilômetros, chegamos a um lugar onde a maré tinha mudado de direção, o que indicava que havíamos atravessado a linha divisória das águas. A maré flui para dentro desse canal vindo das duas extremidades simultaneamente, encontrando-se no seu centro, embora não haja aparentemente, diferença de nível e a largura do canal seja a mesma. As marés são extremamente complexas em toda a vasta rede de canais e riachos que cortam as terras do delta amazônico. A lua apareceu nesse momento e iluminou os troncos das gigantescas árvores e a ramagem da colossal palmeira jupati, que se curvava em arcos sobre a água, clareando também as moitas de Arum arborescens, semelhantes a espectros perfilados nas margens. [...]".  Henry Walter Bates  (1825-1892). Um naturalista no rio Amazonas. 1979. p. 85-86.


Arum. 
 Trew, C. J. ; Ehret, G. D. Plantae selectae quarum imagines ad exemplaria naturalia Londinei, in hortis curiosorum nutrita. 1750-1773. 
www.biodiversitylibrary.org